HISTÓRIA, IDENTIDADE ÉTNICA E EXCLUSÃO SOCIAL NA REGIÃO DE SANTA CRUZ DO SUL (RS - BRASIL) *** Artigos opinativos e outros comentários selecionados pelo autor *** IURI J. AZEREDO

25 de out de 2008

Apresentação

PORQUÊ DO TÍTULO

O título “Para além do loiro imigrante” se refere ao hino municipal de Santa Cruz do Sul, que, em sua letra, faz uso das expressões “loiro imigrante” e “bravura alemã” para identificar e sublinhar quem seriam os “heróis” santa-cruzenses, desconsiderando, assim, a gama de outros grupos étnicos e personalidades “não-germânicas” direta e indiretamente ligadas e constituintes da história e do desenvolvimento sócio-econômico do município – omissão esta (mas não só esta e não só no hino) que foi um fator especial desencadeador da escrita dos textos do polígrafo, que agora ganha a sua versão eletrônica na internet. Aliás, é praticamente uma transferência direta do arquivo feito para as impressões na forma de brochura xerocada. Tanto que preservei o máximo possível da “rusticidade”. E, mais uma vez, alerto para o caráter de coletânea sem maiores preocupações com sistematização e rigor acadêmicos.

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HINO DE SANTA CRUZ DO SUL

Letra: Elisa Gil Borowsky

Música: Lindolfo Rech

Oficialização: 1963

Por sobre as nossas lindas terras /LOIRO IMIGRANTE andou... /Transpôs as nossas verdes serras! /E longe do lar chorou... chorou! /Mas, nosso dadivoso chão, /Como enorme coração /Desvendou-lhe a sorrir /Mil promessas de porvir.

(CORO) Deus te salve terra amiga, /Santa Cruz fiel, /Santa Cruz gentil, /Onde reina a Paz, /Onde brilha a Luz, /Sob o lenho de Jesus!...

Ao sol ardente destes céus /Acenderam-se os ideais /Nas forjas surgem os troféus /E na campina em flor as catedrais /E foi brotando deste afã /Da BRAVURA ALEMÃ /A cidade crente e santa /Que a sua cruz ao sul levanta.

Polígrafo (ainda em edição)

SUMÁRIO

*Seqüência dos títulos dos textos

-INTRODUÇÃO

-Os primeiros povoadores de Santa Cruz

-A presença italiana em Santa Cruz do Sul

-Um colono socialista em Linha Cecília nos idos de 1877

-DIFICULDADES DE INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO ESPECÍFICAS DA POLPULAÇÃO NEGRA EM SANTA CRUZ DO SUL – Subsídios para Diagnóstico

-Pluralidade Étnica em Santa Cruz precisa ser mais valorizada

-UM NOVO HINO MUNICIPAL

-ALÉM DO HINO, OUTROS NOVOS SÍMBOLOS

-ILUSTRAÇÃO REVELADORA

-A mistificação da história e cisões étnicas em Santa Cruz do Sul

-Trabalhadores negros na história de Santa Cruz do Sul

-Descendentes de alemães proprietários de escravos no Vale do Rio Pardo

-Oktoberfest e a tradição postiça

-Cisões étnicas em Santa Cruz do Sul

-1891: quase 13% dos santa-cruzenses são "de cor"

-Reflexões sobre a data 25 de julho

-Nova mentalidade na Oktoberfest 2002

-Negros vieram antes que os alemães em Santa Cruz

-República do preconceito

-O pioneirismo na imprensa de Santa Cruz

-A negritude de Jesus

-Conflito étnico na Asa Esquerda

-Negros abrindo caminhos à colonização alemã

-Desmistificando a história de Santa Cruz

-Voltando ao hino

-Língua guarani no Vale do Rio Pardo

-Língua guarani no Vale do Rio Pardo (parte II)

-Santa Cruz deve muito aos índios

-Índios e negros: “Fora daqui!”

-Historiografia santa-cruzense e germanismo

-Lajeado e Santa Cruz: similaridades e diferenças

-Considerações sobre Santa Cruz do Sul: urbanização e desenvolvimento

-Reduções jesuíticas no Vale do Rio Pardo

-Cotas para superar a discriminação já!

-O hino e o samba

-PROPOSTA DE LEI MUNICIPAL

-1922: até na cadeia Santa Cruz mostra a sua diversidade

-1º de Maio: Nazistas fazem festa em Santa Cruz

-A tradição lusitana na história das ruas de Santa Cruz

-Colonos e colonas de todas as etnias, parabéns a vocês!

-Nazismo na Alemanha e em Santa Cruz

-Balanço Social UNISC 2002: indicações para superar disparidades

-Coisas que não se falam numa Oktoberfest...

-O calamitoso “Estado Gaúcho”

-126 anos de um município multicultural

-“Prosit!” em egípcio antigo

-Vale do Rio Pardo e os Sete Povos das Missões: íntimas ligações

-Bênção profunda

-Íntimas Ligações II

-O PIONEIRISMO DA OCUPAÇÃO ESPANHOLA NO VALE DO RIO PARDO

-Em nome do fumo

-Negros na História da organização popular nas zonas de colonização

-A África ancestral no mar de dentro santa-cruzense

-370 anos da presença negra no Vale do Rio Pardo

-Legítima alemã? Como assim?!

-1874: mais de 60% da população de Monte Alverne não é alemã

-Começo da colonização alemã no RS: lá estão os negros trabalhando

-Camões e caboclos

-Santa Cruz com cheiro de bacalhau já em 1854 (1ª parte)

-Santa Cruz com cheiro de bacalhau já em 1854 (final)

-Kaingang em Santa Cruz: antes, durante e depois dos imigrantes (1ª parte)

-Kaingang em Santa Cruz: antes, durante e depois dos imigrantes (final)

-Nos 100 anos da Estação, lembremo-nos do trabalho negro

-Afundaram 35 navios brasileiros, matando mais de 1400 pessoas

-Um novo templo para uma Santa Cruz que se quer germânica

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-Os sem-terra da Alemanha

-Mais comentários

-Invisibilidade

-Expressões racistas

-Tradição inventada

-Capitão do Mato em Santa Cruz do Sul

-O racismo como fundamento para a colonização germânica do Vale do Rio Pardo

-Trabalhadores negros financiam os imigrantes alemães

-Gente de carne e osso

-Santa Cruz e Cachoeira do Sul

-Fantasmas

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*Acréscimos

-Uma madame na selva

-Ainda o ovo da serpente num trem para Berlim em 1965 (1ª parte)

-Ainda o ovo da serpente num trem para Berlim em 1965 (final)

-O feijão e o sonho em Rio Pardinho (1ª parte)

-O feijão e o sonho em Rio Pardinho (Final)

-As negras raízes do escotismo

-Curaçau

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INTRODUÇÃO

Os textos que seguem abaixo foram redigidos e divulgados a partir de abril de 2001 até dezembro de 2005. Estão colocados numa ordem que buscou seguir a de publicação e/ou elaboração final. Foram selecionados e procurei seguir o tema geral “Identidade étnica e exclusão social na região de Santa Cruz do Sul”.

São, quase todos, pequenos artigos opinativos, vários com comentários suplementares, assinalados por asterisco(s), confeccionados com a pretensão de propor um debate e afirmar uma perspectiva pluriétnica para a formação da comunidade de Santa Cruz do Sul (RS), mais restritamente, e do Vale do Rio Pardo, de forma mais ampla.

Alguns textos não são propriamente artigos, e sim comentários pessoais fragmentados (quase todos a partir de e-mails dirigidos a amigos), mas selecionei-os porque têm ligações diretas com as abordagens em questão. Julgo que também sejam – mesmo que falhos e incompletos – esforços para pensar (e agir) sobre “a questão étnica” na comunidade santa-cruzense e regional.

Também há outros textos, que foram usados como subsídios a propostas, projetos e mobilizações. Todos seguem sem uma revisão final, que poderia diminuir vários tipos de falhas.

Enfim, tratam-se de “escritos ativistas”, a partir de meus estudos e reflexões – sempre compartilhados com várias pessoas, bebendo em diversas fontes, mas sem pretensões “científicas”. A maioria foi pensada para a publicação em jornais locais/regionais (Gazeta do Sul, Riovale e Folha do Mate, em especial) – o que efetivamente aconteceu –, e não em algum veículo acadêmico, embora se buscou um rigor nos argumentos a partir de fontes bibliográficas e outros documentos confiáveis.

Espero que este polígrafo sirva como apoio e até incentivo a pesquisas de maior fôlego – algo, aliás, que já observei acontecer, para o meu grande contentamento.

Iuri J. Azeredo – Santa Cruz do Sul, dezembro de 2005.

*Houve o acréscimo de alguns textos redigidos (alguns publicados) até agosto de 2006.





Os primeiros povoadores de Santa Cruz

Os primeiros povoadores da região de Santa Cruz do Sul, os índios, foram objeto de discussão durante o III Encontro de Estudos e Debates Étnico-Culturais, que ocorreu no dia 22 de novembro passado na sala 101 da Unisc. O evento buscou promover um maior conhecimento das problemáticas que atingem esse segmento étnico historicamente vilipendiado. Os palestrantes reafirmaram que a discriminação sofrida pelos índios está ligada a um modo de viver e compreender a vida que foge ao padrão dito “civilizado”, de origem européia. A conseqüência é que os “donos da terra” hoje vivem literalmente à margem – na margem de estradas e sob condições precárias.

Estudos apontam que há cerca de 10 mil anos atrás chegaram no Vale do Rio Pardo os primeiros grupos indígenas. Através do desenvolvimento de técnicas próprias, sobreviveram pela caça, pesca, coleta de produtos florestais e, mais tarde, agricultura. Várias outros agrupamentos, com conhecimentos, tecnologias e organização social diferenciadas, se sucederam ao longo do tempo na região. Centenas de sítios e achados arqueológicos demonstram tal desenrolar. E até hoje índios de diversas procedências transitam e mesmo residem na periferia das cidades ou em localidades interioranas.

Prova disso foi a presença e o relato no supracitado encontro da índia santa-cruzense Maria Antônia Soares, que atualmente reside em Estrela, numa comunidade com cerca de vinte famílias. Os seus antepassados ocupavam áreas nas imediações do hoje Parque da Gruta. Maria Antônia conta que seus pais, avós, bisavós e ela própria percorriam com desenvoltura as matas remanescentes, conhecendo em detalhes regiões como Linha Pinheiral. Sem posse legal de terra alguma, pressionados e na busca de melhores condições de vida, eles migraram para o Vale do Taquari.

O professor e arqueólogo Pedro Mentz Ribeiro, autor do livro Pré-história do Vale do Rio Pardo, há muitos anos chama a atenção para a importância da cultura indígena. Ele diz que Santa Cruz do Sul tem numa planta autóctone, cultivada e utilizada antes da chegada dos europeus, a base da economia: o fumo. Ribeiro também lembra de outros cultivares milenares característicos dos índios da região, como o feijão, milho, abóbora, aipim, batata-doce etc. Ressalta ainda que no processo de miscigenação, muitos santa-cruzenses têm grande possibilidade de apresentarem “boa parcela de sangue indígena”.

Resgatar a contribuição e refletir sobre as peculiaridades dos povos indígenas em Santa Cruz do Sul e região, ultrapassando o senso comum de que “aqui não tem índio” – mesmo que sejam em número relativamente pequeno ou itinerantes ou migrantes –, pode colaborar para o enriquecimento da história da comunidade. Contemplando a diversidade étnica na formação do município, aumentamos as chances para uma cultura de respeito concreto à diversidade.




A presença italiana em Santa Cruz do Sul

Muito interessante à iniciativa de pessoas vinculadas à descendência dos imigrantes italianos em organizar-se em Santa Cruz do Sul. É um passo a mais para deixar à mostra a diversidade étnica e cultural que compõe o município desde os seus primórdios.

Isso também se justifica na medida que a presença dos ítalos em Santa Cruz do Sul não é recente – ao contrário do que muita gente ainda pensa. Aliás, há núcleos de colonização muito fortes, caso do antigo distrito de Gramado Xavier, colonizado a partir dos anos 30 do século passado, conforme informa Armindo Muller em seu Dicionário Histórico e Geográfico da Região de Santa Cruz do Sul (publicado pela Edunisc em 1999). Entre as primeiras famílias, Müller cita as de João Karal, Antônio e Pedro Ferrari, Fernando Pozzebon, Tomazzi, Legramanti e Berté.

A denominação Italienberg – Morro dos Italianos –, antiga Linha Alto Trombudo, localidade outrora pertencente a Santa Cruz do Sul, onde se estabeleceram gente com o sobrenome Durante, entre outros, demonstra que “os italianos não chegaram ontem” ao município. Cerro do Guzzo, topônimo que faz menção a uma família de origem italiana em Gramado Xavier (até poucos anos atrás pertencente a Santa Cruz do Sul), Colônia Picoli, em Sinimbu (distrito santa-cruzense até 1991), são outras de várias referências que comprovam a efetiva participação ítala no desenvolvimento do município e região há muitos anos. Também a freqüência desses sobrenomes supracitados em santa-cruzenses natos podem estar evidenciando o processo de migração dos descendentes desta gente ligada à descendência italiana para todo o município.

Com certeza, caso haja uma pesquisa mais detida, muitos outros dados aparecerão para deixar evidente que a pluralidade étnica e de procedências geográficas – que inclui, sem dúvida, os ítalo-brasileiros e a Itália – é uma característica que merece maior consideração quando contamos a história e homenageamos os grupos e personalidades formadoras da comunidade de Santa Cruz do Sul ao longo da sua história.




Um colono socialista em Linha Cecília nos idos de 1877

Na linha burlesca que tem seguido as comemorações relacionadas à imigração alemã na região dos Vales do Rio Pardo e Taquari, a leitura de Memórias de um Imigrante Boêmio pode ser um momento de oxigenação de nossos cérebros, às vezes excessivamente turvados por muito chope e pouca reflexão. A obra foi publicada (republicada, melhor dizendo) em 1981, após um exemplar já roto, editado durante a II Guerra Mundial, ter sido localizado no interior de Venâncio Aires pela historiadora Hilda Flores.

Quero ressaltar dois aspectos: primeiro, no relato direto e emocionante do livro, percebemos o quanto foi dura a vida dos alemães antes de desembarcarem aqui no Brasil em busca – literalmente – de salvação. Superexploração da mão-de-obra (inclusive infantil) ou terrível desemprego, expulsão em massa do campo, fome, miséria, doenças e desespero eram o “quadro da dor”. Nada a ver com a imagem idílica de uma pátria perdida. A Alemanha – ou o que estava em vias de o ser, no processo de unificação germânica – vivia em uma crise profunda, com concentração de bens e poder. E quem levava a pior eram (para variar!) os trabalhadores e trabalhadoras, camada essa aviltada e que de fato emigrou em grandes levas para a América.
Em segundo lugar, em meio a uma província brasileira dominada pelo latifúndio e o escravagismo, pode-se perceber pela leitura o idealismo dos imigrantes, com seu forte espírito comunitário. Josef Umann, autor e personagem da obra referida, se declara – com todas as letras – socialista e membro do Partido Operário naquela Europa efervescente de meados do século XIX. Quando veio ao Brasil, sendo um dos pioneiros da colonização germânica na região venâncio-airense de Linha Cecília (Alto Sampaio) em 1877, trouxe consigo, além da família e poucos pertences, idéias coletivistas e humanistas, lutando muito pelo aprimoramento cultural da comunidade, formando grupos, escolas, associações e outras iniciativas que buscavam uma integração solidária e de crescimento humano.

Hoje, num mundo assolado pela competição tresloucada e o hedonismo vazio, tal dedicação altruísta parece ter quase desaparecido. As sociedades de origem teuta sobreviventes, ao que parece, estão reduzidas a atividades datadas e meramente festivas, sem o impulso intelectual e fraternal aguçados de pessoas como Umann. Entretanto, sempre há tempo para resgatar essa “tradição perdida” – muito mais autêntica e positiva que os folguedos “pasteurizados” que temos assistido!




DIFICULDADES DE INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO ESPECÍFICAS DA POLPULAÇÃO NEGRA EM SANTA CRUZ DO SUL – Subsídios para Diagnóstico

Embora Santa Cruz do Sul tenha uma forte identidade étnica ligada aos imigrantes germânicos que foram introduzidos na região a partir de 1849, com a presença maciça desses descendentes até os dias de hoje, o município, desde sempre, possuiu em sua formação e desenvolvimento a contribuição de grupos e pessoas de diversas outras etnias, referências culturais e procedências geográficas. Em especial a população negra, estimada oficialmente em cerca de 11% do total de santa-cruzenses, conforme o senso demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1991, tem uma colaboração imensa e que ainda está por merecer maior atenção dos pesquisadores.

Sabe-se que os negros e negras sempre trabalharam em Santa Cruz do Sul, inclusive como escravos, antes mesmo da chegada dos imigrantes alemães. O estudioso Armindo L. Müller, autor do DICIONÁRIO HISÓRICO E GEOGRÁFICO DA REGIÃO DE SANTA CRUZ DO SUL – obra publicada em 1999 pela Editora da Universidade de Santa Cruz do Sul (EDUNISC) –, ao falar do antigo nome do município, Faxinal do João Faria, diz que o avô desse Faria (de descendência lusa) “foi o primeiro morador de Santa Cruz. Para resguardar-se das investidas dos índios, fez cercar sua casa pelos ranchos de seus numerosos escravos. O sobrado de madeira estava coberto de telhas de barro. Seu neto, com o mesmo nome, residiu na mesma propriedade, que serviu de alojamento para os colonos imigrantes. Foi este último quem transportou os colonos até o lugar dos lotes, que lhes foram concedidos, na Picada do Abel.”

Mesmo durante o período da colonização alemã na região em meados do século XIX, quando estava proibida a introdução e posse de escravos nas colônias, havia afrodescendentes escravizados em Santa Cruz do Sul. O professor Jorge Cunha em sua dissertação de mestrado OS COLONOS ALEMÃES E A FUMICULTURA: SANTA CRUZ DO SUL, RIO GRANDE DO SUL 1849-1881 (obra publicada em 1991 pela Livraria e Editora da FISC – Faculdades Integradas de Santa Cruz do Sul) coloca que “em fins do de 1857 o Diretor João Martin Buff informa em seus mapas estatísticos a existência [na colônia de Santa Cruz] de 21 escravos, sendo 13 do sexo masculino e 8 do sexo feminino (...)”.

Se juntarmos os libertos, fugidos e aquilombados, mais os escravos não declarados oficialmente, teremos uma população bastante considerável de negros e negras nos limites do que viria a ser o município de Santa Cruz do Sul. A cientista política Silvane Krause, em sua dissertação de mestrado – ECONOMIA, POLÍTICA E RELIGIÃO EM SANTA CRUZ DO SUL NA REPÚBLICA VELHA (Programa de Mestrado em Ciência Política – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – novembro de 1991) anota que “O jornal Kolonie (21.02.1891) também menciona a religião da população de Santa Cruz, dizendo que nesta época havia no município um total de 15.572 habitantes, distribuídos assim: - brancos: 13.584; - de cor: 1.987; - protestantes: 7.049; católicos: 8.502; sem religião: 21.” Portanto, esses números dizem que 12, 76% dos santa-cruzenses da época eram “de cor”, isto é, negros ou talvez mestiços diversos com pele escura. Interessante também é observar que a estatística é publicada há menos de três anos da “abolição da escravatura” (13/05/1888). Pode-se inferir que diversos, senão grande parte, quiçá a totalidade dos “de cor”, foram trabalhadores/as negros/as escravizados/as na região.

Após a abolição da escravatura, segundo a professora na Universidade de Santa Cruz do Sul, Maria Hoppe Kipper, autora de A CAMPANHA DE NACIONALIZAÇÃO DO ESTADO NOVO EM SANTA CRUZ (1937-1945) –– obra publicada em 1979 pela Associação Pró-Ensino em Santa Cruz do Sul (APESC) dentro da Coleção História de Santa Cruz do Sul –, o número de trabalhadores/as negros/as no município “aumentam de número, estabelecendo-se especialmente em áreas da periferia da cidade”. Ao mesmo tempo, Kipper revela que os afrodescendentes, “sempre foram discriminados pelos descendentes dos imigrantes [de origem germânica], que os consideravam indolentes, imprevidentes e pouco higiênicos”. Eis mais um registro histórico do preconceito, gerador do racismo.

Outro relato que nos confirma a subalternidade e discriminação aos trabalhadores e trabalhadores “de cor” está na obra HEINZ VON ORTENBERG, MÉDICO DO KAISER E DE SANTA CRUZ DO SUL, de Leandro Silva Telles – publicada em 1980 pela Associação Pró-Ensino em Santa Cruz do Sul (APESC). Num trecho que o autor retira do artigo “As minorias Alemãs no Mundo – Santa Cruz, Uma Pérola da Colônia Alemã no Sul do Brasil”, publicado provavelmente entre as décadas de 1930 e 1940 no jornal “Volkischer Beobacher”, lê-se o seguinte: “O significado econômico da cidade, porém, reside no próspero comércio de fumo, que está nas mãos alemãs e norte-americanas. (...) Os trabalhadores nas fábricas, na medida em que forem exigidos trabalhos mecânicos, são brasileiros, negros e mulatos. Para tarefas mais difíceis e de maior responsabilidade, de bom grado, são empregados alemães”.

Em uma pesquisa realizada recentemente, o professor no Mestrado em Desenvolvimento Regional da UNISC, Sílvio Correa, comprovou que a situação atual dos afrodescendentes santa-cruzenses é bastante preocupante. Correa coloca em seu artigo MOBILIDADE E DESENVOLVIMENTO REGIONAL: O CASO DA COMUNIDADE AFRO-BRASILEIRA DE SANTA CRUZ DO SUL (revista Redes, volume 6/2001 – Unisc) que “80,5% dos entrevistados não têm uma renda familiar superior a cinco salários mínimos e 61,9% encontram-se nas categorias ‘sem instrução’, ‘fundamental incompleto’ e ‘fundamental completo’ no que concerne ao grau de escolarização. Em termos de ocupação profissional, 70% dos afro-brasileiros em Santa Cruz do Sul pertencem aos grupos de atividades manuais.” O professor observa que “a sociedade branca local apresentava um tecido social praticamente impermeável a outros segmentos étnico-sociais (...). Dessa forma, a integração da comunidade afro-brasileira não é apenas uma problemática ligada a um passado recente, mas que permanece presente na sociedade local.”

Evidentemente que as enormes dificuldades que atingem a população afrodescendente – em que pese tratar-se de cerca de 48% da população brasileira – estão generalizadas no País, não sendo exclusividade de Santa Cruz do Sul. Em todos os estratos inferiores – salariais, escolaridade, funcionais, políticos etc. – lá está a população negra. Só para ilustrar, na matéria do dia 20 de novembro de 2001 publicada no jornal Gazeta do Sul, foi divulgado um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) onde, entre outras conclusões, está que “a cor representa um fator de discriminação no mercado de trabalho mais forte do que o sexo, uma vez que os homens negros possuem rendimentos ‘sistematicamente menores’ do que as mulheres não-negras.”

Notamos, assim, que de fato os obstáculos no campo profissional e da geração de renda que atingem o povo negro em Santa Cruz do Sul e no País são de grande vulto, necessitando de uma ação imediata e continuada para a sua superação, agindo-se para a elevação dos níveis de escolaridade, de empregabilidade, de resgate da auto-estima, da cidadania e, sobretudo, da conscientização de que o problema existe e não pode ser menosprezado – pelo contrário: deve ser combatido com urgência, através de ações que estimulem a inclusão no mercado de trabalho o respeito étnico, a reflexão e a organização, em especial do próprio negro/a.

*Santa Cruz do Sul, dezembro de 2001.




Pluralidade Étnica em Santa Cruz precisa ser mais valorizada

Embora Santa Cruz do Sul tenha uma forte identidade étnica ligada aos imigrantes germânicos que foram introduzidos na região a partir de 1849, com a presença maciça desses descendentes até os dias de hoje, o município, desde sempre, possuiu em sua formação e desenvolvimento a contribuição de grupos e pessoas de diversas outras etnias, referências culturais e procedências geográficas.

A começar pelos índios, os primeiros povoadores. Através de tecnologias próprias, sobreviveram da caça, pesca, coleta de produtos florestais e, mais tarde, a agricultura. Cultivavam, entre outros, o fumo, o aipim, a abóbora, o feijão, etc. As centenas de sítios arqueológicos, estudos e relatos atestam a presença de povos indígenas em Santa Cruz do Sul. Infelizmente, ainda não receberam o destaque que merecem. Agrupamentos itinerantes, residindo em grotões ou na periferia urbana são encontrados. Vivem em uma situação marginal.

Também os negros colaboraram no desenvolvimento da comunidade santa-cruzense. Como trabalhadores escravizados, libertos ou aquilombados, mantiveram a religiosidade e as formas de sociabilidade próprias dos afro-descendentes. Fruto da exclusão social, permanecem em grande parte como moradores em vilas populares onde há pouca infra-estrutura citadina. O carnaval, a capoeira, o culto aos Orixás, entre outras manifestações, estão associados ao povo negro do município.

