HISTÓRIA, IDENTIDADE ÉTNICA E EXCLUSÃO SOCIAL NA REGIÃO DE SANTA CRUZ DO SUL (RS - BRASIL) *** Artigos opinativos e outros comentários selecionados pelo autor *** IURI J. AZEREDO

11 de out de 2012

Tangfest...


Vai começar mais uma Oktoberfest em Santa Cruz do Sul, essa festa turística, cada vez mais direcionada à juventude, que tem uma oportunidade de se divertir com muitos estímulos e desinibições alcoólicas (uma das drogas comprovadamente mais perigosas do nosso dia a dia), profusão de shows e bailes populares. Shows (os "nacionais") e bailes (nos lonões), diga-se, sem nenhum vínculo com a alegada “nossa cultura alemã”, já que os artistas e músicas não tem nada de etnicamente singulares, sendo aqueles consagrados nas paradas do pop nacional (sertanejo universitário, pagode, axé, rock brazuca, por aí).

Mas o verniz remete a Alemanha e a um folclore “germânico”, mesmo que quase completamente artificial, porque sem base na história e vida real das comunidades teuto-brasileiras da região. (Além do modelo de roupas, de danças e coreografias importadas do folclore da Alemanha, até as “bandas típicas” começam a ser trazidas do estrangeiro...)

Sobre os adereços da festa, insiste-se nas cores da atual bandeira alemã. Mesmo com o meu parco conhecimento histórico, sempre faço a pergunta: O que tem a ver a Alemanha contemporânea com o conjunto de emigrantes que aqui se assentaram a partir de 1849, quando sequer existia o país Alemanha? Eram reinos, principados, ducados, cidades livres e outras organizações estatais independentes – ou seja, diversos países diferentes uns dos outros, até mesmo em termos de idiomas –, que só por força do imperialismo da Prússia foram unificados (em parte) a partir de 1871, sofrendo alterações de conformação até recentemente (vide a união ocorrida entre as repúblicas Federal e Democrática em 1990). E sem considerar que para aqui também vieram gente que seria bem mais correto chamar-se – ao invés de alemães –  de austríacos, poloneses, belgas, tchecos, holandeses, russos etc.

Ou seja, se fôssemos considerar as cores simbólicas dos países dos imigrantes que se assentaram nos lotes rurais estatais e particulares na região de Santa Cruz no século XIX, haveria uma colcha de retalhos enorme, com uma infinidade de estampas e arabescos (e isso fala de pluralidade étnica já na "saída" das pessoas do continente europeu, mais tarde "homogeneizadas e pasteurizadas" na designação "alemão"). Talvez as bandeiras das sociedade de canto, leitura, desporto, lazer e integração que existiram e ainda (re)e(s)xistem sejam as mais adequadas para inspirar coloridos e outros estilos estéticos para a identificação e publicidade de uma festividade teuta em nosso município (aí sim, nessas agremiações, uma manifestação autêntica de uma teuto-brasilidade, com flagrantes e singulares hibridismos culturais) .

Mas o caso é que foi criada uma “festa alemã tipo Tang” – um pó artificial com sabor e cor químicos, além de demais aditivos sintéticos –, e não um saboroso suco natural com as frutas locais – sejam nativas, exóticas ou híbridas. Fez-se, “para turista ver”, a partir de meados dos anos de 1980, uma “cópia” (um tanto fajuta, deve-se reconhcer) do que acontece em Munique.

O que temos pelas ruas – as faixas, pinturas, cartazes e outros adereços –, em arranjos por todos os lugares nas cores amarelo-laranja (“dourada”), preto e vermelho (da bandeira da Alemanha), é, pois, mais uma vez, uma explicitação de uma “alemanhanização” da festa, em lugar da construção de uma comemoração com elementos autênticos das comunidade santa-cruzenses, onde teuto-descendentes formaram (e formam cada vez mais) um mix étnico com várias outras descendência e marcas culturais. (Veja-se o caso da "situação paradigmática" onde se come uma cuca de laranja, sorvendo um chimarrão, isto é, um bolo de trigo de origem norte-europeia, com cobertura de uma fruta asiática trazida por portugueses, plantada e cultivada por escravos negros nos primórdios do Brasil colônia, acompanhado de um chá de uma planta nativa (ilex paraguariensis), bebido desde tempos imemoriais por índios sul-americanos, adaptado por espanhóis na sua forma de consumo com bomba metálica e água quente...)

Reconheço o empenho sincero e abnegado de muitíssimas pessoas envolvidas intimamente com a Oktober desde a sua criação e realização anual. Nem estou dizendo que não haja coisas boas na festa. Eu já curti muitos shows (o do nordestino Zé Ramalho foi o máximo em 2009) e me diverti pra valer (na Montanha Russa [da Rússia!], por exemplo, ou nos desfiles dos carros alegóricos (criados pelo afrodescendente Fernando Garibaldi). Mas isso não significa que se abra mão de uma franca visão crítica, até para que a comemoração se qualifique como evento e elemento simbólicos de toda a comunidade santa-cruzense, fazendo jus a teuto-brasilidade e pluralidade étnico-cultural locais.