Já os lusos têm uma presença ainda mais vultosa. Conforme documentos, pelo menos a metade das famílias que receberam lotes na incipiente cidade de Santa Cruz (Faxinal do João Faria) tinham sobrenomes tipicamente portugueses. Por décadas, ocuparam os cargos mais importantes na administração municipal. Foram engenheiros de origem lusa que demarcaram a primeira colônia (Linha Santa Cruz) e o traçado da cidade em meados do século 19.

Ocorre que a hegemonia da identidade étnica alemã em Santa Cruz do Sul – aliás, deturpada, estereotipada e demonstrada em eventos como a Oktoberfest, que não corresponde as origens da esmagadora maioria dos imigrantes teutos, que não vieram da região de Munique, “terra da festa de outubro” – acabou por menosprezar e minimizar as contribuições “não-germânicas”. Afora tal identidade, forjada “para turista ver”, a conformação multicultural santa-cruzense, quando resgatada e divulgada, pode transformar o município num local onde a pluralidade étnica produz uma diversidade de hábitos e tradições culturais, colaborando para uma convivência solidária, democrática e de maior riqueza cultural.

*Texto elaborado para subsidiar um projeto do Escritório da EMATER em Santa Cruz do Sul.




UM NOVO HINO MUNICIPAL

Como se sente uma criança afro-descendente santa-cruzense ao aprender e ter de cantar o hino municipal em alguma cerimônia? Muitas, provavelmente, nem notarão a mensagem que louva o “loiro imigrante” e a “bravura alemã” sem jamais se referir aos negros – e, da mesma forma, aos portugueses, índios e outros povos (inclusive de outros países da Europa) que também habitaram (e habitam) e constituíram (e constituem) o município de Santa Cruz do Sul.

Claro: temos que entender a época e o contexto em que o hino foi composto. A visão crítica da história e da criação de mitos que sustentam determinadas estruturas sociais simplesmente não existiam ou então não eram disseminadas como hoje o são. Ocorre que não há mais motivos para a manutenção de símbolos que não traduzem nem condizem com a realidade, e que apenas reforçam estereótipos e preconceitos desagregadores, frutos, como já disse, de uma historiografia distorcida, parcial e ufanista.

Sugiro, assim, uma ampla discussão desse assunto em nossa comunidade, especialmente nas escolas. Por que não pensarmos em um novo hino para Santa Cruz do Sul? Um hino que os meninos e as meninas de pele escura e sem sobrenomes germânicos possam se orgulhar de ouvir e cantar, se sentindo incluídos na letra e na música, valorizando seus antepassados, sua cultura própria, a luta e o sofrimento do seu povo, na busca de um município próspero, justo, democrático e sem mitificações que acabam por reproduzir o racismo e a exclusão social.

*Primeiro texto que saiu na imprensa santa-cruzense (Gazeta do Sul) sobre o assunto “Hino de Santa Cruz” em 17 de abril de 2001, redigido como ghost-writer.




ALÉM DO HINO, OUTROS NOVOS SÍMBOLOS

Além do hino municipal, com seu conteúdo que exclui da construção de Santa Cruz do Sul as outras etnias, fixando-se unicamente na “bravura alemã” (a qual, sem dúvida, foi verdadeira e importante), há outros símbolos que reforçam a idéia de que o nosso município é fruto apenas do “loiro imigrante”, como diz a letra oficializada em 1963.

O Monumento ao Imigrante é um exemplo. Lá está o colono – “obviamente” de origem germânica – com o seu machado e postura varonil, “trazendo a civilização” para Santa Cruz do Sul através do árduo trabalho. Certo! Mas onde está representado o trabalho dos negros e dos descendentes lusos (sem falar de outras etnias e do papel das mulheres nisso tudo)? Eles (e elas) têm algum monumento significativo? De novo estamos diante de parcialidades e simplificações históricas, que dão um papel exclusivista aos imigrantes alemães e seus descendentes no município.

Assim poderíamos falar também do Parque da Oktoberfest, do brasão da municipalidade, da bandeira de Santa Cruz do Sul, etc. Tais eventos e objetos simbólicos podem estar produzindo há muitos anos uma idéia (falsa, conforme diversas fontes históricas) aos “não-alemães” de que eles não fazem parte – nem nunca fizeram – da história do município.

Por que não criarmos uma Avenida da Integração dos Povos, a Rua do Trabalhador Negro, a Praça dos Luso-brasileiros, etc? Por que não promovermos a Multietnofest e construirmos um edifício com o nome de Residencial Zumbi dos Palmares? Enfim, homenagear igualmente a todas as culturas e raças. Porque todos os povos têm o seu valor, sua dignidade, tanto no passado, quanto hoje em dia. Santa Cruz do Sul é de todos nós, sem preconceitos raciais, sem discriminações negativas, e sim com ações propositivas e concretas pelo resgate social dos excluídos! (Obs.: Quem quiser informações sobre o grupo que está discutindo esses assuntos, especialmente o hino de Santa Cruz do Sul, poderá ligar para o fone ...).

*Redigido como ghost-writer.




ILUSTRAÇÃO REVELADORA

A ilustração publicada na página de opinião da Gazeta do Sul de quinta-feira, dia 24 de maio de 2001, foi extremamente infeliz, embora reveladora. Na tentativa de reforçar a idéia de “união das raças”, o desenhista coloca o “branco senhor” – rico e “bem vestido” – e o “negro escravo” – acorrentado – integrados num aperto de mão. Como se o povo negro aceitasse com docilidade (no passado e hoje) a violenta exploração que os africanos e seus descendentes sofreram no Brasil por quase 400 anos de uma história que tem pelo menos mais 100 de exclusão social concreta (miséria da esmagadora maioria da população negra)! Mesmo que sem uma intenção consciente por parte do autor, o desenho corrobora na mistificação da relação entre as etnoculturas no nosso País. É aquilo que os estudiosos chamam “racismo cordial”, uma falácia que desmobiliza e esconde os problemas. A situação odiosa de desigualdade social só se resolverá com o fim de simbologias que reforçam a exclusão racial (caso do hino de Santa Cruz do Sul) e promovam políticas de inserção (educação e ações afirmativas na forma de leis com cotas especificadas aos negros e outras etnias discriminadas), sem escamotear o racismo, internalizado, inclusive, pelos oprimidos. Paz e amor, sim! Pacividade e injustiça, não!

*Carta ao jornal Gazeta do Sul a partir de uma ilustração publicada em 24/05/2001 na página 03, na seção de opinião do leitor, redigido como ghost-writer.




A mistificação da história e cisões étnicas em Santa Cruz do Sul

Sem querer ferir suscetibilidades – muito menos negar a enorme contribuição do/a imigrante alemão/ã – e mantendo-se em um nível racional de discussão, podemos dizer que Santa Cruz do Sul é um empreendimento dos descendentes de portugueses que na época – meados do século XIX – comandavam o Brasil, incluindo o Rio Grande do Sul. Foram eles, os luso-brasileiros, detentores da quase totalidade dos cargos de governo e domínio do comércio, da política e posse de terras, que planejaram e realizaram, sob muitas articulações, a vinda e a fixação dos colonos alemães (e também holandeses, até mesmo portugueses e de outros países europeus e Estados brasileiros) na região – evidentemente que dentro de um cenário de mudanças nas estruturas do poder econômico em nível mundial.

Para começar com alguns dados pontuais, a equipe que fez a demarcação dos primeiros lotes coloniais em Linha Santa Cruz foi dirigida por um engenheiro de Portugal, a serviço da Província, chamado Frederico Augusto de Vasconcelos Almeida Pereira Cabral, precedido do trabalho do capataz Delfino dos Santos Morais, responsável pela abertura da estrada que ligaria Rio Pardo (passando por Linha Santa Cruz) a Soledade, conforme está registrado na obra do professor Hardy Martin, “Santa Cruz do Sul: de Colônia a Freguesia, 1849-1859” . Já o primeiro administrador (vice-diretor) da então Colônia de Santa Cruz, foi um senhor de nome Evaristo Alves de Oliveira. Quanto ao local da cidade, propriamente, já habitado a dezenas de anos pelos parentes do sesmeiro João da Rosa Faria, seus agregados e escravos – e que abrigaram e conduziram diversas levas de colonos, como está relatado no “Dicionário Histórico e Geográfico da Região de Santa Cruz do Sul”, do estudioso e pastor luterano Armindo L. Müller – foi demarcado, entre 1854 e 1855, pelo capitão tenente d’Armada Francisco Cândido de Castro Menezes, que estabeleceu o traçado quadrangular e a localização de áreas públicas, caso da atual praça Getúlio Vargas, sendo as primeiras concessões de lotes feitas a pessoas como Ricardo Antônio Dutra (mais de 50% dos primeiros 164 concessionários dos terrenos possuem sobrenomes luso-bresileiros típicos) e Guilherme Lewis, um imigrante inglês, empreiteiro do antigo templo católico na então Freguesia de Santa Cruz e o primeiro a edificar residência na povoação.

Portanto, entre outros diversos dados que explicitam a presença de outras representações étnicas e de nação na construção de Santa Cruz do Sul – inclusive afros (aliás, o referido Lewis possuía escravos trabalhando numa olaria localizada nas proximidades da nascente cidade, num total de 21 trabalhadores/as registrados pelo diretor da colônia, João Buff, em 1857) – desde os primórdios do município até nosso dias, temos diversas pessoas e grupos “não-germânicos” a influir decisivamente no desenvolvimento da comunidade santa-cruzense, sem falar do povo autóctone, os índios, cujas marcas da ocupação são pesquisadas nos sítios arqueológicos espalhados por amplo território no Vale do Rio Pardo.

O “esquecimento” ou menosprezo desses registros e dessas pessoas está inserido num processo paulatino de germanização (no sentido derivado do termo germanidade do pesquisador René Gertz) de Santa Cruz do Sul, através, em especial, da mistificação da imigração, ao ponto de, dentro do senso comum, conceber-se o município como obra exclusiva dos imigrantes teutos e seus descendentes. O “colono alemão” tornou-se um ser lendário e heróico, cultuado como “o civilizador”, composto somente de virtudes, sem as máculas – vilanias, covardias e mesquinharias – dos mortais. A complexidade histórica e os dados que arrefecem a “bravura alemã” submergem em resgates epopéicos, que simplificam ou/e parcializam o contexto do deslocamento para a América de massas humanas excluídas da Europa conflagrada, suas múltiplas relações e desdobramentos sociológicos.

Sobretudo, tal mistificação, além de substrato folclórico “para turista ver”, pode estar colaborando na perpetuação e fomento de cisões etnoculturais na comunidade, naturalizando-as – o que influi na desmobilização social de segmentos oprimidos cultural e economicamente. É o caso dos negros/as, que, em Santa Cruz do Sul (e em muitos outros lugares deste país de racismo escamoteado), não têm uma referência significativa no conjunto de símbolos e homenagens oficiais (veja-se o exemplo do hino municipal, na verdade muito mais um “hino ao imigrante alemão” do que uma alegoria musical sobre a trajetória e a formação do povo santa-cruzense!), bem como outras frações etnicamente identificadas, que correm à margem, subalternos, figurantes em um filme apologético estrelado pelo “loiro imigrante”.

*O texto original foi enviado para o jornal Gazeta do Sul, mas não foi publicado.




Trabalhadores negros na história de Santa Cruz do Sul

Santa Cruz do Sul, lá por 1857, possuía diversos trabalhadores e trabalhadoras escravizados. Pelo menos 21 são relacionados oficialmente pelo então diretor da colônia João Buff, oito mulheres e 13 homens – número considerável de indivíduos em uma população ainda diminuta e rarefeita. Os dados estão no livro “Os Colonos Alemães e a Fumicultura” do professor Jorge Luiz da Cunha, publicado em 1991 pela Livraria e Editora da Fisc.


Um dos “proprietários” desta gente superexplorada foi o imigrante inglês chamado Guilherme Lewis, o primeiro a edificar sua residência na então nascente cidade, recentemente delineada pelo Capitão Tenente d’Armada Francisco Cândido de Castro Menezes. Lewis, casado com a famosa Dona Carlota, de abastada família de origem lusitana, mantinha “seus negros” em atividade numa olaria próxima ao povoado. Considerando que esse inglês arrematou a construção do primeiro templo católico da comunidade, erguido em frente a atual catedral, podemos fazer algumas ligações, concluindo que muito provavelmente tal obra foi edificada com tijolos manufaturados com o concurso do trabalho de africanos ou afro-brasileiros que habitavam a Santa Cruz daquela época. Seguindo no raciocínio, também é possível depreender que várias outras obras ergueram-se com esses tijolos, em especial a referida casa do empreiteiro de origem inglesa.

Já em torno de 1853, conforme o professor Hardy Martin em seu livro “Santa Cruz do Sul – de Colônia a Freguesia”, publicado em 1979 pela Associação Pró-Ensino em Santa Cruz do Sul (APESC), temos a notícia da presença de um “criolo” (denominação dada ao negros cativos nascidos no Brasil) chamado Januário, escravo de Joaquina Cardoso, nos trabalhos buscando a navegabilidade do Rio Pardinho, formando uma equipe onde estavam também três alemães e mais dois naturais do Estado de São Paulo.

Outro registro muito interessante na história de Santa Cruz do Sul é uma fotografia datada de 1909, tirada durante a inauguração do ramal ferroviário da cidade, reproduzida no livro “Recortes do Passado de Santa Cruz do Sul”, coletânea de textos do mesmo Hardy Martim, editada pela Edunisc em 1999. Há pelo menos 20 negros aparecendo entre um número total de cerca de 150 pessoas. Os afros são facilmente distinguidos na imagem por suas feições e tom da pele. Notável também é que muitos daqueles negros empunham ferramentas, como pás, provavelmente usadas na abertura dos caminhos dos trilhos e construção da primeira e única estação ferroviária santa-cruzense, realizada durante a gestão do intendente Adalberto Pita Pinheiro.

Até mesmo quilombos – ou seja, agrupamentos de trabalhadores/as de origem africana rebelados/as contra a escravidão – são citados na bibliografia que fala de Santa Cruz do Sul. Conforme a obra supracitada do professor Cunha, em 1863 o diretor da colônia Carlos Schwerin revela em um ofício que encontrou durante a realização de trabalhos ao norte das Linhas Ferraz e São João “os vestígios que existem por dentro destes matos um quilombo numeroso”, acrescentando na sua missiva que a “destruição (do quilombo) é tanto necessária, que a colonização de Santa Cruz há de se estender por este lado”. É a “negrada” atrapalhando o plano desenvolvimentista e “branqueador” dos governos da província gaúcha e do império brasileiro nos “cafundós” do Vale do Rio Pardo.

Infelizmente, faltam pesquisas originais e específicas que adentrem nesta questão da participação de outros grupos étnicos e personalidades “não-alemãs” na conformação de Santa Cruz do Sul, em especial do povo negro. Embora consideráveis, os registros são esparsos, ainda sem sistematização. Trata-se de resgatar a complexidade histórica da comunidade, cuja simplificação e parcialismo podem derivar para entendimentos que, além de historicamente equivocados, são potencialmente geradores de posições racialmente preconceituosas e socialmente desmobilizadoras – fenômenos às vezes imperceptíveis a um olhar onde o sentimentalismo, o senso comum e o descompromisso com as camadas populacionais excluídas se interpõe à análise ampla e racional das informações, procurando aprofundar-se na complexa dinâmica das identidades sociais. Iuri J. Azeredo – Membro do Coletivo de Estudos e Debates Étnico-Culturais de Santa Cruz do Sul - CEDECS (09 de julho de 2001) *Texto a ser enviado à imprensa local e publicado no jornal Riovale e Gazeta do Sul.




Descendentes de alemães proprietários de escravos no Vale do Rio Pardo

Conforme Aristides Carlos Rodrigues, autor do livro Candelária, Sua Gente e Sua História, editado em 1993 pela Gazeta do Sul S.A., o município vizinho de Santa Cruz do Sul, nas primeiras décadas da colonização alemã na região do Vale do Rio Pardo, possuía muitos escravos. Ele observa que "Não só os luso-brasileiros os possuíam. As leis número 143 e 183, de 27 de julho de 1848 e 13 de outubro de 1850, respectivamente, proibiam os colonos alemães de possuírem escravos. Essa proibição, logicamente, não era extensiva aos seus descendentes nascidos aqui [no Brasil], dado sua condição de brasileiros." Na verdade, a mencionada lei de 1850 fala na proibição da “introdução” de escravos nas colônias destinadas à colonização, não somente restringindo-se aos alemães. De qualquer forma, havia na legislação muitas exceções, além dos “jeitinhos” para manter e mesmo “adquirir” trabalhadores cativos nos territórios destinados à colonização a partir de meados do século XIX.

Rodrigues diz adiante em sua obra que "João Kochenborger [um dos primeiros colonizadores de origem alemã de Candelária, responsável pela construção do famoso aqueoduto do município] comprou, em 26 de julho de 1867, do fazendeiro Estácio José Francisco Pessoa, os escravos de nome João e Felipe, com, mais ou menos, 20 e 31 anos de idade, respectivamente. Pagou por ambos a quantia de 2 contos e 400 mil réis. A 17 de agosto do ano seguinte, comprou, de Luiz Machado Teixeira, outro escravo que, também, se chamava João. Pagou por esse 1 conto e 200 mil réis. Além dos que citamos, possuía outros, pois, certa ocasião, ele vendeu, a seu sogro, João Bappen, um escravo de nome Antonio, com 14 anos de idade. Seu genro Felipe Graeff [também um dos pioneiros germânicos em Candelária, filho do imigrante alemão Henrique Jácob Graeff] possuía 3 escravos, os quais havia comprado de Vasco Xavier da Cunha."

Um escravo valia muito, "mais do que quatro colônias e meia de terras otimamente localizadas", ressalta o autor do livro sobre Candelária, citando o caso do referido João Kochenberger. Enquanto as tais terras tinham sido compradas por esse bem sucedido teuto-brasileiro por um conto e doze mil e quinhentos réis, dois escravos foram adquiridos por dois contos e quatrocentos mil réis. Podemos, assim, raciocinar que a exploração do trabalho dos negros nesta tradicional região de colonização alemã era considerável e muito lucrativa. Mesmo com um custo que suplantava o de uma grande extensão territorial, parece que "valia à pena” investir na mão-de-obra escrava.

Outra relação que também podemos fazer é o de que tal "fenômeno", ou seja, a posse de escravos por descendentes de alemães, também ocorreu, no mesmo período que em Candelária (ao redor de 1867), em outros municípios, caso de Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires. Essa conjectura merece mais pesquisas, o que poderia colaborar para uma visão ampliada da história e da construção da identidade social dessas cidades e do Vale do Rio Pardo como um todo.




Oktoberfest e a tradição postiça

Num texto muito instigante – Imigração e Colonização: Utopia e Identidade – publicado na revista do Mestrado em Desenvolvimento Regional da Unisc (Redes, vol. 6, número especial, pág. 105 a 127, maio de 2001), o santa-cruzense, professor Flávio Kothe, lecionando na Universidade de Brasília, com pós-doutorado nas universidades de Heidelberg, Konstaz, Bonn e Berlim, nos introduz em um entendimento pouco comum sobre as colônias formadas por imigrantes teutos, em especial as surgidas em meados do século 19, caso das da região de Santa Cruz do Sul. Ele diz que “Há uma ligação profunda entre a repressão conservadora à Revolução Liberal de 1848, na Alemanha, e a segunda onda imigração alemã para o Brasil, a partir de 1849. Foi um projeto revolucionário, a maior distribuição igualitária do produto social, num país dominado pelo latifúndio escravagista. As idéias que não podiam ser postas em prática na Europa foram transpostas como utopia concreta para o Brasil.”

Ocorreu que, no processo (autoritário) de “assimilação” desse contingente de origem germânica no território brasileiro, as característica e propostas solidárias e liberais foram sucumbindo paulatinamente, dando lugar a arremedos de “cultura” e “história”. Kothe explica: “A maioria dos teuto-brasileiros descende de povos que vem sendo inexoravelmente extintos na Europa – pomeranos, silésios, sudetos, boêmios, lorenos, alsacianos alemães (...). (...) perderam a língua, a dança, a música, o teatro, os valores, a cultura, a história, a identidade dos antepassados. Não lhes foi permitido acrescentar, praticamente, nenhuma palavra à língua falada no Brasil, nenhuma contribuição cultural relevante. No máximo, com a pax romana instituída, foi permitido aos teuto-brasileiros cultivarem a sua ‘Oktoberfest’, uma festa típica de Munique, de uma cultura que nada tem a ver com a de seus antepassados: eles assumem como sua identidade o estereótipo vigente e, vestidos de Lederhosen, gritando alto e levantando canecões de Bier, ostentam, em sua alienação, a caricatura de si mesmos, a vulgarização que os mostra e demonstra como vulgares. Os revolucionários de outrora se revolvem em suas tumbas, mordendo a grama pelas raízes para não gritarem o fracasso de suas esperanças, a inutilidade dos seus esforços. Como eles não têm mais cordas vocais, também nada mais se ouve, tudo se torna apenas fantasia. O vento que sopra as sombras sobre suas tumbas parece apenas aplaudir o ridículo, o fracasso que vieram a ser os seus esforços ideais.”

Em relação aos políticos que representam as regiões de colonização alemã, o professor também é contundente, registrando que eles “não têm sido ‘conservadores’ no sentido de tentarem ‘conservar’ os princípios éticos de seus antepassados, mas por apoiarem o processo de uma crescente desigualdade social, apoiarem governos ditatoriais e ajudarem a destruir a identidade de grupos sociais diferenciados.” No mesmo parágrafo, Kothe arremata: “A história das regiões coloniais é, sob a aparência do êxito de sua concretização, a história da traição aos ideais fundantes. A política de ‘assimilação’ era necessária para que se aniquilassem esses ideais, e não se impusesse por toda parte o princípio da igualdade na distribuição de terras e na participação do poder, o princípio da liberdade de opinião, crença e de ir e vir, o princípio da fraternidade numa sociedade profundamente dividida em classes, camadas e minorias.”

O autor do artigo volta à carga, constatando que tal perspectiva histórica “tem sido sistematicamente reprimida, tanto pelo estado, a escola e a Igreja, quanto pelos próprios teuto-brasileiros. Estes são levados, então, a se identificarem com a cultura dominante mais próxima, como o tipo gaúcho do sul do Jacuí, e ficam dançando fantasiados nos CTGs, usando bombacha e trovando, ou então se identificam com o estereótipo dominante do alemão, o bávaro, o tipo alemão mais reacionário, e daí celebram a Oktoberfest, usando calça curta de couro e erguendo canecões de cerveja, embora nenhum descenda de bávaros, pois não houve quase imigração de Bayern para o Brasil. Assumem como própria uma identidade e uma história alheia (...).”

O texto é bem mais rico do que os fragmentos que pinçamos, merecendo uma leitura completa e detida. De qualquer forma, como foi dito, estamos diante de uma crítica tão avassaladora quanto potencialmente transformadora do modo de compreendermos a complexidade do fenômeno da imigração e colonização alemã em Santa Cruz do Sul. Quem sabe também sirva para repensarmos este jeito tão limitado – feito para turista ver – de “cultivar a tradição alemã” no município e região.



Cisões étnicas em Santa Cruz do Sul

Sem querer ferir suscetibilidades – muito menos negar a enorme contribuição do/a imigrante alemão/ã – e mantendo-se em um nível racional de discussão, podemos dizer que Santa Cruz do Sul é uma invenção dos descendentes de portugueses que na época – meados do século XIX – comandavam o Brasil, incluindo o Rio Grande do Sul. Foram eles, os luso-brasileiros, detentores dos cargos de governo e domínio do comércio, da política e posse de terras, que planejaram e realizaram, sob muitas articulações, a vinda e a fixação dos colonos alemães (e também holandeses, até mesmo portugueses e de outros países europeus e estados brasileiros) na região – evidentemente que dentro de um cenário de mudanças nas estruturas do poder econômico em nível mundial.

Para começar com alguns dados pontuais, a equipe que fez a demarcação dos primeiros lotes coloniais em Linha Santa Cruz foi dirigida por um engenheiro de Portugal, a serviço da Província, chamado Frederico Augusto de Vasconcelos Almeida Pereira Cabral, precedido do trabalho do capataz Delfino dos Santos Morais, responsável pela abertura da estrada que ligaria Rio Pardo (passando por Linha Santa Cruz) a Soledade, conforme está registrado na obra do professor Hardy Martin, “Santa Cruz do Sul: de Colônia a Freguesia, 1849-1859”. Já o primeiro administrador (vice-diretor) da então Colônia de Santa Cruz, foi um senhor de nome Evaristo Alves de Oliveira. Quanto ao local da cidade, propriamente, já habitado há dezenas de anos pelo sesmeiro João de Faria Rosa e seus parentes, seus agregados e escravos – e em cujo sobrado foram abrigados os primeiros colonos teutônicos, como está relatado no “Dicionário Histórico e Geográfico da Região de Santa Cruz do Sul”, do estudioso e pastor luterano Armindo L. Müller – foi demarcado, entre 1854 e 1855, pelo capitão Francisco Cândido de Castro Menezes, que estabeleceu o traçado ortogonal e a localização de áreas públicas, caso da atual praça Getúlio Vargas, sendo as primeiras concessões de lotes feitas a pessoas como Ricardo Antônio Dutra (cerca de 50% dos primeiros 164 concessionários dos terrenos possuem sobrenomes luso-bresileiros típicos) e Guilherme Lewis, um imigrante inglês (ou norte-americano), que foi o empreiteiro do antigo templo católico na então Freguesia de Santa Cruz e o primeiro a edificar residência na povoação após sua demarcação.

Portanto, entre muitos e diversos dados que explicitam a presença de outras representações étnicas e de nação na construção de Santa Cruz do Sul – inclusive dos afros (aliás, o referido Lewis possuía escravos trabalhando numa olaria localizada nas proximidades da nascente cidade, num total de 21 trabalhadores/as registrados pelo diretor da colônia, João Buff, em 1866) – desde os primórdios do município até nossos dias, temos diversas pessoas e grupos “não-germânicos” a influir decisivamente no desenvolvimento da comunidade santa-cruzense, sem falar do povo autóctone, os índios, cujas marcas da ocupação são pesquisadas nos sítios arqueológicos espalhados por amplo território no Vale do Rio Pardo.

O “esquecimento” ou menosprezo desses fatos e dessas pessoas está inserido num processo paulatino de germanização de Santa Cruz do Sul, através, em especial, da mitificação da imigração, ao ponto de, dentro do senso comum, conceber-se o município como obra exclusiva dos imigrantes teutos e seus descendentes. O “colono alemão” tornou-se um ser lendário e heróico, cultuado como “o civilizador”, composto somente de virtudes, sem as máculas – vilanias, covardias e mesquinharias – dos mortais. A complexidade histórica e os dados que arrefecem a “bravura alemã” submergem em resgates epopéicos, que simplificam ou/e parcializam o contexto do deslocamento para a América de massas humanas excluídas da Europa conflagrada, suas múltiplas relações e desdobramentos sociológicos.

Sobretudo, tal mitificação, além de substrato folclórico “para turista ver”, pode estar colaborando na perpetuação e fomento de cisões etnoculturais na comunidade, naturalizando-as – o que influi na desmobilização social de segmentos oprimidos cultural e economicamente. É o caso dos negros/as, que, em Santa Cruz do Sul (e em muitos outros lugares deste país de racismo escamoteado), não têm uma referência significativa no conjunto de símbolos e homenagens oficiais (veja-se o exemplo do hino municipal, na verdade muito mais um “hino ao imigrante alemão” do que uma alegoria musical sobre a trajetória e a formação do povo santa-cruzense!), bem como outras frações etnicamente identificadas, que correm à margem, subalternos, figurantes em um filme apologético estrelado pelo “loiro imigrante”.




1891: quase 13% dos santa-cruzenses são "de cor"

O jornal Kolonie de 21 de fevereiro de 1891, conforme a dissertação de mestrado de Silvana Krause (UFRGS, 1991), informa que, num total de 15.571 habitantes, há em Santa Cruz do Sul 1.987 pessoas "de cor", ou seja, negros e, provavelmente, mestiços diversos com pele escura. Isso significa 12,7% da população santa-cruzense daquela época.

O dado é muito significativo. Ainda mais quando consideramos que esse número de indivíduos com raízes africanas, talvez também indígenas, foi contabilizado a menos de três anos da chamada abolição da escravatura (13 de maio de 1888). Assim, podemos raciocinar que diversos, senão grande parte, quiçá a totalidade dos “de cor” eram trabalhadores saídos recentemente do cativeiro, desempenhando tarefas que lhes possibilitava a sobrevivência em meio (ou em paralelo) – entre outros grupos étnicos – a imigrantes alemães e seus descendentes. E mais: sem usufruir de benesse alguma dos governos, largados “a Deus dará”, carregando as chagas de centenas de anos da absurda exploração e desumanidade.

Portanto, mais um registro que corrobora na afirmação de que Santa Cruz do Sul teve negros e “outros elementos de cor” em seus primórdios. Aliás, isso era um fato antes mesmo da introdução das primeiras famílias chegadas da Alemanha (e de outros países e Estados brasileiros), conforme anota Armindo Müller no seu Dicionário Histórico e Geográfico da Região de Santa Cruz do Sul (Edunisc, 1999). Referindo-se ao Faxinal do João Faria, antiga denominação da cidade, Müller diz que "O avô de João Faria (...) foi o primeiro morador de Santa Cruz [fixado nas imediações da atual catedral católica da cidade]. Para resguardar-se das investidas dos índios, fez cercar sua casa pelos ranchos de seus numerosos escravos", complementando que se tratava de um sobrado de madeira onde o próprio João Faria também residiu, servindo, ainda, como alojamento a colonos imigrantes.

Temos, assim, somado a "bravura alemã", o sofrimento e luta do povo negro – além de tantas outras contribuições de diversos grupos e personalidades não-germânicas (caso gritante dos de origem lusa) – na conformação da comunidade santa-cruzense. É preciso resgatar esses fatos e focos históricos para construirmos um município que cada vez mais se afaste de compreensões parciais e mesmo completamente erradas do seu desenvolvimento e da sua identidade social – fatores esses que podem fomentar o preconceito e absurdas visões de supremacia raciais.




Reflexões sobre a data 25 de julho

Por que a “data máxima” de Santa Cruz do Sul é 25 de julho, com “direito” a feriado municipal? Tal dia não é uma referência à emancipação, quando a Colônia de Santa Cruz tornou-se um distrito de Rio Pardo (1872). Ou, ainda, a instalação do município, ocorrida em 28 de setembro de 1878, tendo como primeiro presidente da Câmara de Vereadores – órgão esse que à época administrava o município – Joaquim José de Brito. Nem, ao menos, é 19 de dezembro, data indicada como início (1849) da ocupação dos lotes coloniais na Picada do Abel, hoje conhecida como Linha Santa Cruz.

Na verdade, 25 de julho faz menção à chegada dos primeiros imigrantes de origem germânica a São Leopoldo! E por que isso? Ora, mais uma vez, podemos concluir, estamos diante de outro elemento simbólico a reforçar a idéia de que o município é produto exclusivo da “genética” operosidade alemã.

Essa parcialidade corrobora na manutenção de uma visão histórica limitada, que menospreza as diversas e abundantes contribuições de personalidades e grupos vinculados a diversas etnias e procedências geográficas na construção da sociedade santa-cruzense. Ao ater-se a uma consideração superlativa da colonização alemã na região, fica dificultada a superação do que o professor Mário Maestri chama de “narrativas vitimárias e prometéicas” que fetichizam a história, e que, por sua vez, produzem uma compreensão histórica mistificada, baseada em mitologias.

Portanto, a “oficialidade” em nível municipal do 25 de julho se soma ao hino, a monumentos, ao brasão, enfim, a vários símbolos que deveriam representar toda a comunidade, mas que acabam por marcar e legitimar uma compreensão “teutocêntrica”, irreal, simplista e descomprometida com a abertura à pluralidade racial e cultural que caracterizou – e cada vez mais caracteriza – a construção de Santa Cruz do Sul.




Nova mentalidade na Oktoberfest 2002

Quero fazer um elogio ao pessoal que está organizando a Oktoberfest deste ano. Ao olhar o folder com a programação, percebi que os bonecos Fritz e Frida no logotipo do evento não mais estão segurando os “clássicos” canecões de chope. O Fritz está com um instrumento musical e a Frida com uma bandeja de comidas “típicas”, ressaltando assim os aspectos artísticos e gastronômicos da festividade. E não uma bebida alcoólica!

Sempre tive um pé atrás com esta espécie de glorificação do chope – uma bebida com o mesmo potencial deletérico das várias bebidas alcoólicas e outras tantas substâncias psicoativas (drogas) que podem levar a uma profunda (e às vezes trágica) dependência química e psicológica. Como os cartazes e outros materiais da festa são afixados até nas salas de aula de crianças pequenas, as figuras simpáticas dos “mascotes” da Oktober, empunhando sorridentes os chopes, acabavam passando a idéia de que beber é algo positivo, “que não tem mal algum”, que faz parte dos “nossos costumes”. Tratava-se de uma propaganda ao consumo do álcool extremamente eficiente.

Agora, pelo visto, começamos a deixar o chope num segundo plano. Isso merece, na minha opinião, um grande “parabéns!”, porque anuncia uma nova mentalidade – que, acima dos lucros imediatos, preza a vida e a educação das pessoas em longo prazo.

Se quisermos minimizar tantas desgraças que advêm do consumo e dependência do álcool (acidentes de trânsito, violência pessoal, doenças diversas etc.), precisamos agir em todos os âmbitos. A “tradição” não pode ser uma desculpa ou “ficar de fora” de um esforço geral para estabelecermos uma sociedade onde a drogadição (que, com certeza, passa pelas bebidas alcoólicas) não seja esta verdadeira epidemia de hoje. Todos somos responsáveis. O Fritz e a Frida também!

*Redigido como ghost-writer.




Negros vieram antes que os alemães em Santa Cruz

Passado o 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, acho que ainda cabe um comentário quanto à forma como se aborda a questão da população de origem africana em nível local.

Diferente do que se costuma pensar, dizer e registrar, a comunidade afro-descendente há muito tempo tem raízes em Santa Cruz do Sul. Antes mesmo da introdução dos primeiros imigrantes germânicos, em 1849, negros e negras estavam no território do município – em número que não pode ser menosprezado – como trabalhadores cativos, vinculados a famílias com origem lusa, além de, provavelmente, diversos libertos e até aquilombados. Basta citar a informação trazida pelo pesquisador Armindo Müller no seu Dicionário Histórico e Geográfico da Região de Santa Cruz do Sul (Edunisc, 1999). Referindo-se ao Faxinal do João Faria, antiga denominação da cidade, Müller diz que "O avô de João Faria foi o primeiro morador de Santa Cruz. Para resguardar-se das investidas dos índios, fez cercar sua casa (um sobrado de madeira, que chegou a servir de alojamento a imigrantes) pelos ranchos de seus numerosos escravos”. Numerosos escravos!

É por isso que soam injustas e falhas as manchetes de jornal do tipo “Negros JÁ criaram raízes em Santa Cruz do Sul”. Ora, dão a entender que a inserção de pessoas com descendência africana é algo recente no município. Trata-se, ao meu ver, da reprodução – mesmo que inconsciente – de um processo de “invisibilização” das pessoas não-brancas em geral e sem teuto-descendência mais especificamente.

Os afro-descendentes estão marginalizados até nos livros de história produzidos no em Santa Cruz. No máximo, lê-se algumas linhas “de passagem”. Falta muita pesquisa. Falta escrever uma obra didática com uma perspectiva histórico-social etnicamente plural e crítica da formação da sociedade santa-cruzense. O foco tem se restringido, quase sempre, aos alemães – que, de fato, são fundamentais nesse processo.

Mas nunca estiveram “sozinhos” no papel de “civilizadores” na região (e, portanto, de extinção das organizações sociais e culturas silvícolas, só para citar outro grupo comumente marginalizado), que envolve um contexto muito amplo de relações e colaborações de inúmeras ordens.

A simplificação em um mito fundador exclusivo – o do “colono imigrante” –, além de limitado e fantasioso, presta-se a entendimentos equivocados da constituição de Santa Cruz do Sul, sendo elemento considerável na naturalização da discriminação racial no seio da comunidade. Que as atividades em torno do dia 20 de novembro, morte de Zumbi dos Palmares, possam fazer um contraponto sério às distorções e desvalorizações históricas.




República do preconceito

Faz tempo que Irton Marx se tornou uma personalidade controvertida. Com uma votação bastante expressiva, foi quase eleito vereador em Santa Cruz do Sul no último pleito. É autor do livro “República do Pampa Gaúcho”, coletânea de textos onde se destaca a proposta de criação de um novo país a partir do desmembramento do Rio Grande do Sul e, até, outros estados do sul do Brasil.

Boa parte da crítica sofrida pelo mentor contemporâneo do “separatismo pampeano” deriva de suas posições preconceituosas, que, de fato, são reveladas em sua obra supracitada. Não vou mencionar as diversas passagens “incríveis” que fui assinalando numa leitura que fiz semanas atrás. Fico só com um pequeno trecho, que – sob gargalhadas irreprimíveis – me espantaram deveras pelo seu potencial discriminatório. Refere-se aos rio-pardenses.

Abaixo de uma foto com uma vista superior de parte da cidade de Rio Pardo, onde aparecem diversos prédios históricos e residências, com alguns edifícios ao fundo, está anotado assim, à guisa de legenda: “Sua gente, de origem portuguesa, muito amável por sinal, muito atenciosa e cordial, não possui o espírito evolutivo dos alemães ou dos italianos, permanecendo resguardada da evolução. Seus filhos, como de resto de outras cidades fronteiriças do Pampa Gaúcho, não tendo emprego em suas localidades, saem numa aventura pelo mundo, indo parar em Porto Alegre, Caxias do Sul, Santa Cruz do Sul, na ânsia de trabalhar. Acostumados a um tipo de vida, a maioria não acompanha a cultura de outras cidades, perdendo-se aí.”

Eis a manifestação de uma perspectiva tão simplista quanto agressiva, mesmo com as “amabilidades” introdutórias. Joga para questões de ordem étnica – quiçá genéticas... – todo um processo de desenvolvimento urbano de extrema complexidade. O “atraso” de Rio Pardo estaria, para Irton Marx, na particularidade do seu povo de origem lusa (outro reducionismo) e sua “mentalidade inapta ao progresso”. Isso é o que há de pior no senso comum, que acaba por embasar e justificar tantas atrocidades ocorridas ao longo da história humana.

Pode ser que o senhor Irton tenha reconsiderado certas coisas que publicou há mais de uma década (1990). Pelo jeito, não, conforme faz pensar um artigo seu saído há pouco na imprensa. De qualquer forma, o preconceito que exala dessa sua obra só faz por ridicularizar a idéia que o destacado santa-cruzense tenta defender, ou seja, a formação de mais um país na América do Sul, que – ao considerar-se com seriedade o que está dito em “República do Pampa Gaúcho” – já nasceria internamente com potentes germes racistas e francamente xenófobo em relação aos “vizinhos brasileiros”.




O pioneirismo na imprensa de Santa Cruz

Ao contrário do que muita gente pensa, o primeiro periódico editado em Santa Cruz do Sul não foi em língua alemã ou com algum vínculo a personalidades e mesmo à cultura germânica locais. O primeiro órgão de imprensa santa-cruzense chamou-se “A Cruzada”, publicado em português, fundado em 1887 sob a responsabilidade de um senhor de nome José Rodolpho Taborda. Três anos após é que surge o “Kolonie” – de enorme importância, mas já sem a marca de “O Primeiro” do município.

Muitos jornais se sucederam ao longo do tempo; foram lançados, alguns até conviveram e, todos, acabaram desaparecendo. Na divisão feita pelo historiador Hardy Elmiro Martin (no ensaio que consta no “Relatório Sobre a Exposição: A História e a Evolução da Imprensa em Santa Cruz do Sul” – evento realizado pela Prefeitura Municipal em 1990), há duas “eras” na imprensa local. Na mais “antiga”, que vai do surgimento de “A Cruzada”, em 1887, até 1941, quando para de circular o “Jornal de Santa Cruz”, a maioria dos periódicos – outra provável surpresa – foi publicada em português (nove ao total), cinco em alemão e dois em português e alemão. Dos quinze, pelo menos sete tiveram à frente de suas direções pessoas com sobrenomes tipicamente lusos. Seis – ao que tudo indica, conforme os dados da supracitada pesquisa de Martin – foram dirigidos exclusivamente por cidadãos cujos nomes os relacionam à descendência portuguesa.

Com isso não se quer menosprezar ou retirar os grandes méritos de teuto-descendentes no desenvolvimento da imprensa santa-cruzense (e em tantos outros setores). O desejo é, antes de qualquer coisa, propor uma espécie de “equalização histórica”, ressaltando, além dos “alemães”, o papel de personalidades e grupos étnicos que ainda permanecem marginalizados na “história oficial” de Santa Cruz do Sul, cuja materialização mais paradigmática é o hino municipal – símbolo cívico que “esquece” de homenagear a pluralidade racial, cultural e de procedências geográficas dos formadores do município desde os seus primórdios.




A negritude de Jesus

Negritude pode ser definida, simplificadamente, como as posturas e relações identitárias que algo, alguém ou um grupo afirma e mantém com a cultura afro, ou seja, com elementos relacionados aos povos do continente africano e seus descendentes espalhados pelo mundo. Nesse sentido, a figura e a história de Jesus Cristo teriam muitas e profundas correspondências com o termo.

A começar pela possível conformação genética e cultural do nosso considerado Salvador. Segundo José Alencar Lhudier, membro do Grupo de Estudos Negros da Escola Superior de Teologia em São Leopoldo (RS), os israelitas, povo de onde provém Jesus, tiveram uma grande ligação com a nação egípcia, ou seja, com a África. As histórias Bíblicas do Velho Testamento – José e o Faraó, a fuga do Egito conduzida por Moisés etc. – são exemplos disso. Lhudier, referindo-se ao evangelho de Mateus, diz que o próprio “Jesus passou os primeiros momentos de sua vida no Egito, de modo que também conviveu com essa gente de ‘origem negra’”. José e Maria, pais do menino ainda bebê, “fugindo da matança ordenada por Herodes”, saíram às pressas da Judéia (Palestina) e refugiaram-se no norte da África.

Em recente reconstituição, baseada em dados científicos, das feições que deveria ter Jesus na realidade, muita gente levou um grande susto: a figura com traços europeus, com olhos azuis ou verdes, melenas aloiradas ou ruivas e pele alva, deu lugar a um homem moreno, atarracado, de cabelo pixaim e um nariz que não segue as dimensões estereotipadas de um “verdadeiro galã” ou super-herói ariano, conforme nos fazem crer as representações – estátuas, pinturas, desenhos etc. – que majoritariamente moldaram (e moldam) em nossas mentes a imagem do alcunhado Nazareno. Por tais iconografias “clássicas” popularizadas ao longo do tempo, tem-se a impressão de que Jesus nasceu na Áustria ou na Dinamarca, e não numa região de sol inclemente da costa do Mediterrâneo!

Romper com este tradicionalismo plástico e cultural, que formatou Jesus como um “branco”, pode ser um fator importante para ajudar a minar o racismo ainda tão presente em nosso Brasil e planeta afora, contribuindo também para o resgate da auto-estima dos afro-descendentes, quer dizer, de pelo menos a metade dos brasileiros – conforme dados do IBGE. De fato, o Cristo real tem muito mais a ver com a África, com a negritude, com o sofrimento e luta de povos oprimidos, do que com privilegiadas brancuras e suntuosidades inacessíveis à maioria do “povo de Deus”.




Conflito étnico na Asa Esquerda

Uma das facetas que mais achei interessante no profundo romance A asa esquerda do anjo, da escritora santa-cruzense Lia Luft, é a exposição do conflito étnico que vivencia a protagonista da história, chamada por uns – “à maneira alemã” – de Guízela, e por outros de Gisséla – “em brasileiro”. O ambiente da cidade parece inspirado na Santa Cruz do Sul em torno dos anos de 1950.

São várias as passagens onde aparecem explicitamente litígios pessoais e sociais de fundo racial. Em certa altura da leitura, a personagem, que é neta de uma austera e conservadora avó de origem alemã, narra uma experiência de infância passada na escola, quando se depara com colegas que gritam em desprezo e ofensa a ela: “Alemão batata come queijo com barata”. Atordoada, Gisela retruca que em sua casa ninguém come tal coisa. As colegas, em clima de “lusos-descendentes versus germânicos”, não desistem: “Come sim, meu pai disse que vocês comem coisas esquisitas”, complementando que os alemães “vivem no Brasil e dizem que a Alemanha é melhor. E querem ser mais que a gente”. Vendo seus protestos e considerações não surtirem efeito apaziguador, Gisela, magoada, acaba por “devolver na mesma moeda”, e então insulta às “brasileiras” com um argumento derradeiro: “E vocês que têm sangue negro!”

Coisa terrível. A afro-descendência é usada como o máximo dos rebaixamentos da pessoa. Percebemos, assim, que, em meio a uma escola – conforme se pode concluir – freqüentada apenas pela elite branca da cidade, a hostilidade étnica mantêm-se, é grande e reafirma estereótipos, como a “superioridade ariana” dos descendentes de imigrantes alemães no Brasil em contraposição à “contaminação genética” que os de origem lusa teriam; a “não-brasilidade” dos teuto-descendentes e o conseqüente “perigo alemão” de que nos fala René Gertz. Sobretudo, no conjunto do conflito dessas meninas com raízes européias retratadas no romance, depreende-se a comum ojeriza dos brancos aos negros, enfim, o racismo explícito no seio da comunidade.

Lia Luft tem dito em suas entrevistas à imprensa que, de fato, vivenciou em seu tempo de criança e adolescência o peso do preconceito racial/cultural e os dramas humanos por ele produzidos. Assim, a A asa esquerda do anjo, mesmo que ficção, faz uma denúncia à intolerância, donde percebe-se o rompimento da autora com ilusões, mitos e tradições “puristas”, que, ao invés de incluir, excluem pessoas, com um saldo enorme e absurdo de sofrimentos desnecessários.




Negros abrindo caminhos à colonização alemã

Já foi dito várias vezes (mas ainda não suficientemente) que, na história do Vale do Rio Pardo, em especial no tocante a municípios como Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul, se tem menosprezado a colaboração de grupos e pessoas de determinadas etnias, caso flagrante do povo negro. Existe de fato uma centralização em torno da colonização germânica (em parte compreensível pelo volume de imigrantes), que acaba por monopolizar as pesquisas, os relatos e homenagens históricas.

Esses dias, acompanhando a publicação de artigos na imprensa regional sobre o surgimento da Colônia de Santa Emília, em Venâncio Aires, notei, com entusiasmo, que o pesquisador Cláudio Carlos Fröhlich traz à tona algo muito interessante, mesmo que em nível de hipótese (mas muitíssimo factível). Trata-se do trabalho de escravos na abertura dos primeiros caminhos que deram acesso, posteriormente, ao assentamento de imigrantes alemães (entre outros) em diversas localidades, caso da referida comunidade venâncio-airense. Sem esse trabalho pioneiro de, provavelmente, centenas ou milhares de descendentes africanos por anos a fio (considerando que deve ter continuado mesmo após a chamada abolição da escravatura), a ocupação das terras nas densas florestas do vale seria ainda mais difícil, senão impossível.

Portanto, quando louvamos os colonizadores que chegaram aqui a partir de meados do século 19, jamais deveríamos esquecer que o “nosso” (bem entre aspas!) território começa a ser estabelecido, através das demarcações, abertura de acessos e locais de residência e trabalho, antes da chegada desse contingente vindo do que hoje é a Alemanha e arredores. Sem falar nos lusos, há os índios – a população autóctone que aos poucos foi afastada e quase exterminada – e os negros, cujos antepassados que cruzaram o oceano (conseguindo sobreviver às piores condições) chegaram como “imigrantes forçados”. E, mesmo que menos expressivos numericamente, têm seu papel fundamental na constituição da sociedade, da cultura e da economia da região.

Uma certa germanidade apologética, que se verifica em municípios como Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul, urge ser, repito, “equalizada”, incorporando-se a trajetória dos teutos no Vale do Rio Pardo num contexto maior, mais complexo, de múltiplas colaborações e relações interétnicas. Assim poderemos produzir uma compreensão e ambiente sociais cada vez mais – na concretude cotidiana (sem mais referências débeis e demagógicas sobre “outras raças”) – superadores de preconceitos.




Desmistificando a história de Santa Cruz

A literatura muitas vezes pode ampliar a nossa visão sobre o mundo e, mesmo, sobre a história de Santa Cruz do Sul. É o caso, entre outras, da obra A valsa da Medusa (Editora Movimento, 1989), de Valesca de Assis, outra escritora, que, junto com Lya Luft, montam, a partir de suas vivências e conhecimentos, narrativas de excelente densidade social e psicológica. Valesca, através da ficção, baseada em situações reais ou factíveis, e também vários personagens verídicos, amplia o nosso olhar, penetrando na diversidade de indivíduos, grupos e acontecimentos que foram moldando a comunidade santa-cruzense. Saímos de estereótipos, unilateralismos, da epopéia para a crueza própria do ser humano.