*Nesta edição, até o momento, me chamou a atenção que "o cara da Oktober", conforme a manchete na Gazeta de 19/12, é o pagodeiro Thiaguinho, vocal do grupo Exaltasamba, jovem negro nascido em São Paulo. Também me chamou a atenção que uma dos grandes chefs de cozinha que está na Oktober é o negro senegalês Mamadou Sène, hoje radicado em Porto Alegre, de religião muçulmana, e que mostrou seus dotes em pratos da "culinária alemã". Mamadou se abastece de informação diretamente com dois irmão seus que residem na Alemanha, Freigurg, tendo estudado na França, tendo entre seus professores um chef alemão. São duas coisas aí: as atrações principais e de massa da "festa germânica" nada tem a ver com germanidade; a Alemanha cultuada não é um idílico país de gente loira de olhos azuis, mas uma nação multicultural, poliétnica, com gente de tudo quanto é lugar do mundo, como o é a Santa Cruz desde seus primórdios. A pergunta (repetindo argumentos): Que tipo de "germanidade" é esta proposta ou colocada pela Oktober, onde a atração principal da festa - uma cópia de outras iniciativas no Brasil, inspiradas na festa de Munique, mas sem raiz na realidade cultural local (nunca houve oktoberfest nas comunidades teuto-brasileiras de Santa Cruz) -; onde se faz um culto a bebida alcoólica de origem egípcia, o chope; onde o destaque artístico é um cantor negro de São Paulo; um dos chefs de destaque é um negro senegalês radicado em Porto Alegre; o talentoso criador dos carros alegóricos é um rapaz negro santa-cruzense de família tradicional da cidade, e onde as duas bandas "tradicionais" forma trazidas da Alemanha??

28 de set de 2012

134 anos e muita história não contada

Aproveitando o “aníver” do meu município neste 2012, volto a uma reflexão recorrente:

Hoje comemoram-se 134 anos de Santa Cruz do Sul. A referência é a instalação em 1878 da Câmara de Vereadores, que, na época, fazia o papel de gestora do município, dando assim autonomia à comunidade, que começou como Faxinal do João Faria, originado na sesmaria que precedeu o povoado, constituído originalmente da parentela de João Faria, trabalhadores negros e outros agregados assentados na área, ainda em disputa com grupos indígenas.

O primeiro presidente da Câmara (que poderia ser chamado de prefeito) foi o “nome de rua” Tenente Coronel Brito (José Joaquim de Brito, para ser completo), o que também é um indicador de descendência étnica de famosos da então nascente cidade. E considerando a presença de povos indígenas, de quilombos e da ocupação do território por outros sesmeiros e posseiros luso-descendentes e mestiços de toda a ordem, a “presença germânica” e de outros povos europeus (poloneses, holandeses, belgas, italianos, portugueses etc.), a partir de 1849, aconteceu bastante depois da fundação do núcleo que deu origem a Santa Cruz, demosntrando a variedade de referências étnicas e geográficas a comporem a história e sociedade santa-cruzenses (até coloônia de ceraenses tivemos por aqui).

Interessante notar que o 28 de setembro não é um feriado municipal. Ao contrário de quase todos os municípios, que fazem seus feriados locais em datas que marcam uma emancipação administrativa, o feriado municipal em Santa Cruz é em 25 de julho, data que rememora o assentamento de colonos em São Leopoldo em 1824, e que se tornou data simbólica da teuto-descendência no Rio Grande do Sul. Ou seja, temos aí, na “opção” do “25 de julho” ao “28 de setembro” como simbolismo máximo (dado pelo feriado), mais um elemento que quer reforçar um exclusivismo étnico na conformação do município, “podando” absurdamente a sua origem bem mais longa (anterior aos primeiros imigrantes assentados no loteamento rural estatal em Linha Santa Cruz), diversa e complexa.

Por que disso? Por que da invisibilização ou subalternização de outras referências étnicas? Por que se ressaltar de forma acachapante uma só descendência? Por que seriam “melhores do que outros”? Por que trabalharam mais? Ou o quê?

E qual o resultado desse exclusivismo? Como se sente, por exemplo, crianças que cantam um hino que não fala nada de seus antepassados afros, indígenas, lusos etc (somente da "bravura alemã" do "loiro imigrante")? Que tipo de integração comunitária isso produz? Não há aí espaço para um sentimento de despertencimento, de que todos que não são (ou pareçam) “alemães” são estrangeiros, justamente aqueles que alguns chamam até hoje de “brasileiros” em oposição aos “alemães” (essa denominação tão simplista)? )? Somos, então, um "município alemão", anexo ao Brasil, como desejava o pangermanismo adotado pelo governo Hitler da Alemanha, e que muitos defenderam ardorosamente por aqui? Óbvio que isso é uma bobagem, mas que ainda parece ter ecos.


Que o 28 de setembro – sem feriado – sirva para ir mais longe na história do município e do processo de monopólio étnico já tão naturalizado em Santa Cruz!


*Sobre os povos nativos, são inúmeros os sítios arqueológicos comprovando a ocupação indígena no Vale do Rio Pardo desde muito antes do apossamento da região por parte de portugueses e espanhóis. Os espanhóis, por exemplo, através de missionários, fundaram reduções jesuíticas já nos anos de 1630 por aqui, uma delas no entroncamento do Rio Pardinho com o Rio Pardo, e que foi extinta na ação do bando de preadores de escravos indígenas por parte do famigerado (antigamente "herói" paulista) bandeirante Raposo Tavares.

24 de set de 2012

Em breve, outros textos

Nos próximos dias, queremos ir atualizando este blog-polígrafo, com texto escritos "nos últimos tempos", todos publicados em outros blogs. Já que são assuntos da temática do "Para além do loiro...", vamos "ajuntá-los" aos demais escritos que se alongam já a mais de uma década.

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