Um pequeno trecho do romance, que transcorre em meados do século 19 – ainda, portanto, no início da introdução de imigrantes germânicos (entre outros) na região –, nos coloca frente a inter-relações étnicas ainda pouquíssimo estudadas aqui no Vale do Rio Pardo, especialmente em Santa Cruz do Sul, ou seja, os índios (e/ou descendentes indígenas) e os imigrantes germânicos, além do conflito de identidades regionais trazidas de uma Alemanha ainda em formação.

Pois bem, o colono de sobrenome Schneider comenta com o professor Waldvogel em meio aos calores de uma queimada para a abertura de terreno à lavoura: “Parece mentira que esses índios tenham alguma coisa a nos ensinar. É como se nós, renanos, tivéssemos algo a aprender com a gente atrasada da Pomerânia; como se o sacristão pudesse dizer missa ao vigário! – Peter Schneider cuspiu para o lado e olhou de viés para Inácio Correia (o personagem indígena), seu empregado. – tenho de me cuidar – segredou – logo essa bugrada ladina estará entendendo alemão.” A narradora complementa, no parágrafo a seguir, que “Todo aquele discurso nasceu da curiosidade de Tristan Waldvogel em saber detalhes sobre esse modo peculiar de dobrar a natureza: a coivara, coisa de índio. Nada obteve, senão a indignação de Schneider diante da superioridade dos nativos, ao menos no domínio de uma técnica.”

O preconceito é explicitado muitas vezes ao longo do livro. Outro colono teuto, “Herr” Eick, diz ao já citado Waldvogel: “Sabe, professor, eu não consigo aceitar os brasileiros como gente igual a nós. São burros, desdentados, feios; sinto repulsa em vê-los, em ter de apertar sua mão. Não sei como D. Pedro pode governar gente tão irrisória: é como reinar sobre um bando de macacos; não há a menor ressonância, o menor respeito.”

Nem só o elemento indígena nos é apresentado em A valsa da Medusa. Além da real e importante figura do imigrante norte-americano Guilherme Lewis, proprietário de escravos negros que trabalhavam em uma olaria nas imediações do então Faxinal do João Faria, hoje cidade de Santa Cruz do Sul, Valesca introduz em seu escrito a presença de brasileiros de outras províncias do país – que, de fato, estava ocorrendo conjuntamente à instalação das levas emigradas da Europa. Ela escreve assim: “Ruidosa como sempre, foi à chegada (em uma reunião com o diretor da Colônia de Santa Cruz, João Buff) dos baianos, liderados por José Gonçalves, na verdade o único baiano do grupo formado por ele, um paulista e dois paraenses. Os quatro haviam lutado contra Rosas (ditador argentino, morto em 1877), encantaram-se com o sul e decidiram ficar por aqui, onde casaram – a contra-gosto de algumas famílias – com moças alemãs.” Estamos diante da miscigenação e, de novo, de relações não-pacíficas entre grupos e identidades étnicas.

E é assim, através de contrapontos explicitados em trabalhos como A valsa da Medusa, que vamos formulando uma história de Santa Cruz do Sul e região menos mistificada, mais humanizada e etnicamente inclusiva.




Voltando ao hino

A pesquisadora da USP e mestre em psicologia social, Maria Aparecida Silva Bento, em seu livro Cidadania em preto e branco, diz que “Mostrar para crianças e adolescentes sempre heróis brancos significa dizer a eles que a coragem, a inteligência, o destemor e o senso de justiça são qualidades de apenas um grupo. Assim, crianças negras e brancas acabam formando idéias distorcidas sobre os grupos aos quais pertencem. As negras se vêem e se sentem numa condição de inferioridade; as brancas, de superioridade.”

Quando surgiu a discussão sobre o Hino Municipal de Santa Cruz do Sul, ela partiu exatamente dessas idéias, ou seja, um símbolo municipal, que pretende retratar a história santa-cruzense, torna-se algo problemático quando exclui do seu discurso a existência e a colaboração de outros grupos étnicos na construção da comunidade. Além de (para dizer o mínimo) uma falta de zelo às “boas relações” interétnicas, a existência de tal simbolismo desrespeita a realidade histórica em sua complexidade: os teutos e seus descendentes jamais estiveram isolados em Santa Cruz do Sul, vivendo numa espécie de bolha social, sem interações em diversos níveis e setores.

Sobretudo, no cerne da discussão – que suscitou reações beirando a insanidade, inclusive com ameaças à integridade física dos promotores dos encontros –, estavam os prejuízos a auto-estima e à cidadania de milhares de crianças, cujos antepassados não mereceram sequer uma referência débil na letra do cântico oficial. “Como se sente uma criança afro-descendente santa-cruzense ao aprender e ter de cantar o hino municipal em alguma cerimônia? Muitas, provavelmente, nem notarão a mensagem que louva o ‘loiro imigrante’ e a ‘bravura alemã’ sem jamais se referir aos negros – e, da mesma forma, aos portugueses, índios e outros povos (inclusive de outros países da Europa) que também habitaram (e habitam) e constituíram (e constituem) o município de Santa Cruz do Sul”, assim dizia, com precisão, o artigo da professora Ivanice Ferreira Azeredo publicado em abril de 2001.

Infelizmente, à época da composição do hino, não se teve esta perspectiva pluralista, preferindo-se destacar apenas uma “raça”. Os motivos desta exaltação étnica excludente ainda estão para serem estudados em suas minúcias. Entretanto, nada impede de, no mínimo, já, agora, refletir sobre tais questões, pondo em xeque uma visão distorcida e potencialmente geradora de preconceitos.

Porém, há ainda vozes que insistem em manter o mito de uma germanidade totalitária e super-heróica. O que se “ganha” com isso? Ora, talvez um pouco mais de “sentido” para celebrações comerciais como a Oktoberfest. Mas, no rescaldo desse ufanismo, há elementos para nutrir noções historicamente equivocadas e sectarismos.

A professora citada acima encerrava assim o seu corajoso artigo: “Por que não pensarmos em um novo hino para Santa Cruz do Sul? Um hino que os meninos e as meninas de pele escura e sem sobrenomes germânicos possam também se orgulhar de ouvir e cantar, se sentindo incluídos na letra e na música, valorizando seus antepassados, sua cultura própria, a luta e o sofrimento do seu povo, na busca de um município próspero, justo, democrático e sem mitificações que acabam por reproduzir o racismo e a exclusão social”.




Língua guarani no Vale do Rio Pardo

O Vale do Rio Pardo possui uma coletânea enorme de relatos históricos dos mais interessantes por sua complexidade – ainda pouco estudada e, ainda menos, divulgada.

Um exemplo é o uso da língua guarani no município que por largo tempo foi o centro urbano catalisador dos fluxos políticos, econômicos e sociais de vasta região. Conforme Dante de Laytano, em seu Guia Histórico de Rio Pardo, publicado em 1979, “Alguns viajantes do século XIX notaram que, em Rio Pardo, a língua guarani era de uso tão comum como a portuguesa, pelo menos na primeira metade do século”. Ou seja, considerando a pertinência da informação de Laytano, até por volta de 1850 o guarani funcionou como, pelo menos, a “segunda língua” de Rio Pardo e, quiçá, de boa parte da região que se nucleava nessa cidade.

João Cezimbra Jaques, em seu “tradicionalíssimo” Assuntos do Rio Grande do Sul, cuja primeira edição saiu em 1912, diz, citando o padre e historiador Carlos Techamer, que “Os que mais penetram a natureza desta língua [o guarani] mais lhe exaltam as raras qualidades e a equiparam às clássicas. Estes lhe celebram a riqueza, aqueles a elegância da expressão, [...] outros lhe admiram o fino de sua ductilidade [...]”. Pois com todas estas qualidades aludidas por Techamer, o guarani extinguiu-se do cotidiano de Rio Pardo e região...

O que será que aconteceu com tal idioma indígena que parece ter sido corrente no dia-a-dia dos rio-pardenses? Antes disso, ainda: de que forma o guarani se estabeleceu como uma língua comum “por estas bandas”? As perguntas são ainda mais intrigantes quando consideramos o quanto soa estranho falar em índios – para além da chamada pré-história – numa região onde os lusos, teutos e seus descendentes parecem os únicos a existirem após a ocupação européia da América.

Bem possivelmente, como nos faz pensar, por exemplo, essa alusão ao uso disseminado do guarani em Rio Pardo no século retrasado, a presença e influência indígenas na região não foram tão débeis assim. O problema pode estar no etnocentrismo “branco”, que, ao “resgatar a nossa história”, menospreza a existência e o papel de outros grupos étnicos considerados minoritários.




Língua guarani no Vale do Rio Pardo (parte II)

Apesar da invisibilidade histórica, os povos indígenas têm uma existência concreta no Vale do Rio Pardo. O uso disseminado do idioma guarani na cidade de Rio Pardo até pelo menos meados do século XIX, conforme uma informação já citada (no artigo com o mesmo título acima publicado no ano passado) da obra de Dante de Laytano, Guia histórico de Rio Pardo (em sua segunda edição de 1979), é algo que nos alerta para uma considerável presença e influência de indígenas na região.

Além das refregas constantes entre o exército português com os índios junto às guarnições postadas na então nascente cidade de Rio Pardo – que viria a ser um dos principais pólos da então província meridional brasileira –, a própria existência ainda mais anterior de três reduções jesuíticas ao longo do Rio Pardo, imediações do Rio Pardinho (Yequi e Yequijii, respectivamente, como eram chamados), um aldeamento de índios trazidos da região do Sete Povos das Missões formou por longo tempo a comunidade de São Nicolau com centenas de indígenas, além de prováveis assentamentos autóctones sem controle estatal algum nos grotões e em meio às densas florestas do Vale do Rio Pardo.

O professor Pedro Mentz Ribeiro, num artigo na Revista do Centro de Ensino e Pesquisas Arqueológicas (publicada pela editora da então Faculdades Integradas de Santa Cruz do Sul, FISC, em junho de 1988) apresentando suas pesquisas históricas e arqueológicas sobre a referida Aldeia de São Nicolau, nos mostra que havia a intenção deliberada das autoridades daquele tempo de “integrar os indígenas” através da miscigenação com lusos-descendentes, do registro dos indígenas em livros de batismo “com apelidos portugueses”, tendo-se “o maior cuidado em que falem a nossa língua [portuguesa] e esqueçam o guarani”. Ou seja, uma aculturação forçada, que abusou – além da violência física – da violência simbólica, com a imposição de um idioma em substituição a uma língua nativa com raízes milenares.

Quando se fala em “resgate cultural”, “estudo e manutenção da língua dos antepassados”, da “odiosa censura e repressão oficiais” a determinados grupos étnicos, não seria interessante abrir esse leque de preocupações e esforços aos povos indígenas, que, conforme apontam vários estudos, estão pela região do Vale do Rio Pardo há pelo menos sete mil anos? Por que menosprezá-los? Numa sociedade que se quer etnicamente plural, respeitadora da diversidade cultural, da inclusão das chamadas “minorias”, dar maior atenção aos verdadeiros pioneiros da ocupação da região (e até mesmo do plantio do fumo!) é algo a ser considerado com efetividade. Afinal, como vimos, a cultura e a língua guarani – entre várias outras – fazem parte da história e da conformação social regionais.





Santa Cruz deve muito aos índios

O sustentáculo da economia santa-cruzense, que impulsionou o meio rural e urbano do município desde as primeiras levas de imigrantes alemães, é, sem dúvida, o fumo. Mas pouca gente lembra de que tal planta está intimamente ligada aos índios, que há milênios já o cultivavam. Muito mais tarde, e depois de muitas voltas na história, o tabaco veio a ser a cultura que deu impulso à lavoura, à indústria e ao comércio de Santa Cruz do Sul.

Estudos apontam que há cerca de 10 mil anos atrás chegaram no Vale do Rio Pardo os primeiros grupos indígenas. Através do desenvolvimento de técnicas próprias, sobreviveram pela caça, pesca, coleta de produtos florestais e, mais tarde, agricultura. Vários outros agrupamentos, com conhecimentos, tecnologias e organização social diferenciadas, se sucederam ao longo do tempo na região. Centenas de sítios e achados arqueológicos, além de documentos históricos, demonstram tal desenrolar. E até hoje índios e descendentes de diversas procedências transitam e mesmo residem na periferia da cidade ou em localidades interioranas.

Um testemunho desta presença contemporânea foi o relato – durante um debate com membros do Conselho Estadual dos Povos Indígenas (Cepi-RS) que ocorreu na Unisc em 2001 - de uma índia nascida em Santa Cruz do Sul, chamada Maria Antônia Soares, que então residia na cidade de Estrela, numa comunidade com cerca de vinte famílias indígenas. Os seus antepassados ocupavam áreas nas imediações do hoje Parque da Gruta. Maria Antônia relatou que seus pais, avós, bisavós e ela própria percorriam com desenvoltura as matas remanescentes, conhecendo em detalhes regiões como Linha Pinheiral. Sem posse legal de terra alguma, pressionados e na busca de melhores condições de vida, eles migraram para o Vale do Taquari e espalharam por outras diversas localidades do Estado.

O professor e arqueólogo Pedro Mentz Ribeiro, autor do livro Pré-história do Vale do Rio Pardo, há muitos anos chama a atenção para a importância da cultura autóctone na região. Ele reforça esta idéia de que Santa Cruz do Sul tem numa planta nativa, cultivada e utilizada antes da chegada dos europeus, a base da economia, ou seja, o fumo. Ribeiro também lembra de outros cultivares milenares característicos dos índios da região, como o feijão, milho, abóbora, aipim, batata-doce etc. Ressalta ainda que no processo de miscigenação, muitos santa-cruzenses têm grande possibilidade de apresentarem “boa parcela de sangue indígena”.

Falando em tabaco, outro dado trazido pelo professor Ribeiro – ao apresentar suas pesquisas sobre a Aldeia de São Nicolau, em Rio Pardo – diz que tal comunidade chegou a juntar centenas de famílias indígenas trazidas da região dos Sete Povos das Missões. Entre outras instruções das autoridades da época (o documento referido é de 1769) para os aldeados, havia a de plantarem fumo. Ou seja, por instrução já do século XVIII, pelo menos 80 anos antes da chegada do primeiro grupo de imigrantes alemães, há referências sobre o plantio de fumo por parte de indígenas. Portanto, os pioneiros da fumicultura, antes e depois da chegada e dominação dos portugueses no Vale do Rio Pardo, são os índios.

Por essas e outras tantas razões, deveríamos refletir sobre nossa dívida com os povos indígenas. Antes de migalhas e favores, antes de “enxotá-los” ou isola-los de alguma maneira do nosso convívio, podemos reconhecer o “direito ancestral” destes povos circularem (pelo menos isso!) nas terras que paulatinamente foram apossadas por “estrangeiros”, doadas, compradas e vendidas dentro da lógica do “branco”, que tratava (ainda trata!) o índio com um ser inferior e, portanto, passível de expropriação, inclusive da sua dignidade pessoal e cultural.


*No Guia Histórico de Rio Pardo, de Dante de Laytano, em sua edição de 1979, o autor fala de um francês que vinha para a região de Rio Pardo para a compra de fumo. Isso aconteceu em torno do ano de 1803, ou seja, 46 (quarenta e seis) anos antes da introdução de imigrantes germânicos nas bandas de Santa Cruz do Sul. É mais uma referência de o cultivo e o comércio de fumo já está estabelecido na região, e não surgiu a partir da colonização a partir de meados do século XIX.




Índios e negros: “Fora daqui!”

Há um episódio muito interessante e revelador anotado pelo professor Jorge Cunha em seu livro Os colonos alemães e a fumicultura (Fisc, 1991). Em nota de rodapé, lê-se o seguinte: “Com a valorização das terras em torno da colônia de Santa Cruz [RS], os matos e ervais pertencentes aos índios da aldeia de São Nicolau de Rio Pardo, com cerca de duas mil braças quadradas (968 hectares), são considerados devolutos e loteados, passando a fazer parte da colônia de Monte Alverne”. Isso se passa em torno de 1859, dez anos após a introdução da primeira leva de imigrantes germânicos em Linha Santa Cruz. No avanço da colonização, as áreas de extrativismo pertencentes a indígenas da região são usurpadas. A elite econômica e política impõem os seus interesses e concepções de “desenvolvimento regional”.

Outro fato da maior significância – e que também costuma ser lido como um “mero detalhe” – diz respeito à existência de negros aquilombados na região, que, por aqueles tempos, estava sendo ocupada por famílias alemãs. Cunha escreve, na sua supracitada obra, que o então diretor da colônia de Santa Cruz, Carlos Schwerin, efetuando medidas na serra ao norte de Linha Ferraz e São João, comunica, em 1863, ao inspetor geral das colônias, que ele havia encontrado vestígios de que “existem por dentro destes matos um quilombo numeroso, cuja destruição é tanto necessário, [já] que a colonização de Santa Cruz [com imigrantes germânicos] há de se estender por este lado até chegar em Cima da Serra”. Mais uma vez os grupos que “teimam” em sobreviver autonomamente, longe da inaudita exploração, mantendo uma cultura própria, não-proto-européia, são perseguidos como um câncer a ser extirpado, pois “atravancam a civilização”...

A conclusão do professor, fazendo uma citação do relatório do então presidente da província, Jeronymo Francisco Coelho, de 15 de dezembro de 1856, é de que “fica claro que a colonização com imigrantes brancos e europeus significa o desejo subjacente de modernização calcada sobre o abandono e a destruição dos elementos característicos de uma forma de produção que, dados os ‘compromissos de dever e de honra nacional, os tratados, os sentimentos de humanidade, e a reprovação geral dos povos cultos’, deve desaparecer para sempre”. Se o preço é próprio extermínio dos “povos não-cultos”, paga-se sem maiores remorsos – tudo em nome do progresso!

Incrivelmente, idéias arrogantes e discriminatórias, como as manifestadas no século retrasado por esse, então, presidente da província sul-riograndense, prosperaram e continuam, de uma maneira ou de outra, explícita ou dissimuladamente, se reproduzindo até hoje. A ignorância ou o menosprezo ou a total omissão de acontecimentos – como o da expropriação dos ervais dos índios e perseguição a quilombos em meio às, outrora, densas florestas do Vale do Rio Pardo – quando se conta, de diversas formas, a história santa-cruzense, é uma pequena amostra do descaso.

Penso que está na hora de levantarmos o alvo tapete cerimonial forjado em hinos, monumentos, livros e outros meios mitificadores, superando, assim, como diz o historiador Mário Maestri, “as narrativas vitimárias e prometéicas das leituras étnico-apologéticas da colonização”, e começar a vasculhar com mais afinco o que está soterrado por décadas de preconceitos bem pouco admitidos, construindo uma perspectiva mais ampla, multiculturalista, para a formação da comunidade local e regional.




Historiografia santa-cruzense e germanismo

Ao comentar a tese de doutorado de Ieda Gutfreind, Historiografia rio-grandense, transposta em livro pela Editora da UFRGS, a professora Helga Piccolo, nas “orelhas” da segunda edição (1998), diz que “A obra mostra como a seleção de informações necessárias à construção do objeto de pesquisa [a história do Rio Grande do Sul] foi feita conforme os objetivos/interesses dos historiadores analisados [entre eles, Moysés Vellinho, Souza Doca e Othelo Rosa]. Assim, o caráter ideológico da produção do conhecimento histórico é desvelado”. Logo a seguir, Piccolo complementa o seu comentário, referindo-se ao lusitanismo sectário verificado pela doutora Gutfreind: “estando ausentes das preocupações da maioria desses historiadores as correntes imigratórias não-lusitanas, a identidade sul-rio-grandense que eles construíram foi excludente. A construção simbólica do Rio Grande do Sul, pela qual foram responsáveis, foi insuficiente ‘para resgatar o processo histórico gaúcho’”.

Pergunto: Isso tudo não poderia ser dito, com as devidas transposições e especificidades, em relação à história de Santa Cruz do Sul? Ao invés do lusitanismo, colocaríamos o germanismo*, como uma concepção ideológica** filtrando o olhar de diversos historiadores e outros intelectuais santa-cruzenses (leigos e acadêmicos), produzindo obras – entre livros, artigos e simbolismos diversos – que menosprezam a presença e colaboração de personalidades e grupos étnicos não-germânicos no município.

Veja-se o caso do hino de Santa Cruz do Sul. Originalmente composto em 1959 e decretado em 1963, é uma peça que, ao “contar a história santa-cruzense”, oficializa uma versão exclusivista da formação e desenvolvimento municipal. E assim também acabam servindo o feriado municipal de 25 de julho, o Monumento ao Imigrante (onde nenhuma mulher é retratada ou citada nos escritos em bronze), a Festa do Colono etc.

As razões para tanto, para forjar e manter esta “perspectiva histórica” baseada numa origem germânica quase mítica*** e um protagonismo ofuscante dos teutos ao longo do tempo, ainda estão para serem melhor pesquisadas. O que parece ocorrer é uma tentativa de legitimar pelo menos – não necessariamente nesta ordem - três coisas: (I) a procedência da temática turística utilizada (mesmo que “pasteurizada”) em eventos como a Oktoberfest, (II) o sentimento de pertencimento a uma comunidade positivamente sui generis por parte de um grande grupo de munícipes e (III) a “natural preferência e preponderância alemã” junto a mecanismos de empoderamento no município.

Hoje esta última “estratégia” já está muito fragilizada, como se percebe, por exemplo, na eleição recente e reiterada de políticos sem sobrenomes “tipicamente alemães” para cargos muito expressivos e o surgimento de movimentos que buscam trazer à tona a participação de negros, índios, italianos etc. no seio e na construção da sociedade local. Santa Cruz do Sul pode estar passando por uma crise de identidade...


*René Gertz define “germanismo” como “ideologia difundida destinada a preservar a identidade étnica e cultural dos teutos”. Já “germanista” seria “pessoa ou entidade que difunde a identidade étnica e cultural dos teutos”.

**Sandra Jatahy Pesavento, no artigo Historiografia e ideologia, que consta no livro RS: Cultura & Ideologia (editora Mercado Aberto, 1996 – 2ª edição), diz bem a propósito (p. 62): “A história, como ciência social, é dotada da necessária objetividade – que lhe dá o conteúdo de ciência – mas, enquanto produção intelectual, responde a interesses sociais determinados. A História não pode, pois, ser neutra, mas é constituída a partir da ideologia, que corresponde a determinados interesses de classe, com seus valores específicos”.

***Conforme define Vanildo de Paiva, em seu ensaio “Filosofia, encantamento e caminho: introdução ao exercício de filosofar” (editora Paulus, 2002, p. 29, 30 e 31), “O mito deixa transparecer a vida da comunidade. (...) Ele carrega consigo uma mensagem enviesada, não dita explicitamente, mas através de códigos e cifras. Fala bonito. Fala ilustrando, poetizando, dando vida ao imaginário, fazendo com que o real delire e o ideal ganhe vida”. Adiante, citando Everaldo Rocha (em “O que é mito”, da “Coleção Primeiros Passos”, editora Círculo do Livro): “O mito não possui sólidos alicerces de definições. Não possui verdade eterna e é como uma construção que não repousa no solo. O mito flutua. Seu registro é o imaginário. Seu poder é a sensação, a emoção, a dádiva. Sua possibilidade intelectual é o prazer da interpretação. E interpretação é jogo e não certeza.” Continuando, Paiva diz: “Enquanto elemento significante da vida de um povo, o mito tem poder de coesão do grupo. Faz parte da comunidade quem partilha daquele mito, quem é capaz de captar, em nível sobretudo de sentido, o óbvio identificador do chão comum de valores daquele grupo, extremamente velado ao estranho. Desta vez citando E. Cassirer: “A coerência do mito provém mais de uma unidade de sentimento do que de regras lógicas. Esta unidade é um dos impulsos mais fortes e mais profundos do pensamento primitivo.” Piva volta à carga em sua sobre o assunto: “A linguagem mítica possibilita conhecer o modus vivendi de uma comunidade, salvo as dificuldades de interpretação de seus códigos. O ambiente narrado pelos mitos é sempre o espaço do grupo, no emaranhado da luta diária”. Sobre as personalidades presentes nos mitos – os seus “heróis e monstros” -, Paiva fala que se tratam de “projeções de dramas interiores e relações comunitárias, cristalizadas em personagens, quase sempre credíveis ao grupo, que definem os rumos a serem trilhados. (...) Saber que na tradição há fatos ilustrativos de heróis que derrotam monstros, motiva o homem e a comunidade à subversão diante de seus ‘monstros’ do presente”. Encerrando esta longa citação, colocamos que, de acordo com Paiva, “Pode-se afirmar que há uma cumplicidade grande entre a comunidade e seus mitos. Ela cria os mitos e por eles é criada. Seu jeito de viver depende da vigência de seus mitos e esses cessam quando a comunidade modifica, por diversas razões, sua maneira de levar a vida”.




Lajeado e Santa Cruz: similaridades e diferenças

Como membro da comunidade santa-cruzense e interessado nos assuntos envolvendo a história local e regional, causou-me surpresa e alegria ler a obra do professor José Alfredo Schierholt, chamada Lajeado I: povoamento, colonização e história política (1993, em segunda edição). A boa nova, por assim dizer, veio já nas primeiras páginas, antes mesmo do sumário, quando o autor faz suas homenagens “a todos os que estiveram presentes no dia-a-dia da vida do município”. Ele escreve exatamente assim: “Ao Pacífico e nele todos os escravos anônimos e sem sobrenome, peões e primeiros povoadores desconhecidos; à Canjiquinha, Maria José Rodrigues, e nela todas as mulheres anônimas que deram a sua parte pela família e pela comunidade (...).”

Puxa vida! Que coisa mais rara um pesquisador, leigo ou acadêmico (ou, respectivamente, diletante e profissional, conforme distingue o historiador Sílvio Correa), referir-se desse modo tão candente ao povo negro e às mulheres! Em Santa Cruz do Sul, por exemplo, é raríssimo ver isso nos livros que pretendem contar a história municipal. Aliás, as homenagens que existem, em obras escritas, hinos, monumentos e outras simbolizações, beiram (ou se afundam!) em orgulhos étnicos exclusivistas e visão machista flagrantes. Os “não-brancos” e mulheres estão simplesmente invisibilizados na história santa-cruzense popularizada.

Outro dado interessante que é trazido por Schierholdt (entre muitos e vários) é o referente à posse de escravos por parte de alemães e descendentes na região de Lajeado. Assim como divulgou Aristides Carlos Rodrigues, em seu livro Candelária, sua gente e sua História (editado em 1993), houve, sim, diversas pessoas de sobrenomes tipicamente teutos nos vales do Rio Pardo e Taquari possuidores de escravos, inclusive, conforme várias indicações, usando-se de subterfúgios, caso do “apadrinhamento”, que mantinha o uso do trabalho servil de negros e negras – mesmo após a Lei do Ventre Livre e como “tática” para burlar a legislação que restringia a posse de escravos nas colônias de imigrantes.

O professor Schierholdt também alude a edificações em Lajeado feitas com o trabalho de negros escravizados. Em Santa Cruz, mesmo com relatos – em meio a outras tantas referências – sobre a existência de uma olaria nas imediações do então Faxinal do João Faria, onde trabalhavam escravos de propriedade do inglês (alguns dizem-no norte-americano) Guilherme Lewis, casado com a famosa e abastada Dona Carlota, fornecendo, provavelmente, os tijolos e telhas para as primeiras construções do futuro núcleo urbano santa-cruzense recém demarcado (no estilo “português” ou pombalino), a participação do povo negro é ainda tratada como uma espécie de anomalia social exótica, ou de tão ínfima importância histórica que “nem vale à pena” mencionar mais do que duas ou três linhas – que dirá estudar mais a fundo e apresentar ao público de uma forma explícita e assimilável!




Considerações sobre Santa Cruz do Sul: urbanização e desenvolvimento

Estou lendo o livro Santa Cruz do Sul: urbanização e desenvolvimento, do arquiteto e professor na Unisc, Ronaldo Wink. Originalmente, a publicação da Edunisc foi uma dissertação de mestrado. Achei bem bacana, boa redação, com fotos, mapas e tabelas interessantíssimas. Porém uma decepção já nas primeiras páginas: a obra repete a versão germanófila da fundação do município. O trabalho de Wink acaba se somando a várias outras “construções intelectuais” que contribuem na invisibilização e/ou menosprezo à presença e colaboração na comunidade santa-cruzense de outras personalidades e grupos étnicos para além dos chamados alemães.

Um exemplo disso, que chega a ser engraçado, é quando o professor se refere à doação de terrenos na recém demarcada área urbana do Faxinal do João Faria, hoje “gloriosa Santa Cruz do Sul” (o trabalho urbanístico original seguiu o "modelo português" e foi executado, a mando do governo provincial sul-rio-grandense, pelo comando do engenheiro – de nome nada germânico – Francisco Cândido de Castro Menezes). Wink escreve assim: “As concessões [no faxinal] processaram-se rapidamente, pois muitos foram os requerentes de terrenos nas quadras demarcadas (Anexo 1). Entre eles, ALGUNS [grifo meu] nomes de origem lusa [...].”

“Alguns”? Como assim, “alguns”? A coisa me chamou atenção porque eu já tinha observado há um tempo – quando li a listagem dos primeiros concessionários num outro trabalho escrito em 1979 (O nascer de Santa Cruz em rápidas pinceladas, de Leandro Telles) – que, pasmem!, das 161 (cento e sessenta e uma, conforme me dei o trabalho de contar novamente) pessoas que constam do tal documento, pelo menos 80 (oitenta) são de sobrenomes tipicamente lusos! Ora, como alguém pode dizer "alguns nomes" quando cerca de 50% dos concessionários têm, conforme evidenciam os Santos Silva, Moura, Ferreira, Soares de Oliveira, Rosa, Cruz, Azambuja, Freitas Leitão etc. provável descendência portuguesa? (Além dos 80 sobrenomes relacionados diretamente à procedência lusa, contabilizei mais 21 que não tenho certeza da ligação com alguma etnia específica, sendo dois ingleses, porque remetem ao famoso imigrante inglês Guilherme Lewis.)

Afinal, qual é a razão para uma avaliação tão explicitamente deturpada assim? Por que dizer "alguns" quando os sobrenomes levam a uma conclusão de que, muito possivelmente, têm origem lusa quase ou até mais do que a metade dos concessionários de terrenos na povoação então recentemente demarcada? Lapso?

Não se trata de uma “oposição aos alemães” ou “defesa dos lusos”. Meu desejo é tentar, como já disse outras tantas vezes, “equalizar” a fundamental importância dos teutos e seus descendentes com o inegável – mesmo que em outras escalas – valor e influência de pessoas e grupos “não-alemães” em Santa Cruz. E aqui, mais do que “incluir os lusos” na história do município (de resto uma sandice não fazê-lo, tal a dimensão da participação), me preocupo (enquanto cidadão, militande pelos Direitos Humanos e ativista anti-racista) com os afros, com o povo negro, cuja menção é relegada a um plano pífio ou simples e completamente ignorados.
Outra coisa que o livro Santa Cruz do Sul: urbanização e desenvolvimento reforça é esta visão acerca da autonomia e iniciativa dos imigrantes alemães que vieram a Santa Cruz do Sul. Não que isso não seja verdade. Só que, me parece, há muitas vezes uma superestimação dessas “qualidades”, além de, em inúmeras ocasiões, serem ditas como se fossem “intrínsecas à raça” e em contradição com “tendências” de outros grupos étnicos, que não teriam o mesmo “espírito de progresso da gente alemã”.

Wink escreve – no “clássico” tom dramático de outras obras apologéticas sobre o município – que “Abandonados, nos primeiros tempos, pelo Governo Provincial, no que diz respeito ao ensino e orientação religiosa, foram os próprios imigrantes, graças ao seu espírito associativista, que se encarregaram de erguer, além de igrejas, uma ampla rede de escolas particulares em língua alemã, mantidas em atividade por toda a zona rural (p.61)”. Mas, observem: coincidentemente estava eu lendo o Viagem pela província do Rio Grande do Sul, do médico alemão Robert Ave-Lallemant, entusiasta da colonização germânica no sul do Brasil e das potencialidades do seu povo com “o privilégio da pele branca” (p. 187). Em março de 1858 ele esteve na colônia de Santa Cruz e disse o seguinte a respeito da iniciativa própria dos colonos em vista da precariedade das estradas e falta de empenho do governo e de ordens explícitas do diretor (na época o alemão radicado em Rio Pardo, Johann Martin Buff): “Afinal, devem todos fazer por si mesmos o que é possível. Mas não o fazem; não têm má vontade, mas falta de vontade; é preciso que se lhes dêem ordens!” Logo a seguir, sem meias palavras, ele arremata: “O mesmo sucede com as escolas. Falei a um mestre-escola na picada de Santa Cruz, em Boa Vista, e ele queixou-se dos pais. Desculpam-se estes com as grandes distâncias, com o trabalho, de não serem os meninos enviados à escola. Se esta fecha por falta de alunos, queixam-se todos da falta de escola. Todos decerto enviariam seus filhos ao estudo, se a administração [da colônia] o ordenasse. E a cura das almas? E a assistência médica? Pode-se clamar em altos brados! Tudo, porém, se arranjaria do melhor modo, não fosse o povo [os colonos] tão desmedidamente indolente” (p.185).

São palavras que, no mínimo, deveriam servir de contraponto a esta imagem de super-homens que querem revestir o colono imigrante. E elas foram ditas por um conterrâneo da Alemanha, entusiasta, como disse, da colonização germânica na então província sul-rio-grandense.

Quero repetir para não ser mal interpretado: não que os alemães e seus descendentes não tenham, de modo geral, se esforçado muito e sido impulsionadores fundamentais do desenvolvimento sócio-econômicos da região (em outros sentidos, porém, questionável ou problemático, caso do enorme ecocídio produzido pelo deflorestamento maciço do vale etc.). Ocorre que não estiveram sozinhos (enquanto grupo social inserido inapelavelmente num contexto muito maior e mais complexo) nesta “empreitada” que fez de Santa Cruz do Sul um pólo regional no Estado. Também não há razão para achar que, em meio a “bravuras”, não houve “bravatas”, covardias e vilanias no seio da própria comunidade étnica. Ou acreditamos, ainda, em superioridades raciais e na possibilidade de humanos perfeitos?




Reduções jesuíticas no Vale do Rio Pardo

Há um bom tempo tenho lido diversos materiais sobre os povos indígenas e sua presença aqui no Vale do Rio Pardo. Vários pequenos artigos que escrevi para jornais locais são fruto dessas leituras e reflexões sobre essa temática, especialmente no contexto regional. Nos últimos dias, por conta de um estudo que estou alinhavando, acabei voltando minha atenção a algo pouquíssimo conhecido pela população em geral e mesmo entre os nossos professores de história. Trata-se das reduções jesuíticas localizadas ao longo do rio que dá nome a nossa região, ou seja, o Rio Pardo.

Sim! Foram três reduções, sendo a mais importante chamada Jesus Maria. Calcula-se que, pelo menos 1600 (mil e seiscentas) pessoas – índios guaranis ou guaranizados na maioria (pelas indicações), sob a coordenação de padres jesuítas espanhóis – viveram nesta redução, que fica em área onde hoje é o município de Candelária.

A fundação da Redução Jesus Maria é de 1634, ou seja, quase 50 anos antes do início dos famosos “Sete Povos das Missões” – e mais de 300 anos antes da introdução dos primeiros colonos alemães na Linha Santa Cruz. (Já os grupos de origem lusa se estabeleceram nas zonas de campo da região em meados do século XVIII.)

Entre as “curiosidades” dessas reduções, pode-se citar a introdução do gado na região (bovinos, suínos e ovinos) e a existência da forja de ferro. Por José Maria passava o que é chamado de “Linha dos Ervais Nativos”, que se estende desde o Paraguai até o Rio Grande do Sul.

O “descobridor” do local da Redução Jesus Maria foi o já falecido professor Hardy Martin, junto com uma equipe do Museu do Colégio Mauá. Isso em 1968. Até ali, tinham-se apenas notícias da existência das reduções vale-rio-pardenses por intermédio de relatos bibliográficos. Esse pessoal, que incluía o ainda ativo arqueólogo Pedro Mentz Ribeiro (fundador do Centro de Ensino e Pesquisa Arqueológicas da Unisc), pesquisou e acabou encontrando diversos resquícios da ocupação do território pela comunidades jesuítico-indígena – utensílios cerâmicos (vasilhames, cachimbos), de louça, ferramentas de pedra (machados, afiadores), de ferro (tenaz, tesoura, pregos), chumbo, objetos de cobre, vidro e até concha de mar (os índios provavelmente viajavam até o litoral por meio de canoas, partindo pelo Rio Pardo, passando pelo Jacuí, lago Guaíba etc., chegando assim ao Atlântico!), além de alterações nos terrenos que confirmam a existência de edificações no local (trincheiras ou muradas de proteção, por exemplo).

As reduções no Vale do Rio Pardo tiveram uma curta existência – três anos –, mas suficiente para demarcar uma presença histórica importante na região. O bandeirante Antônio Raposo Tavares, preador de escravos, venceu a resistência dos núcleos pela superioridade militar, fazendo-as desaparecer pela morte e dispersão da população. Alguns grupos sobreviventes se mantiveram circulando na região, outros, migraram em definitivo.

Parece-me espantoso que a existência dessas reduções não tenham até hoje ganho uma repercussão maior em nossa região. Até onde sei, estudos maiores não tiveram continuidade após a identificação do local pelos pesquisadores do Colégio Mauá – a não ser pelo já citado Mentz Ribeiro (em sua dissertação de mestrado ele aborda o assunto novamente). Quer dizer, temos aqui no Vale do Rio Pardo, na primeira metade do século XVII, três focos de ocupação do território por parte de comunidades indígeno-jesuíticas, que vêm a ser, através dos padres espanhóis, o primeiro estabelecimento de europeus na região (ressalto: antes dos portugueses e muitíssimo antes dos teutos!); que também vem a ser, sobretudo, um fenômeno de convívio entre brancos da Europa e nativos sul-americanos que tanto tem intrigado, por diversos motivos, estudiosos e leigos (caso dos “Sete Povos das Missões”). Entretanto, isso tudo parece soterrado – não só pelo solo e a vegetação, mas por um desinteresse com raízes no preconceito.




Cotas para superar a discriminação já!

A primeira reação de muita gente é esta: as cotas para pessoas negras em universidades e outros setores são racistas e inconstitucionais. Discordo. Num país que mantém os afro-descendentes nos piores patamares em termos de desenvolvimento humano, como demonstram diversos dados (só um a propósito: pretos e pardos constituem oficialmente 45% da população brasileira, mas apenas 3% deles chegam ao ensino superior), a forma de buscar a justiça, sem mais delongas e empulhações, é por meio de “ações afirmativas” – termo criado em 1963, no governo do presidente norte-americano John Kennedy, para denominar atitudes que visavam minorar concretamente as diferenças sócio-econômicas entre grupos étnicos nos Estados Unidos, valorizando a diversidade cultural na prática.

Em relação à suposta inconstitucionalidade das cotas, uso as palavras do Procurador do Estado do Rio de Janeiro, professor João Luiz Ferraz de Oliveira, ao se referir às experiências da Uerj e Uenf, universidades pioneiras na implantação do sistema, destinando 40% das vagas para estudantes declarados negros ou pardos: “Reduzir as desigualdades sociais está na Constituição Federal. Ela diz que o acesso à educação deve ser garantido como um todo, buscando igualdade de condições. Tratar os iguais como iguais e os desiguais como desiguais é o princípio da isonomia. Esse é um debate social porque há a constatação de que negros e pardos ocupam posições sem igualdade de condições”.

É preciso lembrar, ainda, que o sistema de cotas já é usado. Entre outras determinações legais no país, há, desde 1996, a que obriga os partidos políticos inscreverem no mínimo 30% de mulheres em suas chapas proporcionais. E isso tem produzido uma participação política das mulheres – que até 1932 não tinham nem direito ao voto – bem mais intensa e efetiva, ajudando a furar um bloqueio machista que persiste em seus efeitos perversos até hoje em inúmeros setores. Tal mecanismo não significa, em nenhum momento, algum tipo de subestimação da capacidade feminina. Antes pelo contrário: é uma demonstração da sua mobilização pelo reconhecimento de uma cultura social que tenta inferiorizar e “escantear” a mulher, podendo isso ser combatido, inclusive, com a compulsão positivamente discriminatória de uma legislação.

Enfim, não basta afirmar que “todos são iguais perante a lei” para eliminar as desigualdades. Trata-se de uma igualdade meramente formal, no papel; não tem bastado para quitar enormes injustiças históricas que pesam sobre a população negra e outros grupos excluídos. É preciso agir já! Não dá para esperar mais 20 ou 30 anos para superar o preconceito gerador do racismo e seus efeitos trágicos em nossa sociedade. As cotas, como medida temporária (a ser cada vez mais aperfeiçoada) – e em conjunto com uma política pública ampla, que implique, por exemplo, na qualificação do ensino público nos níveis fundamental e médio –, poderão levar a ascensão de milhares de afro-brasileiros que estão à margem, não por falta de inteligência, mas pela discriminação que barra e rebaixa seres humanos não apenas pela pobreza: barra e rebaixa diretamente pela cor da epiderme do sujeito.




O hino e o samba

O debate em torno do Hino Municipal de Santa Cruz do Sul jamais se deu, de nossa parte, como alguma forma para menosprezar o papel fundamental dos imigrantes alemães e seus descendentes na formação da comunidade santa-cruzense. Nem, muito menos, visou atingir a honradez e o talento artístico das pessoas que criaram tal cântico, oficializado em 1963. A ponderação que se fez (e se faz) é sobre a invisibilidade social que o hino e vários simbolismos locais ajudam a promover – independente da vontade dos autores – em relação a outros grupos étnicos (não somente negros, mas também lusos, índios, italianos etc.) que, desde os primórdios da povoação da região de Santa Cruz do Sul, estiveram concretamente presentes neste amplo e complexo processo.

Basta uma leitura mais atenta em livros, relatórios e outros documentos históricos para se perceber que a multiplicidade étnica no município não é apenas “recente”, mas algo constituinte desde, pelo menos, quando Santa Cruz do Sul se chamava Faxinal do João Faria – denominação que se refere ao sesmeiro João Faria da Rosa, cujo avô, proprietário de escravos, foi o primeiro morador do povoado; seu sobrado, localizado nas imediações de onde hoje é a Catedral, serviu de alojamento para as primeiras famílias encaminhadas às diversas linhas destinadas aos colonizadores (não unicamente originários da Alemanha) a partir de meados do século XIX.

A discussão acerca do hino municipal partiu da vontade de afirmarmos essa pluralidade cultural e de procedências geográficas – que, neste ano, também foi parcialmente mencionada no samba-enredo do “mestre Jorjão” –, lutando contra interpretações que possam dar margem a entendimentos e posturas equivocadas, como a de querer justificar a exclusão completa do papel de personalidades e agrupamentos “não-alemães” em Santa Cruz do Sul pela pura superioridade numérica. E é exatamente isso o que faz – para além de todas as boas intenções da poetisa e do maestro em questão – a composição que louva somente a “bravura alemã” e o “loiro imigrante”, sem considerar, por exemplo, os 53 trabalhadores negros oficialmente registrados em 1884 como escravos em Santa Cruz; os diversos intendentes e outras tantas autoridades luso-descendentes; a figura essencial do inglês Guilherme Lewis e sua esposa, Dona Carlota; os índios guaranis e suas terras usurpadas em 1859 na região de Monte Alverne; os pioneiros ítalos no antigo distrito de Trombudo; a dezena de estrangeiros detidos na Guarda Municipal entre 1921 e 1922 (seis castelhanos, dois russos, um inglês e um italiano) etc., etc., etc...

Pessoalmente, reafirmo que não me movem o rancor, a amargura ou algum tipo de desamor a Santa Cruz ou racismo invertido. Sou, até, de pele branca, cabelos lisos e claros; meu pai, de sobrenome Renner, é bisneto de imigrantes chegados diretos da Alemanha; minha mãe é de uma antiga família de origem portuguesa e minha filha passa fácil – até pela sua constituição genética – por uma “alemoazinha”. O que me move, meu caro engenheiro João Luiz Lenz Fontoura, é, humildemente, a utopia de vivermos numa sociedade sem mistificações tolas, que abram margem a arrogâncias, as quais, quando radicalizadas, levem a injustiças e mesmo tragédias humanas terríveis (caso do nazismo) ou que, em menor escala, insuflem preconceitos, mesmo que pueris – como esse que o senhor parece demonstrar ao se referir a pessoas que não estão dentro de suas preferências ideológico-partidárias, taxando-as generalizadamente de “rançosas”.

Para debater assuntos referentes às identidades sócio-culturais, mantemos o Coletivo de Estudos e Debates Étnicos e Culturais de Santa Cruz do Sul (Cedecs), que, inclusive, possui uma “versão virtual” na internet. Quem quiser maiores informações, pode fazer o contato através do e-mail (...).




PROPOSTA DE LEI MUNICIPAL


Santa Cruz do Sul, setembro de 2003.

Prezados Senhores(as):

Há algum tempo estamos discutindo, em especial através do pequeno grupo do CEDECS, o quanto é importante, em muitos sentidos, considerar a diversidade étnica em Santa Cruz do Sul, e também reconhecer a riqueza histórica do município.

Em nossos estudos e debates deparamos já muitas vezes com a figura do sesmeiro JOÃO DE FARIA ROSA. Apesar de seu nome designar o povoado – Faxinal do João de Faria –, que mais tarde veio a se tornar o município de Santa Cruz, trata-se, até onde sabemos, de uma personalidade ainda não investigada com profundidade. Mais que isso: JOÃO DE FARIA ROSA, pelo que conseguimos averiguar, não designa nem uma escola ou praça ou rua etc. em Santa Cruz do Sul.

Seria muito justo e, pensamos, proveitoso “recuperar” a figura de JOÃO DE FARIA ROSA, homenageando-o com a denominação de algum logradouro da cidade. Além de tudo, a deferência pública também atingiria a enorme quantidade de luso-descendentes residente no município, e que, através da figura do sesmeiro de tradicional família lusitana, teriam uma consideração efetiva de seu grupo étnico na história da construção de Santa Cruz do Sul – como, aliás, já se fez com a comunidade palestina, dando-se o título de Cidadão Santa-Cruzense ao Sr. Juma Hamid.


Como justificativa à proposta de um Projeto de Lei, apresentamos o texto a seguir, que poderá ser ainda mais ampliado ou ajustado ou, se for o caso, retificado:

UMA HOMENAGEM AO FUNDADOR DO POVOADO QUE DEU ORIGEM À CIDADE DE SANTA CRUZ DO SUL, O SESMEIRO JOÃO DE FARIA ROSA

Seguindo o exemplo de Vera Cruz (outrora o segundo distrito santa-cruzense, chamando-se, então, Vila Thereza), que declarou oficialmente o engenheiro belga Pierre François Booth Mabilde como o fundador da localidade, Santa Cruz do Sul também poderia prestar uma homenagem ao sesmeiro João de Faria Rosa, o primeiro europeu que se tem notícia a se estabelecer na região que deu origem a cidade que hoje é pólo do Vale do Rio Pardo, emprestando o seu nome à identificação do povoado, ou seja, o “Faxinal de João de Faria”.

Conforme João Bittencourt de Menezes, um dos pioneiros da historiografia santa-cruzense, autor do livro Município de Santa Cruz, escrito em 1911 e publicado em 1914, João de Faria Rosa era de nacionalidade portuguesa, residindo no Faxinal em um sobrado de madeira, coberto com telhas de barro, nas imediações onde hoje se assenta a Catedral. “Para resguardar-se das investidas dos bugres [indígenas da região], então muito abundantes, fizera cercar a sua morada pelos ranchos de seus numerosos escravos [negros e negras]”, completa Menezes. A oficialização da doação da área a João de Faria Rosa (“algumas sesmarias de campos e matas”) pelo governo colonial português ocorreu pouco antes da proclamação da independência do Brasil, ou seja, em data anterior a 1822.

A residência do sesmeiro serviu mais tarde como alojamento aos colonos germânicos precursores, em 1849, que vinham com destino a Picada do Abel – via essa executada por José Rodrigues de Almeida (também morador do Faxinal), a mando de Abel Corrêa da Câmara, donde veio a original denominação da atual Linha Santa Cruz, a “Picada Velha”. O neto de João de Faria, que tinha o mesmo nome do avô, residindo nas terras da família, foi quem conduziu estes imigrantes até os lotes destinados pelo Governo Provincial à colonização.

Sem jamais esquecer a marcante presença e fundamental importância da gente alemã e seus descendentes, o fato de se fazer uma homenagem ao sesmeiro João de Faria Rosa – através, por exemplo, da denominação de uma rua ou de uma praça ou de uma escola importante etc. –, para além de um mero culto a indivíduos supostamente virtuosos, é, sobretudo, um modo de expor a origem etnicamente plural de Santa Cruz do Sul, considerando, assim, a diversidade de personalidades e grupos com procedências geográficas e referências culturais diferenciadas que colaboraram na formação e desenvolvimento do município. Em específico, a homenagem será, também, um reconhecimento do papel dos luso-descendentes, uma fatia populacional vultosa e ainda sem a devida consideração na “Capital do Fumo”. Sem contar com a abertura para uma reconsideração em relação ao povo afro-descendente, que, junto com o sesmeiro, como também registra Menezes, foram estabelecidos e labutaram no povoado desde os seus primórdios.

Enfim, tal iniciativa se somaria num esforço permanente de “inclusão” e respeito entre todas as diferentes identidades étnicas que concretamente compõe o “blend social” santa-cruzense contemporâneo, podendo, além de registrar concretamente, suscitar a saudável curiosidade dos cidadãos e cidadãs – especialmente nas crianças e adolescentes estudantes – sobre as origens da comunidade local, cujos registros históricos demonstram a riqueza humana daqueles que colaboraram na constituição de um município que busca o respeito e a abertura à pluralidade.


Agradecemos à atenção e ficamos à disposição.

Iuri J. Azeredo, p/ Grupo de Trabalho pela Promoção da Comunidade Negra de Santa Cruz do Sul (GT-Afro).

*Documento originalmente elaborado e enviado a membros da Câmara de Vereadores em dezembro de 2003.




1922: até na cadeia Santa Cruz mostra a sua diversidade

Um inglês, um italiano, dois russos e seis castelhanos fazem parte do quadro estatístico de presos na guarda municipal de Santa Cruz do Sul entre 1921 e 1922, totalizando, com os “nacionais”, 122 detidos. Todos estavam sob a responsabilidade do então Tenente Comandante Leonel Carlos do Prado. Tais dados fazem parte de um relatório publicado na gestão do intendente Gaspar Bartholomay, em 1922, onde constam muitas informações interessantes, fotos, pronunciamentos, tabelas etc.

Destaquei do documento histórico os 10 estrangeiros detidos na guarda municipal para induzir um raciocínio sobre a diversidade de gente que circulava e residia na região de Santa Cruz desde a fundação dos seus primeiros povoados. Se lá no começo do século XIX, com uma população que na cidade atingia um pouco mais que 14 mil “almas”, havia esses 10 que foram presos – e considerando que o encarceramento é quase sempre uma situação muito extraordinária –, pode-se imaginar a quantidade dos que estavam “soltos”, ou seja, vivendo e trabalhando na comunidade sem problemas com a polícia!

Também podemos pensar que, entre os 112 presos de nacionalidade brasileira que fazem parte da estatística da guarda municipal, havia estrangeiros já naturalizados, os de origem germânica já nascidos no Brasil, mestiços de todos os “naipes” e, provavelmente, negros. Aliás, conforme várias indicações, afro-descendentes são, na época, comuns e numericamente consideráveis ocupando cargos menos graduados nos serviços de polícia militar. Vi, por exemplo, no Museu do Colégio Mauá, uma foto da década de 30 onde aparecem homens negros na praça central fardados como guardas militares.

Essas informações – e outros tantas a serem ainda recolhidas e aprofundadas – podem reforçar a visão de que a pluralidade étnica em Santa Cruz é – e sempre foi – algo efetivo, concreto. Ocorre que, ao longo de algumas décadas, foi-se constituindo um certo “teutocentrismo” exacerbado que quase suplantou o fato de que uma multiplicidade de grupos étnicos e personalidades de várias procedências geográficas e referências culturais foram formadoras da comunidade santa-cruzense. Os alemães e descendentes – é preciso reconhecer – são fundamentais, mas não estiveram sozinhos no amplo processo histórico que definiu e define o município.




1º de Maio: Nazistas fazem festa em Santa Cruz

Pesquisando na biblioteca da Unisc tempos atrás, deparei-me com uma edição da revista Agora (já extinta) de abril de 1996, onde há uma reportagem com o historiador leigo, um dos fundadores do Museu do Colégio Mauá (a antiga "Escola Alemã") e até hoje responsável pelo Arquivo Histórico do educandário, seu Roberto Steinhaus, hoje já com mais de 80 anos. Ele parece acumular muita informação. Vem a ser, em minha opinião, um dos "pilares" da manutenção de uma história santa-cruzense onde os “alemães” são os super-heróis civilizadores exclusivos, tão bem expresso no hino municipal. É o que eu chamo de teutocentrismo local, ditado por uma germanofilia meio romântica, meio reacionária.

O título da reportagem é “À moda nazista”, com o seguinte complemento: “Em 1938, o Partido Nazista festejou o Dia 1º de Maio em Santa Cruz”. Na legenda da foto que ilustra o texto, onde aparece o dedicado estudioso folheando uma encadernação de jornais antigos, está anotado exatamente assim: “Steihaus foi um simpatizante do Partido Nazista”. Na verdade, pelo que dá para deduzir, ele não foi “apenas” um “simpatizante”, mas, sim, um ativo jovem militante nazi, que até “mereceu” várias medalhas com a famigerada suástica.

Sandro Viana, o repórter, destaca que, ao contrário de outros lugares do mundo onde a comemoração foi uma iniciativa de trabalhadores politicamente de esquerda, advinda de mobilizações lideradas por socialistas e anarquistas no final do século XIX, em Santa Cruz do Sul o "Dia do Trabalhador" (que alguns preferem a denominação mais “neutra”, ou seja, "Dia do Trabalho"), o 1º de Maio, foi festejado pela primeira vez por iniciativa dos ultra-direitistas santa-cruzenses ligados ao NSDAP, o "todo poderoso" Nacional Socialista Deutsch Arbeit Parteid.

“O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães fazia uma grande festa nos salões da Sociedade Ginástica com música e outras atividades culturais. (...) Sei de muitas pessoas em Santa Cruz que ainda possuem as suas lembranças daquela época, têm medalhas e até mesmo roupas que foram usadas nas festas dos nazistas”, diz textualmente o seu Steinhaus. A suástica no braço, as bandeiras pretas, vermelhas e brancas, fotos do “Führer” e outros componentes das características alegorias nazis deviam fazer parte da decoração do salão da Ginástica, agremiação cuja denominação também revela o caráter disciplinador do corpo – próprio dos que se queriam “modelos” de ser humano...

Tenho lido várias reportagens e entrevistas com o senhor Roberto. Essa foi a única em que ele fala abertamente – e, parece, com uma certa nostalgia... – do envolvimento de muitos santa-cruzenses com o culto ariano nos conturbados anos 30 e 40 do século passado. Hoje, revelado os barbarismos, todos tratam de escapulir da pecha de "ex-hitleristas"*.


*Um exemplo recente disso ocorreu, segundo me contaram, com professores envolvidos numa pesquisa sobre as atividades nazistas e integralistas em Santa Cruz e região; eles acabaram divulgando alguns dados pela imprensa, incluindo fotos com gente na época posando garbosamente com uniformes e outras distintivos fascistas; os familiares desse pessoal indignaram-se e houve ameaças aos pesquisadores de processos judiciais e, mesmo, “surras”. Há aspectos do passado que não cairiam bem numa Oktoberfest...

*Li um pequeno livro, Propaganda e persuasão na Alemanha nazista, de Paula Diehl (ed. Annablume, 1996). Muito bom, sintético, boas sacadas. No final há um “Calendário nazista: principais feriados e festas”. A “surpresa” foi por conta do 1º de maio, data abordada na reportagem referida acima. Ao invés de “Dia do trabalhador” (ou “do trabalho”) a data é indicada nesse “calendário nazi” como “Dia nacional do povo alemão”. Daí a questão: o 1º de maio em SCS era de fato uma comemoração em torno do trabalhador e/ou trabalho ou se referia mais propriamente ao “povo alemão”, na linha da auto-glorificação tão exacerbada naquela época? Enfim, um questionamento de quem gosta de detalhes históricos.

*Há muitas partes interessantes em Propaganda e persuasão na Alemanha nazista. Abaixo, segue um trecho que fala sobre as SS (Schutzstaffel, Tropas de Proteção), a elite retirada da AS (Sturmabteilung, Divisão de Assalto do NSDAP) para, no princípio, fazer a guarda pessoal de Hitler. Era exigido aos membros um rígido “perfil ariano”: no mínimo 1,80m, olhos azuis, cabelos loiros, robustos, rostos com uma simetria “típica” etc. Havia uma “Unidade Caveira”, que cuidava dos campos de concentração e extermínio. Suas roupas eram completamente negras. Os membros da tal UC levavam uma caveira prateadas nos seus quepes. O negócio era apavorar! “Seu ‘manto de luto’ evocava as trevas, a morte e as forças do mal associadas à cor preta. Os detalhes em prata, quase como condecorações, mostravam a força de sua hierarquia. O tecido preto espesso marcava mais acentuadamente o peso do seu poder, enquanto a suástica sobre a faixa vermelha na manga preta do uniforme acentuava a combinação preto/vermelho. O vermelho da faixa se misturava com o preto do casaco numa combinação de cores facilmente associada ao demônio e às forças maligna [a autora sita outros autores que analisarm isso em detalhes]. A imagem do soldado SS se completava pelas botas e capacetes pretos e lustrosos, transmitindo autoridade e virilidade num quadro cheio de vitalidade e imponência. Não é de se admirar que essa imagem impressionasse a população (...). A sociedade alemã sonhava com esses ‘deuses’ que, ao mesmo tempo, causavam fascínio e medo.”




A tradição lusitana na história das ruas de Santa Cruz

Quando li aquele famigerado livro do Irton Marx, República do pampa, ri muito – mesmo que às vezes com certa nuance de amargor e tristesa – das “ingenuidades” do “nosso” futuro vereador ou, quem sabe, prefeito de Santa Cruz do Sul. Numa das ilustrações, que “provavam” as diferenças entre a “desenvolvida” Santa Cruz e a “atrasada” Rio Pardo, estava a das ruas retilíneas da “cidade germânica típica”, contra o “caos lusitano” das vias e prédios rio-pardenses. E assim se ia (e ainda se vai) o germanófilo em sua teoria tacanhamente preconceituosa e, sobretudo, equivocada em termos históricos.

Escrevi um pouco sobre isso um tempão atrás e recebi muitos “elogios” de ferrenhos defensores das teses “irton-marxistas”. Lembrei disso num fim de semana ao ler um artigo da revista Ágora (não confundir com a Agora) de janeiro de 2001, do Departamento de História e Geografia da Unisc.

O artigo é da professora de arquitetura Maria da Graça Sebbem, com o título “A corrente imigratória alemã e a formação urbana”. Após analisar as características das aldeias alemãs donde vieram os imigrantes e os assentamentos aqui no Estado, destacando Santa Cruz, Venâncio Aires, São Leopoldo, Novo Hamburgo e outros, ela conclui que “as colônias [a ocupação territorial no meio rural] alemãs do RS foram planejadas por técnicos de origem lusa, baseadas na concepção da cultura lusitana”. No último parágrafo arremata: “a forma das cidades [os assentamentos urbanos] de imigração alemã no RS herdaram poucas influências (ou nenhuma) das cidades alemãs de onde vieram os imigrantes.”

Bem, mesmo com argumentos embasados cientificamente, em pesquisas respeitáveis, isso não costuma “surtir” muitos efeitos em “fundamentalistas”... Mas dentro da minha “política pedagógica” de “água mole em pedra dura etc.”, querendo fazer valer uma visão da formação etnicamente plural de Santa Cruz e região, vou pingando meus textinhos e comentários por aí. Quem sabe, um dia, junto com o monumento ao imigrante, tenhamos as figuras de negros/as, índios/as, mestiços/as de diversos “naipes”, além de holandeses, ingleses, russos, baianos, paulistas e tanta outra gente de tantas procedências diferentes que por aqui estiveram – e cujos descendentes, mesmo que miscigenados, ainda estão.


*Sobre os imigrantes teutos no RS, há uma exposição no Memorial do Rio Grande (acho que é isso), em Porto Alegre (agosto de 2003), que dizem ser bem interessante. O interessante fica por conta, em especial, da apresentação da multiplicidade dos “alemães” – na verdade povos com muitas diferenças e que se homogeneizaram durante a “pasteurização” visando a formação da “Nação Alemã”...

*Falei da revista Agora lá da Unisc. Pois tem muita coisa boa nelas. Mas as capas acabam explicitando a germanofilia (uma espécie de adoração aos alemães), mesmo que “inconsciente”, de muitos mestres e doutores. Quase todas (ou todas) aparecem pessoas, geralmente colonos, com origem germânica: brancas e gordas senhoras nas lides domésticas, velhos calejados descansando em frente as suas casas em estilo enxaimel, entre outras referências a cultura e história coloniais dos teutos e seus descendentes aqui na região. De novo estamos diante de uma iconografia que reforça a visão quase totalitária – a “gênese teutocêntrica” de Santa Cruz e outros municípios “progressistas” do Vale do Rio Pardo...




Colonos e colonas de todas as etnias, parabéns a vocês!

Já comentei em outras oportunidades sobre o 25 de julho, "Dia do Colono", que, na verdade, em minha opinião, pode ser dito, com uma certa dose de picardia e constatação prática, o "Dia do Alemão", a data máxima, com direito a feriado, em municípios como Santa Cruz do Sul, suplantando, inclusive, o 28 de setembro, data da emancipação política santa-cruzense. Em Venâncio Aires, por exemplo, a “coisa” não chegou a este ponto, mantendo-se o 11 de maio como a comemoração “de fechar o comércio”.

Mas nem vou "implicar" muito com isso. Vai só uma questão: No tal "dia do colono", quem se lembra, por exemplo, que os verdadeiros primeiros agricultores da região, os primeiros colonizadores (evidente que numa outra concepção de ocupação territorial), plantadores e beneficiadores do fumo (e também do milho, mandioca, batata-doce, feijão, vários tipos de abóboras, amendoim e outros produtos por eles desenvolvidos, e que até hoje sustentam os trabalhadores rurais e empresas beneficiadoras), foram, conforme atestam os estudos em vários sítios arqueológicos, os índios, com destaque aos Guarani (tradição tupiguarani, os autóctones típicos da floresta subtropical, conforme nos apresenta o Prof. Dr. Pedro Mentz Ribeiro), que ocuparam o território do Vale do Rio Pardo mais ou menos pela época da "descoberta" do Brasil?

Pois é. Ninguém faz sequer uma leve referência a isso. Todas as homenagens são dirigidas ao imigrante "alemão" (ou, no "máximo", "italiano") e seus descendentes, os únicos que parecem merecer do título de "agricultores" – quando, também é sabido, vários imigrantes tinham pouco ou nenhuma experiência com o cultivo da terra, mesmo assim recebendo subsídios governamentais nas colônias oficiais, caso de Santa Cruz e Monte Alverne. Frise-se que, na época, o dinheiro do Estado vinha basicamente do trabalho escravo, que fazia literalmente tudo, enquanto a elite lusa "pura", “branca”, mandava e desmandava encastelada na totalitária administração pública. Ou seja, em síntese: o esforço brutal dos negros escravizados financiou a ascensão social do emigrante europeu no século XIX!

E já que mencionei afros, no "dia do colono" também se esquece do agricultor negro, que, de novo, em Santa Cruz, já trabalhava pelo menos desde o século XVIII nas propriedades rurais dos sesmeiros, como a de João de Faria Rosa, local onde hoje se assenta a cidade, bairros e partes do interior santa-cruzense. E sem contar os vários quilombos em meio às matas, nos grotões do ainda ermo, na época, Vale do Rio Pardo, onde os "fugidos" subsistiam pelo trabalho agrícola. Pergunto: Quem viu pelo menos uma pequena foto de canto com um afro-descendente (podia ser, mesmo, um “agregado", este pseudo-proletário, a um passo da servidão...) capinando ou arando o solo na profusão de anúncios em homenagem ao agricultor nas edições especiais dos jornais da nossa região?

Também poderíamos nos alongar no assunto, perguntando: Onde estão as mulheres neste “tributos” na imprensa e outros meios? Nem mesmo as “fridas” costumam aparecer – quando se sabe que o trabalho delas foi imprescindível e até, quase sempre, mais estafante e fundamental do que o dos homens.

Bem, essas coisas não são ditas para menosprezar o colono imigrante que veio da Europa. Essas coisas são ditas no intuito de colaborar numa reflexão que amplifique a consideração do importante trabalho que os trabalhadores e trabalhadoras rurais desempenharam e desempenham na região, incorporando às homenagens outros grupos étnicos historicamente discriminados. Construiremos assim, acredito eu, uma sociedade de fato mais igualitária.


*O dia 20 de novembro, marcado pela morte de Zumbi dos Palmares, não é o “dia do negro”, e sim da “consciência negra”, funcionando como uma compensação e reforço para os séculos de exploração econômica e discriminação social hediondas sofridas pela população afro-descendente brasileira.

*O “Dia do Trabalhador Rural” no RS é oficialmente comemorado em 14 de julho – data que se refere à morte, em 1962, do economista e político gaúcho Fernando Ferrari.

*Na edição especial do jornal Gazeta do Sul em homenagem ao Dia do Colono e Motorista, saída em 25 de julho de 2003, na capa, onde há uma foto de dois agricultores no trabalho de aragem da terra, ao se referir aos 179 anos da imigração alemã no RS e 154 em Santa Cruz do Sul, é dito assim: “Os colonizadores, que começaram a desembarcar em São Leopoldo em julho de 1824, rumaram para a região central 25 anos depois. Com seu trabalho, construíram em Santa Cruz uma das economias mais próspera do Estado.” Mesmo “dando um desconto” pelo tom apologético característico da circunstância festiva, ao ressaltar – e talvez, em certos momentos, extrapolar ou, até, exagerar – o papel dos “alemães” no desenvolvimento local e estadual, resvala-se para uma espécie de culto monoétnico. Isso porque não há referência alguma a um contexto histórico maior e mais complexo onde se insere a colonização da região e do Estado, “esquecendo” ou menosprezando a participação de personalidades e grupos étnicos não-germânicos no projeto, na viabilização, na execução, enfim, na real constituição e dinâmica histórica da colonização no Vale do Rio Pardo e no Rio Grande do Sul. Além de não enxergar inúmeros problemas que perduram: o tremendo ecocídio provocado pela colonização, a submissão econômica dos colonos a um modelo agrícola superexplorador dominado por pouquíssimas empresas transnacionais etc.




Nazismo na Alemanha e em Santa Cruz

Eis mais abaixo três parágrafos do fantástico e sintético livro Preto e branco: a importância da cor, do jornalista Marco Frenete. O prefácio é do Lobão e a obra saiu em 2001 por uma editora bem nova: a Publisher Brasil. Tinha lido uma reportagem desse Frenete sobre crianças negras na “Caros Amigos”, e fiquei impressionado com a agudeza dele.

Além da relação muito bem sacada entre a Alemanha pós-nazista e o racismo no Brasil, o trecho abaixo me levou a pensar uma outra coisa: O mesmo tabu que houve/há na Alemanha, há em Santa Cruz e outras cidades onde o ideologia nazi teve adeptos empolgados, influentes, de “boas famílias” e em bom número; é um assunto cercado de restrições, desvios, tangências e muitos panos quentes.

Uma outra coisa legal do livro dele é a narrativa da sua trajetória pessoal, narrando como foi “salvo por um triz” de tornar-se mais um entre milhões de imbecilizados brasileiros racistas, notando, hoje, entre vários de seus amigos de infância e adolescência, as posturas discriminatórias – quando não explícitas – dissimuladas ou/e “abrandadas” através, por exemplo, do “inocente bom humor” das piadinhas infames, carregadas de menosprezo, agressão e aquele tão mesquinho e medíocre “alívio de ser branco”.

Seguem os parágrafos:

“Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, jornalistas estrangeiros, sobretudo americanos, viajaram para a Alemanha vencida para fazer reportagens sobre o que tinha sobrado do inimigo. Naturalmente, o interesse maior desses correspondentes estava em saber detalhes sobre a atuação e estruturação do nazismo na Alemanha. Para tanto, foram colher depoimentos entre a população alemã de então, dado que o grau de eficiência social e política que tinha alcançado o regime totalitário de Hitler dependera, em parte, de participação popular, visto ser impossível entender esse fenômeno apenas pela análise da prática do terror. Mas, qual não foi a surpresa dos jornalistas ao perceber que não era tão fácil assim encontrar um nazista entre a gente comum alemã. “Não, não! Nunca fui nazista. Aliás, quase ninguém nessa cidade era nazista. Mas, se for até a próxima cidade, o senhor vai ter muito a escrever, porque lá era um verdadeiro foco de nazistas”. E, se o repórter viajasse até a cidade indicada, iria encontrar uma população composta por democratas para responder às perguntas.

Essa situação nada enaltecedora em que um povo negava sua responsabilidade num passado mal terminado, que ainda ardia na memória de todos, foi devidamente registrada pela imprensa dos Aliados. Entre os jornalistas que estavam visitando a Alemanha, ficava uma impressão meio surreal. Era como se o nazismo tivesse sido obra apenas do seleto time de oficiais e soldados liderados por Hitler, não tendo havido o mínimo apoio ao povo alemão.

Esse processo psicossocial que caracterizou a Alemanha pós-guerra – e que se estende, de certo modo, até os dias atuais na maneira como os alemães ainda tratam seu passado ligado ao Terceiro Reich – repete-se na maneira como o Brasil lida com o racismo e seu passado escravista. Todo povo elege os temas de sua história que são especialmente comprometedores e complexos e, após essa eleição, os transforma em tabus, desenvolvendo mecanismos de defesa contra indivíduos e grupos minoritários que queiram arrancar – para efeitos de pesquisa e compreensão do problema, e busca de possíveis soluções – os encardidos curativos que tampam as feridas do passado.”


*Uma observação a partir da leitura do livro do Frenete: Há muitas formas de manifestar e reforçar o racismo. No Brasil a ideologia que discrimina e avilta a população negra do país não se estabelece de uma forma tão explícita, tão escancarada; costuma dissimular-se e “abrandar-se”. As piadas são um exemplo do “racismo cordial”. Tratar com “bom humor” uma determinada questão é, supostamente, um jeito de “não levar as coisas tão a sério”. Assim, o racismo fundante das historietas que ridicularizam negros e negras, ao mesmo tempo que expõem e aprofundam o rebaixamento e diferença negativa dos negros em relação aos “superiores” brancos”, dilui a agressividade e o ódio numa “inocente brincadeira”.




Balanço Social UNISC 2002: indicações para superar disparidades

A Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) publicou recentemente [2003] num folder o seu "balanço social" referente ao ano de 2002. No material define-se que o objetivo do mesmo “é tornar público o compromisso social da Instituição com suas comunidades interna e externa e com o desenvolvimento da região onde está inserida”. Há vários quadros com vários dados analisáveis: “Indicadores sociais internos”, “Projetos, Ações e Contribuições para a Sociedade” etc. O quadro que achei mais interessante foi “Indicadores do Corpo Funcional”.

A Unisc possui 1.196 (mil cento e noventa e seis) empregados. Desses, 20 (vinte) são negros, ou seja, 1,67% do total. Num universo santa-cruzense e regional com cerca de 12% de negros e pardos apontados pelas estatísticas, menos de 2% dos trabalhadores na universidade têm afro-descendência explicitada. Percebe-se que há um grande desequilíbrio, uma desproporção abissal (quase dez vezes) entre a população negra “fora” e “dentro” da Unisc em termos de trabalhadores/as.

Também a média salarial revela a disparidade: em média os empregados negros recebem menos 26,25% em relação aos ganhos dos brancos (R$ 1.531,20 pago aos negros contra R$ 2.244,45 pago aos brancos). Portanto, além do baixo número de empregados negros na instituição, incoerente com a população do entorno da Unisc, há o rebaixamento do nível salarial.

Evidencia-se a discriminação – algo que vem a comprovar os dados de quase todo o país, onde a população negra amarga sempre os piores índices e patamares sócio-econômicos. Óbvio que há o “fundo social”, ligado à baixa escolaridade, precariedade na assistência familiar e muitas coisas mais. E isso só reforça o fato de que, sim, há um forte racismo no Brasil, que atinge as pessoas afro-descendentes ao longo da história, impedindo a sua mobilidade social ascendente.

Tais distinções dentro da Unisc são “culpa” da instituição? Não. E sim. A universidade “apenas” reflete – e reproduz! – um sistema social brasileiro discriminador, racista. Ora, ao perceber isso, a instituição pode desencadear ações específicas, que façam essas disparidades minimizarem-se interna e externamente. O fato de publicar os dados já é um ótimo começo!


*Também as mulheres recebem, em média, menos do que os homens. No quadro referido do “balanço social” da universidade, a diferença chega a quase 38% a menos. A coisa fica mais escancarada quando os dados demonstram que mais da metade dos cargos de chefia na Unisc já estão com mulheres. Mesmo assim...

*Outra coisa que poderíamos analisar – mas que não tem nesse “balanço social”– é o número de negros como professores e alunos na Unisc. Em ambos os casos, se houvesse uma computação, os números nos dariam uma certeza – já apontada por uma simples e rápida observação empírica: a discriminação, que começa lá na base, minando a auto-estima do guri e da guria de pele escura, excluindo-os da escola, forçando-os ao trabalho precoce ou/e marginalizando-os, demonstra-se no não acesso ao ensino superior e, muito menos, à docência universitária.




Coisas que não se falam numa Oktoberfest...

Achei esses dias empoeirados – na biblioteca de uma das escolas que trabalho – alguns exemplares da revista “Agora” da Unisc. Em um dos números, há um texto muito interessante escrito por Ana Lucia Herberts, que, na época (março de 1996), era mestranda em História Ibero-Americana pela Unisinos. Selecionei alguns trechos que falam e reforçam isso – que se tem receio em dizer publicamente: A COLONIZAÇÃO ALEMÃ ESTÁ INSERIDA NUM PLANO GOVERNAMENTAL DE DESENVOLVIMENTO POLÍTICO, ECONÔMICO E CULTURAL DA REGIÃO, DO ESTADO E DO BRASIL CALCADO EM PRINCÍPIOS RACISTAS, que alija – ou coloca numa situação de subalternidade – negros e índios por significarem/manterem o “atraso”, a “incivilidade”. É o “branqueamento da nação” como sinônimo de “progresso”.

Seguem os trechos:

“Os indígenas viviam em grupos nômades e sua subsistência baseava-se na caça e na coleta daquilo que a natureza dispunha [além, em vários casos, de uma agricultura própria]. O meio ambiente compunha-se fator de suma importância para a sua sobrevivência. No entanto, com o início da colonização [alemã, em 1824] do território sul-rio-grandense [a partir de São Leopoldo], a sobrevivência destes grupos [autóctones] foi ameaçada.

Em meados do século XIX, o governo imperial decidiu avançar a colonização direcionando-a para áreas florestais, com o objetivo de retroceder ou eliminar os grupos indígenas que ali se refugiavam. Deveriam ceder lugar aos novos ocupantes das terras. Assim, estabeleceram-se os primeiros colonos alemães no sul do Brasil, onde os caminhos entravam e saíam da selva contribuindo no processo de afastamento dos nativos.

(...)GREGORY (1991, p. 148) observa que os projetos de colonização visavam regiões florestais [caso da encostas e serras do Vale do Rio Pardo] habitadas por indígenas que deviam ceder o espaço para novas fronteiras pioneiras do espaço capitalista.

“A colonização prossegue apoiada numa legislação que dispunha sobre as terras devolutas como exclusivamente reservada aos alemães” (BECKER, 1991 b, p. 336). A Assembléia Imperial, no Rio de Janeiro, aprovou em 1848 a Lei de Terras, segundo a qual todos deveriam demarcar e registrar suas áreas, legalizando assim a sua posse Terras [observe-se que a introdução dos imigrantes germânicos e outros ocorre a partir de 1849 na região de Santa Cruz do Sul, ou seja, um ano após tal “lei usurpadora”]. Isto veio colaborar como iniciativa do governo provincial em expulsar os índios de suas terras. Primeiro tornavam a terra “devoluta”. E depois legalizavam a posse da mesma com instalação dos colonos. E assim os verdadeiros donos das terras, os indígenas, foram usurpados de seu bem mais precioso, a terra, da qual dependia a sua sobrevivência.




O calamitoso “Estado Gaúcho”

Vocês já devem ter visto o relançado jornal do Irton Marx, o cara que é a culminância mais emblemática de um tipo preocupante de germanidade que Santa Cruz e região já produziram.

No primeiro número do “O Estado Gaúcho”, no mesmo formato da “Folha de São Paulo”, a “matéria” de capa sai “denunciando” a “concorrência desleal” que os “nordestinos” que vendem redes e mantas fazem com os comerciantes de Santa Cruz. É um exemplo de como se pode argumentar em bases racistas através de economicismos e sociologismos abaixo do rasteiro. Ele termina assim o texto: “Chega de chantagem emocional (desse “novos-judeus”, os nordestinos...) quando percebemos que existem grupos que pretendem se impor, conquistando espaço à força (através de seus rendados?!...). Desta maneira a semente do ódio avalizada por leis protecionistas vai gerar graves conseqüências no futuro (a “necessidade” do IV Reich, quem sabe!?...).

Um detalhe da “reportagem” – na verdade um artigo opinativo do Irton – é a grande foto colorida que está na capa. Os tais “pérfidos” nordestinos estão tomando sorvete ali no centro, na praça. Quer dizer, ganham a graninha deles, mas também geram um movimento no comércio local...

Nesse mesmo número, há outra “denúncia”: os índios que mendigam na cidade maravilhosa, “enfeiando-a”. O “tom” dado à coisa pode ser sentido no trecho que diz assim: “a reportagem do Estado Gaúcho flagrou vários integrantes pedindo esmolas nas ruas centrais da cidade”. Cruzez!!!

Já no segundo número, há, entre outros, um artigo que saiu ao lado de uma reportagem sobre o bairro Beckenkamp – um dos mais afastados do centro e onde se concentra a massa pobre santa-cruzense, não por acaso, em grande parte, negros e mestiços de pele escura. O título é uma jogada bem armada: “Escravidão: realidade absoluta que sempre envergonhará a humanidade”. Viram!? O jornal do Irton defende os pretos! Em sua “santa ira” contra a escravagismo, o autor – que não assina – diz que, além de explorarem a mão-de-obra, abusaram sexualmente dos africanos. Tudo bem. Mas o arremate do parágrafo diz que tal licenciosidade sexual violenta é a “razão pela qual, o surgimento da mestiçagem foi e continua sendo alarmante.” ALARMANTE!!! Por que o alarme? Qual é o problema da mestiçagem? Dá pra “adivinhar”...

Bem, o texto segue desenvolvendo uma tese de que os alemães foram protetores dos negros, mas que, a partir das intrigas dos “brasileiros” teutofóbicos – com essa de fazer acreditar que foi a Alemanha que afundou navios do Brasil na 2ª Guerra –, “o povo negro passou a perseguir os imigrantes alemães”. O delírio faz o autor chegar a esta conclusão: “Não fosse a perseguição brasileira contra os descendentes alemães, boa parte dos negros gaúchos ainda falaria fluentemente o idioma germânico.” Só falta dizer que a língua alemã é muito superior ao português ou ao bantu! Ou que os alemães nunca foram proprietários de escravos nem tiveram possessões na África. É notável também como o autor insiste na oposição “brasileiros” e “descendentes alemães” no RS.





126 anos de um município multicultural

Parabéns ao Riovale Jornal, e demais promotores e apoiadores, pela iniciativa de marcar os 126 anos de emancipação política de Santa Cruz do Sul com esta segunda edição do concurso – de redação e desenhos – envolvendo crianças e adolescentes do município. É uma excelente oportunidade de refletir sobre a história local, tão carente de estudos e sistematizações que revejam, em minha opinião, uma versão bastante parcial e, assim, cheia de possibilidades de más interpretações, em especial por alunos ainda em formação escolar básica.

Devemos reconhecer que o 28 de setembro não é a “data máxima” santa-cruzense. Não é um feriado municipal e pouca gente sabe – até mesmo professores de História – da relevância do ocorrido em 1878. O “25 de julho”, Dia do Colono, festejado em meio a um recesso oficial, acaba tendo uma consideração muito maior. Embora a inegável importância e justeza da lembrança, tal data, que se refere à introdução de imigrantes germânicos em São Leopoldo (nem mesmo é o dia da chegada dos primeiros teutos ao então Faxinal do João de Faria – povoado que deu origem à cidade de Santa Cruz – em 19 de dezembro de 1849), é, primeiro, uma homenagem a um grupo étnico determinado, antes do que uma comemoração histórica acerca de Santa Cruz em sentido amplo, englobando não somente o período de colonização, mas, antes também, o do povoamento, que se dá em data anterior a 1822 (portanto, cerca de três décadas antes do início dos assentamentos agrícolas com imigrantes germânicos na região de Santa Cruz), e cuja figura central é a do sesmeiro já mencionado na denominação da localidade, ou seja, João de Faria Rosa.

Conforme João Bittencourt de Menezes, um dos pioneiros da historiografia santa-cruzense, autor do livro Município de Santa Cruz, escrito em 1911 e publicado em 1914, este Rosa era de nacionalidade portuguesa, residindo no Faxinal em um sobrado de madeira, coberto com telhas de barro, nas imediações onde hoje está a Catedral da Igreja Católica. “Para resguardar-se das investidas dos bugres [indígenas], então muito abundantes, fizera cercar a sua morada pelos ranchos de seus numerosos escravos [negros]”, completa Menezes. A oficialização da doação da área a João de Faria Rosa (“algumas sesmarias de campos e matas”) pelo governo colonial português ocorreu pouco antes da proclamação da independência do Brasil.

Enfim, valorizar o 28 de setembro é mais uma possibilidade de trazer à nossa memória as abundantes contribuições de personalidades e grupos vinculados a diversas etnias, a diversas procedências geográficas e referências culturais na complexa construção da sociedade santa-cruzense. Um outro exemplo: o primeiro presidente da então instalada Câmara de Vereadores – órgão este que, na época, administrava o município, caracterizando o início da emancipação política da comunidade –, Joaquim José de Brito. Um nome que revela em sua lusitanidade tão evidente a importância de considerarmos “pra valer” a pluralidade de origens étnicas na formação e identidade do povo de Santa Cruz do Sul desde os seus primórdios.




“Prosit!” em egípcio antigo

O hábito e a cultura dos bebedores de cerveja e do chope – que alguns dicionários definem como “cerveja fresca em barril” – é “classicamente” relacionado aos alemães (muitas vezes de forma estereotipada, é claro). Mas a origem remota da bebida, o seu “aperfeiçoamento” e mesmo a sua popularização têm tudo a ver com a África. Ou seja, os mestres primordiais do apreciado líquido derivado da fermentação do açúcar de cereais são, de fato, africanos, mais exatamente do norte do continente: os egípcios.

Famosos pelos impressionantes saberes e domínios técnicos em praticamente todas as áreas do conhecimento humano já há milênios, o povo moreno do Egito foi o responsável pela fabricação cada vez mais refinada da cobiçada “loira”, hoje servida (nem sempre, infelizmente...) gelada. Até mesmo os grandes bares, ao estilo das choperias de agora, têm na terra dos faraós os seus primeiros registros – em torno de 1.500 a.C.

Digo isso para ilustrar como, ao longo da nossa história, existiu e continua existindo uma interação sociocultural intensa e muitas vezes insuspeitada ou encoberta. Podemos dizer, assim, que os purismos étnicos são muito mais uma ilusão – uma tentativa de “congelamento” artificial de algo que é essencialmente dinâmico, híbrido, mutante –; uma perspectiva sectária, que acarreta “separações”, não raro geradoras de sentimentos grupais discriminatórios, racistas, xenofóbicos.

Não é interessante, por exemplo, a gente pensar no quanto uma Oktoberfest – esta festividade associada a uma “Alemanha ancestral” e às “origens” de comunidades teuto-descendentes espalhados pelo mundo (inclusive Santa Cruz do Sul!) –, tendo no chope um dos seus símbolos principais, enfim, o quanto essa comemoração (ou “bebemoração”?!) “deve” aos africanos – por terem sido eles os mais remotos cervejeiros e bebedores habituais do alcoólico “suco de cevada”?

Pois vejam só: até mesmo o Fritz e a Frida têm, no mínimo, um “pezinho” (ou será uma “mãozinha” – com um canecão de chope na mão?!) na “Mama África” de todos nós...




Vale do Rio Pardo e os Sete Povos das Missões: íntimas ligações

Dias atrás “topei” com algo que achei interessante dentro da minha busca por informações sobre a “proximidade” histórica e cultural do Vale do Rio Pardo com as Missões Jesuítico-Guaranis. Indicadores disso – e que já mencionei em outras ocasiões – são, por exemplo, a existência, por volta de 1630, de três reduções jesuíticas ao longo do rio que dá nome à nossa região (Rio Pardo), além da existência da Aldeia de São Nicolau, na cidade de Rio Pardo, cujos índios aldeados provinham da região missioneira (Obs.: eles extraiam erva-mate em terras que ficavam em pleno coração do que veio a ser, mais tarde, Santa Cruz do Sul, Monte Alverne; a área desses índios foram lhes retirada em 1859, ou seja, já passados 10 anos da introdução de colonos germânicos na região, numa “operação” ainda não esclarecida). Tais fatos são quase completamente ignorado por aqui, mesmo entre professores de história.

Outro fato que não se deve esquecer é o mencionado pelo historiador Dante de Laytano: até meados do século XIX, o guarani era um idioma tão comum quanto o português na cidade de Rio Pardo, núcleo urbano catalisador de vasta extensão geográfica, donde "A Capital do Fumo" (Santa Cruz) e "A Capital Nacional do Chimarrão" (Venâncio Aires), por exemplo, derivaram-se (tabaco e erva-mate são plantas desenvolvidas pelos indígenas!).

Mas voltando ao que “achei” dias atrás... É o seguinte: No livro Primeiros Cronistas do Rio Grande do Sul – 1605-1801, do historiador Guilhermino Cesar, cuja 3ª edição saiu em 1988 (a primeira edição é de 1969) pela Editora da Universidade (UFRGS), um dos textos se refere a um acontecimento festivo no município de Rio Pardo em 1794, cuja “notícia” foi publicado na Gazeta de Lisboa com o título "Festa grossa em Rio Pardo". A celebração, que durou cinco dias (!), foi patrocinada pelo tenente-coronel Patrício José Corrêa Câmara, por ocasião do nascimento da sua filha, que recebeu a poética alcunha de Sereníssima Princesa da Beira. O militar foi figura destacada no processo de incorporação dos Sete Povos das Missões ao Brasil em 1801.

Guilhermino Cesar anota assim em seu comentário inicial, antes de reproduzir a crônica (os grifos e as palavras entre colchetes são meus): “O núcleo urbano [de Rio Pardo], habitado de início por soldados, índios e aventureiros de todo matiz, cresceu ordenadamente desde a instalação de famílias açorianas no fértil vale do Jacuí. (...) Rio Pardo, de núcleo militar que era, se transforma então [após a “expulsão” dos jesuítas dos “pueblos das Missões do Uruguai”] no denominador comum da vida missioneira, atraindo assim para si a indiada vaga, os peões de estância, os contrabandistas de gado. E o vale do Jacuí [onde se destaca Rio Pardo e sua vasta região], poderoso fixador de gentes, aproximou ainda mais a cultura luso-brasileira e a cultura hispano-guarani (...).”

Quer dizer: antes – com as reduções jesuíticas que mencionei em 1634 – e depois, já em 1859, (e também “durante” o desenvolvimento da civilização missioneira!), no ocaso dos Sete Povos das Missões, há “ligações íntimas” com Vale do Rio Pardo...





Bênção profunda

De última hora, fechou uma “viagem de estudos” de funcionários da Unisc que estão fazendo um curso dentro da própria universidade para complementarem o seu ensino básico através dos exames supletivos. Como estou trabalhando como professor-substituto na Escola Educar-se, mantida pela Unisc, pude ir junto com a turma numa típica excursão escolar (embora quase só por pessoas adultas, acima dos 30). O destino? São Miguel das Missões!!!

Passamos antes em Santo Ângelo, na Uri, mais especificamente no centro de estudos missioneiros. Nosso guia foi a professora Nadir, que diz conhecer o pessoal do Caminhos das Missões. Ao visitarmos a igreja – a Catedral Agelopolitana –, os jacarés da praça, a prefeitura em cima dos ossos indígenas e o museu na casa com as pedras do antigo templo jesuítico-guarani, além do memorial Prestes e o monumento ao Sepé, parando pra almoçar no Clube 28 de Maio, acabei em frente ao que deve ser a sede ou agência da associação do Caminhos das Missões – onde há, também, pelo jeito, uma loja de objetos e souvenires ligados às Missões e ao gauchismo. Mas estava fechada àquela hora. Vi “tudo” pelas vitrines.

Foi muito, muito interessante, embora a ansiedade, pressa e cansaço derivado de uma viagem que, no total, quase não deu 24 horas e mais de 800 quilômetros de estrada. Saímos às cinco da manhã e chegamos aqui em Santa Cruz de volta umas três da madruga. Um ritmo violento! Depois de Santo Ângelo, fomos a São Miguel e passamos a tarde por lá, indo embora após o emocionante show de som e luz.

Mais emocionante que aquele “teatro” de cores, espectros e a narrativa embargada da Fernanda Montenegro, é ficar olhando aquelas estruturas e os outros resquício e imaginar, com o auxílio dos filmes, dos dados trazidos pela Nadir, a “loucura” daquela empreitada dos jesuítas e dos guarani reduzidos, que às vezes soa mais como uma lenda, não fossem tantos os vestígios materiais.

De qualquer forma, acho que fascinante mesmo é fazer algum roteiro do Caminhos (trilhas de dezenas ou centenas de quilômetros pela região missioneira); ter tempo para descansar, meditar, conversar solto, tomar um chimarrão bem feito... Mas a “amostra grátis” que tivemos no sábado já foi ótima e, sem dúvida, marcante – um dia inesquecível, de um sol agradável e de um céu estrelado que tornavam a revelação e benção que estávamos recebendo ainda mais bonita e profunda.

*Comentário a partir de um e-mail enviado a um amigo de Santo Ângelo (RS).




Íntimas Ligações II

Tenho falado das “íntimas ligações” entre o Vale do Rio Pardo e a região das Missões. Nos fragmentos abaixo, que retirei do livro Colonialismo e Missões Jesuíticas, do historiador Moacyr Flores, editado em 1983, isso fica ainda mais evidente. O próprio surgimento do núcleo militar, urbano, político e comercial de Rio Pardo está ligado diretamente à questão das povoações jesuítico-guaranis e seus domínios. Não foi uma “história de amores”, não! Pelo contrário: há, tragicamente, muito sangue e interesses político-econômicos por todos os lados.

E de novo tenho que dizer: nossa região – o Vale do Rio Pardo – tem uma história fantástica, muitas vezes solapada por uma visão reducionista, focada nos “brancos”, lusos e alemães, especialmente.

Segue os fragmentos com umas observações minhas entre colchetes:

“Preparando os meios para prosseguir com a demarcação dos limites estipulados pelo Tratado de Madrid [de 1750, no qual a Espanha cedia a região dos Sete Povos das Missões a Portugal em troca da Colônia do Santíssimo Sacramento], o general Gomes Freire de Andrada, ao chegar à vila de Rio Grande a 6.4.1752, determinou a construção de dois depósitos de víveres e munições, para apoio e abastecimento das tropas que dariam cobertura à expedição demarcadora de fronteiras. O furriel de dragões Francisco Manuel de Távora, chefiando alguns paulistas explorou o rio Ingayba, antigo nome do Jacuí, sugerindo a construção de um depósito na confluência do rio Pardo e outro a 15 léguas abaixo, numa forqueta do Taquari com o Jacuí, que mais tarde deu origem a Santo Amaro.”

“O engenheiro João Gomes de Melo demarcou as trincheiras do forte Jesus, Maria e José sobre uma colina que dominava a confluência do rio Pardo com o Jacuí, onde se arranchou o destacamento comandado pelo capitão Francisco Pinto Bandeira.”

“Quando os missionairos descobriram que os portugueses construíram ranchos no rio Yobi (Pardo), perto das estâncias e ervais de S. Luis, S. Lourenço e S. João, reuniram 350 guerreiros e em 22.2.1754, atacaram e mataram 2 negros que estavam de sentinelas avançados, com mais 14 portugueses na linha de trincheira. [Ao final da “peleja”, com vários lances, pilhagem, decapitação etc., morreram 28 índios missioneiros.] (...) Procurando afastar a ameaça lusitana, os missioneiros reuniram 500 guerreiros e marcharam contra Rio Pardo, pela segunda vez, a 29.4.1754 [ou seja, dois meses após o primeiro ataque], que agora já estava com fosso e paliçada, inclusive o caminho do forte até o pequeno porto estava protegido por forte estacada.”

“Os índios, procurando surpreender a guarnição, cruzaram o rio mais acima, através de uma ponte madeira. Na saída do mato encontraram 5 negros que cuidavam da cavalhada portuguesa. Na rápida escaramuça morreram os negros e 3 índios, entre eles o tenente corregedor de S. Miguel [a denominação do cargo desse índio demonstra a organização militar e administrativa dos povos missioneiros da época]. (...) [Após tiros de escopetas e pequenos canhões, os índios mantiveram um cerco nas imediações do forte rio-pardense. Os portugueses içaram bandeira branca, anunciando o desejo de negociar o conflito.] Sepé Tiaraju, índio de S. Miguel (...), entrou no forte para parlamentar com o comandante (...). [Caíram numa cilada e, após tentativas frustradas de negociação, Sepé conseguiu fugir, mas 53 cativos indígenas foram enviados para a vila de Rio Grande por um barco através do Jacuí; houve um levante e entre afogados que se atiravam no caudaloso rio e os mortos pelos escoltadores no barco, sobram apenas 14 índios. Além de portugueses, no navio havia um paraguaio e 2 negros, o que demonstra a significativa presença de afro-descendentes no início da ocupação lusitana no território do Vale do Rio Pardo.]”

“Os jesuítas conheciam muito bem a geografia das cercanias da fortificação portuguesa [o forte Jesus, Maria e José, pois no documento que relata os acontecimentos deste segundo ataque, há uma descrição pormenorizada da região, mostrando que da confluência dos rios Jacuí e Pardo, podia-se atingir uma vasta área utilizando a rede hidrográfica (...).”

*Comentário feito para os mebros da lista de discussão pela Internet “cedecsonline”.




O PIONEIRISMO DA OCUPAÇÃO ESPANHOLA NO VALE DO RIO PARDO

“Descobri” (pra mim mesmo!) uma revista que já vem lá dos anos 50 do século passado. Chama-se “Pesquisa”, editada pelo Instituto Anchietano de Pesquisas, de São Leopoldo. Há nas edições estudos antropológicos, históricos, arqueológicos, botânicos, paleotológicos etc. “Achei” a coleção nas estantes de periódicos da biblioteca da Unisc. Para quem se interessa por etno-história, em especial sobre os índios do Brasil meridional e de países adjacentes (Argentina, Uruguai e Paraguai, principalmente), é uma mina de ouro.

Duas revistas me interessaram demais, e estão me anunciando uma possibilidade de alargamento de conhecimentos sobre o passado da região de Santa Cruz.

Um dos assuntos, que vou comentar uma outra hora em mais detalhes, tem a ver com a palestra de um padre historiador, Arthur Rabuske, transcrita no nº 22 (série História, 1982). Intitulada "Jesuítas alemães em suas relações com o elemento negro em nosso passado gaúcho", faz uma referência – breve, mas que me despertou enorme curiosidade – envolvendo um antigo educador jesuíta do Colégio São Luís de Santa Cruz do Sul, o Ir. João Immler. Rabuske diz que "em plena Colônia Alemã", o Ir. Immler mereceu o "cognome de apóstolo dos negrinhos", visto a sua dedicação, em especial nos seus últimos 30 anos de vida, às aulas particulares e catequese de crianças negras na Santa Cruz, suponho, do começo do século XX – conforme apontam as referências ao Ir. Immler que encontrei no site do Colégio São Luís, onde diz, ainda, que o “dedicado religioso” foi "prefeito de disciplina" até 1913, mantendo uma "escola noturna para adultos" entre 1912 e 1927. Há aí, pois, dados apontando a presença nada desprezível de negros na virada do século em Santa Cruz, algo que é sistematicamente negado ou, ao menos, desprezado historicamente – dentro da estratégia estúpida de apresentar a história do município como algo feito unicamente pelos imigrantes alemães e seus descendentes.

Mas o que eu vou me referir aqui é sobre as REDUÇÕES JESUÍTICO-GUARANIS NO VALE DO RIO PARDO ou da PRIMEIRA OCUPAÇÃO EUROPÉIA NO VALE DO RIO PARDO ou, ainda, O PIONEIRISMO DA OCUPAÇÃO ESPANHOLA NO VALE DO RIO PARDO. As informações vêm da revista Pesquisas nº 47 (série Antropologia, 1992). Na edição está o trabalho intitulado “Lideranças Indígena no começo das reduções jesuíticas da Província do Paraguay”, de Ítala Irene Basile Becker, uma das mais produtivas e antigas pesquisadoras dos povos indígenas do sul do Brasil.

Só sistematizarei uns poucos dados que a Ítala apresenta sobre as três reduções que se localizaram no Vale do Rio Pardo*. O trabalho dela é bem mais amplo e se concentra nas lideranças indígenas – os “caciques” – das Frentes Missionárias Jesuíticas, compostas de umas 60 reduções.

É possível obter muito mais informações sobre as três reduções vale-riopardenses. Mas isso depende de mais pesquisa. Já mencionei os trabalhos e textos acadêmicos do arqueólogo Pedro Mentz Ribeiro sobre o assunto. Mesmo assim, falta muito. Falta, principalmente, “notar” a fascinante epopéia desses espanhóis aqui no vale, onde não faltaram um trabalho descomunal de cooptação de milhares de indígenas e, da mesma forma, uma destruição sangrenta dessas obras. Não esqueçam que o bandeirante que a gente estudos lá no Estadual, o Raposo Tavares, passou por aqui – ao longo do rio que dá nome a região – com um exército de mais de 1.500 pessoas bem armadas para época.

Algo que Ítala Becker também se refere, e que poderia ser bastante “escandaloso”, justificando, até, a ojeriza e opressão imposta aos índios, é o fato dos guarani da região praticarem a antropofagia – de forma ritualística. Ou seja, comiam carne humana em determinadas circunstâncias especiais. As indicações são de que, na medida que suas organizações sociais tradicionais eram solapadas pela ocupação/imposição física e cultural européias, a tradicional antropofagia teve um recrudescimento: comia-se mais gente! Entre as hipóteses para isso está o aumento dos conflitos internos entre grupos guarani, uns cooptados pelos padres jesuítas, outros resistindo à “conversão”, gerando uma crise jamais vista entre os nativos.

Além da antropofagia ritualística, há a poligamia, organização familiar comum, em especial entre lideranças. Ao aumentarem as suas relações de parentesco, os “caciques” aumentavam também o seu poder de influência. A poligamia, assim, é revestida de um componente político de difícil compreensão à moralidade cristã dos padres, que investiram todo o seu fanatismo evangélico para convencer que a monogamia era algo ditado por “Deus”...

*Dados sobre as reduções do Vale do Rio Pardo (artigo de Ítala Becker):

-Redução de San Joaquín

Fundação: 1633; Localização: nascentes do Rio Pardo (proximidades de Barros Cassal); Aspectos geográficos destacados: em meio a então chamada Serra do Botucaraí, em terreno escarpado; Fundador: Pe. Pedro Romero; Outros jesuítas: Francisco Jiménez (reitor interino), Juan Suárez (responsável pelo término da igreja)

Lideranças indígenas destacadas: Caruay, Aryá (ou Ariyan) e Itapay; Famílias reduzidas: 1.000; Produção rural destacada: milho, feijão (variedade especial) e trigo.

-Redução de Jesús Maria

Fundação: 1633; Localização: margem direita do Rio Pardo, cerca de 20 a 25 quilômetros acima da foz do Rio Pardinho (no município de Candelária); Aspectos geográficos destacados: a redução mais avançada para leste fundada no atual território do Rio Grande do Sul; Fundador: Pe. Mola; Outros jesuítas: Cristóbal de Arenas e Cristóbal de Mendoza; Lideranças indígenas destacadas: Apecé, Antonio Carayuchuré, Ayerobiá, Chemombé, Tayubaí e Yaguacapurú; Famílias reduzidas: -; Produção rural destacada: gado.

-Redução de San Cristóbal

Fundação: 1634; Localização: margem direita do Rio Pardo, abaixo de seu afluente Pardinho – a duas léguas da Redução de Jesús Maria (proximidades de Santa Cruz do Sul); Fundador: Pe. Agustín Contreras; Outros jesuítas: -; Lideranças indígenas destacadas: Antonio Carayuchuré e Yaguacapurú; Famílias reduzidas: 950 (pessoas); Produção rural destacada: -.




Revelações pela janela de Moina

Terminei de ler na semana passada um livro muito interessante. “Uma janela para o passado”, de Moina Mary Fairon Rech, uma santa-cruzense, pintora, nascida em 1931, filha de um irlandês – que trabalhou na antiga Companhia Brasileira de Fumo em Folha, hoje Souza Cruz – casado com uma “alemoa” que ele encontrou já aqui na cidade. São memórias de infância e adolescência (dos 7 aos 12, mais ou menos), onde se revela um pouco da história de Santa Cruz dos anos 30 e 40 do século passado.

Há muitos episódios dignos de nota. Vou só mencionar, para quem não os leu, uns que estão mais – vamos dizer assim – relacionados com minhas “linhas de pesquisa”.

Em 1938, a pequena Moina, que deveria ter uns sete ou oito anos, praticava ginástica na Sociedade Ginástica (no mesmo endereço que é até hoje, e onde a minha filha, Shiva, faz patinação...). Ao final do ano, os ginastas amadores faziam suas apresentações de “fim de temporada”. Depois da série de “números”, fazia-se um fechamento do evento com todos os atletas em cima do palco. E então se tirava “uma foto para a posteridade”.

Observem o ano, e tenham em mente que o pai da menina é um irlandês trabalhando numa empresa anglo-americana, que os santa-cruzenses da época chamavam de “os americanos”, ou seja, o homem não era um “simpatizante” – muito antes pelo contrário – dos chamados “países do eixo”, capitaneados pela Alemanha hitlerista. Ela narra assim: “Meu pai quase teve uma síncope, não por causa de mim e sim porque viu, no fundo do palco, uma enorme suástica.” Nesta época a germanidade local, as “raízes teutônicas” santa-cruzense tinham muita ligação com a ostentação cheia de orgulho da cruz gamada...

Outro episódio que se passa neste mesmo período, nas exatas palavras da autora: “Quando a Alemanha invadiu a Polônia, o mundo inteiro ficou estarrecido. Em conseqüência, a Inglaterra e a França, cumprindo tratados, declaram guerra à Alemanha. O invasor triunfante mostrando seu poderio fez com que algumas pessoas mudassem de comportamentos aqui em nossa cidade. Ficaram diferentes e até hostis. Teve até quem começasse a me tratar mal (...). Os inimigos parecem que éramos nós, os ‘Americanos’ e os ‘Brasileiros’. Nós éramos chamados de americanos por causa da Factory, ou seja, a Souza Cruz, e os brasileiros, os luso-brasileiros como aqui apelidados, eram os que não falavam alemão, nem eram loiros e tampouco possuíam nome germânico.”

Logo adiante, Moina começa a falar sobre um piquenique na chácara do Colégio São Luiz. Em meio a uma brincadeira entre as crianças. “Eram uns seis ou sete ‘amigos’ que de uma hora para outra resolveram nos ofender gratuitamente. ‘Morte para o inimigo’ e ‘abaixo a Inglaterra’ e coisas assim.” Atiravam “pelotas de estrume seco” nela e em seu irmão menor. “Começamos a chorar e voltamos correndo para junto de meu pai. Alguns adultos, quando souberam o porquê da choradeira, caíram na gargalhada e abraçaram os seus ‘rebentos’ com orgulho.” O pai dela ficou ofendido com aquilo e “Resolveu nunca mais tomar parte nessas reuniões, em vista da crescente hostilidade.”

“Parece que a guerra não foi só declarada lá longe entre a Alemanha e a Inglaterra. Agora já fazia parte da nossa vida”, lembra-se. “Houve até um menino que sempre que eu passava na frente da casa dele, fazia cara de nojo, cuspia no chão, na minha frente, para demonstrar todo o seu desprezo e animosidade. Coisa de criança boba e fanática. Culpa dos pais, eu imagino.”

Pulando alguns capítulos, Moina diz: “O ditador Hitler costumava discursar muito pelo rádio e, bem no começo da guerra, era ouvido com muita atenção pelos alemães espalhados pelo mundo inteiro. Aqui em Santa Cruz não foi diferente. Ele sabia dizer, e muito bem, o que queriam ouvir.”

Os efeitos do conflito chegou até ao cinema da cidade: “Havia somente um cinema em Santa Cruz, o CINEMA APOLO. Como seu proprietário tinha suas simpatias pelo ‘outro lado’ [os hitleristas], foi colocado na LISTA NEGRA pelos americanos, que cortaram sumariamente a remessa de filmes que costumavam enviar. Em razão disso, a cidade inteira pagou o pato.” Ficaram sem os filmes de Hollywood, que já eram de onde vinha a maior parte dos filmes. “Tiveram que apelar para velhos filmes, argentinos, mexicanos, westerns arcaicos e filmes classe C, que eram mais antigos ainda”, lamenta a autora.

Os relatos de Moina Fairon mostram detalhes do passado recente santa-cruzense, que até mesmo “historiadores” locais fazem questão de não abordar abertamente. Um assunto tabu, que pode ameaçar a versão vitimizada que muitos tentam imprimir a história das comunidades identificadas (ou auto-identificadas) como “alemãs” à época da ditadura Vargas.




Em nome do fumo

Ao longo da nossa história, muitas vezes, a desproporção entre o nível da repressão superou em muito o real “perigo” a ser combatido. Isso é dito, por exemplo, em relação aos alemães e teuto-descendentes no Brasil durante uma parte do período da guerra contra os nazistas e fascistas europeus. Outras vezes, também, os motivos reais para a agressão e – no caso que vamos comentar a seguir – o literal massacre de pessoas são escamoteados, alegando-se “razões” que “justifiquem” mais facilmente uma violência que tem raízes na pura ganância e mesquinhez dos homens.

É o caso, me parece, dos Monges Barbudos, uma caboclada que habitava grotões do Vale do Rio Pardo, na região de município como Sobradinho, Tunas, Arroio do Tigre, entre outros; um movimento religioso que teve seu começo em meados dos anos de 1930 e, praticamente, foi dizimado antes do começo dos anos 40 – restando, porém, resquícios daquela fé até hoje.

O pequeno agricultor André Ferreira França, conhecido como Deca, teria recebido a visita de um idoso sábio andarilho, João Maria, que lhe ensinou os segredos da cura de doenças com ervas e alertou para os malefícios das agressões do homem à natureza. Mas o que iria selar a sorte dos futuros seguidores dos ideais de vida pregados por França, além da afrontosa autonomia em relação a igrejas oficiais, foi o vaticínio sobre “os males do fumo plantado e guardado [para secar] dentro de casa”, como registra a historiadora Liane Maria Bernardi em sua monografia de pós-graduação Terra trilha Sobradinho, de 1992. Ela relata que França, em suas visitas às famílias da região, “pregava que se plantassem alimentos, que não se plantasse fumo”. Isso foi visto como “uma ameaça aos lucros dos comerciantes e empresas” ligadas ao tabaco.

Mesmo se sabendo que a barba e os cabelos compridos identificam as figuras centrais do cristianismo, como os profetas do Velho Testamento, Jesus e seus apóstolos, além da própria figuração antropomórfica de Deus, o costume das grandes melenas daquela gente mestiça – e que lhes deu a denominação Monges Barbudos – foi visto como “sinal inequívoco” de má higiene, devassidão e vagabundagem. No processo de difamação do crescente grupo, somaram-se as acusações de que havia entre eles gente foragida e fortemente armada, contrariando a orientação pacifista do grupo, e que ficou comprovada em várias ocasiões. Chegou-se a dizer que eram “comunistas” e que Luiz Carlos Prestes mandava alimentos por meio de aviões aos “comedores de criancinha” daquele agreste serrano do Vale do Rio Pardo.

O temor dos “bodegueiros”, que intermediavam com grande lucratividade a venda do fumo, foi fundamental para desencadear a ação policial terrorista, que contou com civis dispostos a “dar uma lição nos barbudos”. Na Semana Santa de 1938, enquanto dezenas de fiéis, incluindo mulheres, velhos e crianças, rezavam em uma capela da localidade de Bela Vista, Sobradinho, os milicianos abrem fogo contra os que estão do lado de fora do templo. Correrias, gritos e tiros, invadem e agridem uma das lideranças do grupo, Anastácio Fiúza, o Tácio, que tenta escapulir, mas é fulminado pelas costas.

Outras truculências, assassinatos e humilhações se sucederam, até que conseguem eliminar o principal líder carismático do movimento, o mencionado Déca, numa ação – de acordo com relatos da época – extremamente covarde contra um indivíduo desarmado, que já havia se rendido.

Condecorações aos “bravos defensores da sociedade”, comemorações dos “homens de bem” e a “tão necessária” manutenção do sistema fumageiro “modelar”. A ameaça à ordem, por mais débil que fosse, amedrontou uma elite, que não teve escrúpulos para desencadear uma “guerra santa”, satanizando pobres agricultores que “ousaram”, na prática, por suas circunstâncias marginais, a utopia de “ajuntar primeiro tesouros no céu”. O preço, de novo, foi a crucificação...




Negros na História da organização popular nas zonas de colonização

Muito se fala na influência das organizações das comunidades dos imigrantes alemães e seus descendentes na “cultura associativista” que ainda perdura ou, pelo menos, se vislumbra em iniciativas e instituições sociais em nossa região. Mas é bastante temerário argumentar que tal conformação de relações coletivistas no campo econômico e social seja algo originado em um grupo étnico exclusivamente. O relativo isolamento dos núcleos coloniais e o atendimento deficitário ou inexistente por parte dos governos de demandas sociais – como o de escolas – já demonstram que se trata de algo – a organização associativa – provocado por inúmeros fatores, para além de alguma “determinação genética” de uma certa “raça superior”.

Podemos pensar, por exemplo, nos quilombos em meio aos grotões do Vale do Rio Pardo, mencionados por historiadores como Jorge Cunha, que, em sua obra Os colonos alemães e a fumicultura, de 1990, nos coloca que o então diretor da colônia de Santa Cruz, Carlos Schwerin, efetuando medidas na serra ao norte de Linha Ferraz e São João, comunica, em 1863, ao inspetor geral das colônias, que ele havia encontrado vestígios de que “existem por dentro destes matos um quilombo numeroso, cuja destruição é tanto necessário, [já] que a colonização de Santa Cruz há de se estender por este lado até chegar em Cima da Serra”.

Os quilombos são típicas organizações sociais de subsistência e luta do povo negro contra a opressão escravocrata – imensamente mais traumática, diga-se de passagem, do que aconteceu durante um período do Estado Novo em relação a alemães e italianos. Para destruir os agrupamentos dos afro-descendentes, as elites não pouparam esforços. O capitão-do-mato era uma figura emblemática da repressão aos quilombolas. De novo, Santa Cruz do Sul não deixou de ter pelo menos um desses terríveis “caçadores de escravos fujões”. De alcunha Gaiola, de nome Joaquim, como atesta José Bittencourt de Menezes em sua obra Município de Santa Cruz, de 1914, o antigo residente do Faxinal Velho (hoje bairro da cidade) recebeu, inclusive, além de “condecorações pelo serviço prestado”, um terreno na quadra “M” da então ainda nascente sede urbana santa-cruzense planejada e executada pelo governo provincial.

Em Venâncio Aires, que guarda muitas semelhanças com a “Capital do Fumo” (e o tabaco é uma planta cujos mais longínquos agricultores são índios, inclusive aqui no Vale do Rio Pardo) em sua conformação histórica e mesmo étnica – perceptível até nos templos católicos principais (em ambos os casos a “velha igreja” nos moldes tipicamente luso-brasileiros é substituída pelo neogótico “modelo germânico”) e no traçado ortogonal característico do urbanismo colonial português, herdado pelos governos do Brasil. Pois na “Capital Nacional do Chimarrão” – outra referência a um produto (a erva-mate) e hábito indígenas ancestrais – a maior festividade religiosa da cidade e da região tem íntimas ligações com a organização associativa da população negra.

Conforme dados da própria paróquia e do historiador venancioairense Jair Pereira, em 25 de janeiro de1880, 12 escravos e quatro “pessoas livres” (muito provavelmente ex-cativos com origens africanas) registram a Irmandade de São Sebatião. Para além do aspecto religioso – e mesmo de uma devoção sincrética, preservando elementos de atávicos cultos da África –, as irmandades eram grupos de ajuda mútua, podendo contar com sistemas de poupança, recolhimento de contribuições, provendo auxílios financeiros em diversas situações, como na própria compra da carta de alforria. Para enfrentar a hostilidade e precariedade sociais a que estavam submetidos, o congregacionismo do povo negro foi um meio importante de minimizar as dificuldades existentes num mundo de profundo racismo, que, infelizmente, não se dissipou até hoje.

A irmandade de Venâncio Aires (1880) e o quilombo de Santa Cruz (1863) são exemplos – entre vários outros (poderíamos falar da Irmandade Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, funcionando já antes de 1774, primórdios do que seria a “Tranqueira Invicta”, centro histórico da região) – no Vale do Rio Pardo de organizações essencialmente populares, comunitárias e negras em plena zona de assentamento de imigrantes alemães. Em muitos casos, como foi referido, tais coletivos antecederam e coexistiram na colonização germânica efetivada a partir de 1849. Por isso, é preciso considerar que, no “lastro cultural” associativista regional, mesmo quando se tratam de municípios com forte influência teutônica, está agregado, mesmo que em menor parte, mesmo que dissolvido e invisibilizado, a organização, a mobilização, a resistência, o trabalho e a história dos africanos e seus descendentes.




A África ancestral no mar de dentro santa-cruzense

No livro Mar de dentro, de Lya Luft (editora Arx, 2002), li um episódio vivido pela autora na sua infância aqui em Santa Cruz do Sul, lá pelos meados dos anos de 1940, envolvendo uma benzedeira afro-descendente chamada Dona Negrinha, à qual até mesmo a elite da cidade recorria quando, nas palavras da escritora, “as mulheres da casa não acreditavam mais na medicina”. Além de aspectos que remetem à busca de “soluções mágicas” tidas como impróprias a “pessoas urbanizadas” – e por isso mesmo, penso eu, escamoteadas nos “registros históricos oficiais” –, há, na narrativa da autora, elementos interessantíssimos para pensar a inserção sociocultural da população negra na "toda germânica" Santa Cruz – ainda mais explicitamente do que pode ser vislumbrado no seu romance A asa esquerda do anjo. (Observe-se que Mar de dentro é um livro de memórias; uma autobiografia; diferente de uma obra de ficção. Embora, em minha concepção, o “filtro e a verve literárias” não retirem o valor de um escrito como elemento para compreensão da sociedade. Muitas vezes, pelo contrário: a sensibilidade artística pode ser um aliado no desvelamento de meandros das relações humanas grupais. Como se refere outra escritora magistral, Lygia Fagundes Telles, justamente a respeito da sua colega Lya Luft: “conseguiu ela criar uma obra que é documento social e arte”.)

A abrangência dos serviços da Dona Negrinha, com certeza, se estendiam a diversas famílias santa-cruzenses de todas as classes. Os "bruxedos" da velha senhora negra, moradora em um casa, “quase um barraco”, como lembra a autora nascida em Santa Cruz do Sul em 15 de setembro de 1938, deviam ser afamados. Lya diz que, ao final do ritual, se sentiu “renascida, protegida, para sempre salva”. “As roupas que lhe levavam retornavam com o odor de ervas e fumaça, mas docilmente eu deixava que me vestissem com elas, certa de que já estava curada”, complementa, numa outra recordação da meninice da hoje madura e prestigiada cronista da revista Veja.

Esta amorosa consideração em Mar de dentro, que começa lá na página 76, são indicações de que a presença e influência de personalidades e, mais amplamente, da cultura negra em Santa Cruz do Sul não foram, nem são desprezíveis como muitas vezes se tenta fazer entender. Os saberes curativos oriundos de um África ancestral, passados de geração em geração desde a chegada dos primeiros trabalhadores negros no Brasil, dominado por humildes xamãs – caso desta Dona Negrinha lembrada por Lya –, estavam, já antes dos conturbados tempos da 2ª Guerra Mundial, consolidados na vida social de uma crescente cidade interiorana de forte presença alemã, fundada a partir do povoado denominado Faxinal do João de Faria – aliás, uma referência (pouco considerada) ao sesmeiro em cujas terras "numerosos escravos" labutavam, conforme registra José Bitencourt de Menezes, em seu basilar Município de Santa Cruz, brochura editada em 1914.

Os vários templos e milhares de pessoas adeptas, que têm – mesmo que esporadicamente – nas cerimônias religiosas e rituais xamânicos de matriz africana em Santa Cruz do Sul uma fonte de ligação com os aspectos transcendentes e busca de alívio a agruras humanas, afirmam que a pluralidade cultural e a influência afro são fatos incontestáveis. A identidade santa-cruzense, para além de estereótipos, é, desde os primórdios da comunidade, multifacetada, híbrida, produto de diversas contribuições, numa conjunção enorme de fatores e gentes. Isso deveria impedir simplificações e, como aponta o professor Mário Maestri, mitificações – mesmo que para “efeitos turísticos” – que levam a menosprezar determinados grupos étnicos na hora de contar a história do município.




370 anos da presença negra no Vale do Rio Pardo

A carência de estudos enfocando a presença e contribuição da população negra no Vale do Rio Pardo é ainda muito grande e sintomática. Embora haja referências históricas demonstrando que africanos e descendentes estão ou circularam na região desde pelo menos 1636 (data esta apontada pelo arqueólogo Pedro Mentz Ribeiro, na sua obra Pré-história do Vale do Rio Pardo), quando a bandeira de Raposo Tavares, composta também por negros escravizados (“negros da Guiné, da Mina ou de Angola” compõem, como “figuras talhadas no ébano”, a “turba humana” a serviço do explorador paulista, nas palavras reproduzidas de Alfredo Ellis, no livro Entradas e Bandeiras, da historiadora Luiza Volpato), veio para cá a fim de dizimar as reduções jesuíticas – a Jesus Maria, localizada onde hoje é Candelária, a São Joaquim, provavelmente em Gramado Xavier, e a São Cristóvão, no município de Rio Pardo –, pouquíssima importância é dada ao que vem constituir-se, no ano de 2006, em eloqüentes “370 anos da presença negra no Vale do Rio Pardo”.

Há outras várias datas que poderiam ser tomadas como referenciais da presença afro na região, como nos indica a professora rio-pardense Marina de Quadros Rezende (em seu livro Rio Pardo: História, Recordações e Lendas, com prefácio de Dante de Laytano). A de 1751, quando se instala uma guarda portuguesa em um passo sobre o rio Pardo, próximo a confluência do Jacuí, é uma delas. E, como é sabido, onde estão os lusos naquele tempo, lá estão também os negros, que, de fato, eram aqueles que trabalhavam cotidianamente nos serviços mais pesados. Antes dessa data, tem-se, por exemplo, notícia da expedição de Brito Peixoto, Capitão-mor da vila de Laguna, que chegou ao vale atrás de minérios preciosos. Ou da vinda de outro lagunense, Cosme da Silveira Ávila, que, por volta de 1725, assentou-se nas proximidades do hoje Porto das Mesas, localidade de Rio Pardo, fundando a fazenda Nossa Senhora da Boa Esperança – empreendimentos que não prescindiam da mão-de-obra negra escravizada.

Nas escaramuças entre o Império Português assentado no que viria a ser a cidade de Rio Pardo, base regional, e os índios missioneiros, que resistiam a invasão dos seus domínios, lá estavam os negros, incluídos, inclusive, entre as baixas: no relato do historiador Moacir Flores, nove são contados entre os mortos no ano de 1754 no embate com os guaranis das Missões Jesuíticas. São africanos ou afro-brasileiros que atuavam como sentinelas avançadas, marinheiros, encarregados da cavalhada etc., isto é, funções militares fundamentais para o sucesso político lusitano, que, aliás, configurou o Rio Grande do Sul e o Brasil.

Sobretudo, é preciso considerar toda a dimensão do fato de ter sido Rio Pardo, até quase o final do século XIX, um importante (mesmo que de triste lembrança) centro escravista do sul do Brasil. Nas vilas, nos povoados, nas sesmarias, nas fazendolas, nos quilombos em meio à mata densa, lá estavam negros e negras trabalhando e resistindo na região, participando, assim, da conformação social e econômica do Vale do Rio Pardo. Irmandades, como a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, funcionando já antes de 1774 em uma Rio Pardo incipiente, mais que somente “devoção cristã”, demonstram a organização popular de ajuda mútua, buscando superar uma feroz discriminação.

Está mais do que na hora de resgatar o valor dos afro-brasileiros que fizeram e fazem a história dos municípios que compõem a AMVARP – sem excluir, obviamente, Santa Cruz do Sul, entre outros centros urbanos “germânicos”, que, para espanto de muitos, como sublinha o jovem professor Anderson Santos, até capitão do mato abrigou, tendo “honrado-lhe” com a cedência de um terreno na quadra “H” da então nascente cidade, planejada para ser um pólo urbano dos assentamentos rurais de imigrantes europeus chegados a partir de meados do século XIX, que, diga-se de passagem, receberam subsídios governamentais que trabalhadores negros da época (geradores, aliás, dos recursos públicos do país) jamais tiveram acesso...

Enfim, mesmo que sejam “minorias”, para construirmos uma sociedade de fato justa, culturalmente plural e politicamente democrática, precisamos considerar a diversidade dos grupos étnicos que enriquecem o Vale do Rio Pardo. Os afro-brasileiros são parte essencial da comunidade regional.




Legítima alemã? Como assim?!

Li com grandes expectativas a reportagem da ex-soberana da Oktoberfest santa-cruzenses, Maíra Assmann, publicada no caderno Magazine do jornal Gazeta do Sul, em sua edição de 31/07 e 01//08/2004. A minha atenção à página prendeu-se nem tanto pela grande foto de uma bela moça de cabelos loiros e olhos esverdeados, mas pelo título: “A legítima mulher alemã”, com a palavra “alemã” bem destacada. Perguntei-me, então: Mas, pelo que entendo, uma mulher alemã legítima, ou deve ter nascido na Alemanha, ou ter sido, ao menos, naturalizada nesse país que fica a milhas e milhas de distância do Brasil! E parecia não ser o caso.

A julgar pelo “perfil” desta teuto-descendente – pelo que indica o sobrenome e seus traços físicos (o que não é garantia alguma de uma “pureza” germânica da menina) –, nascida há 18 anos na Linha João Alves (topônimo que se refere a um antigo proprietário de terras na localidade), ela se parece, ao contrário de uma “legítima alemã”, uma típica jovem brasileira dos dias de hoje. Daniele Aline Hackenhaar destaca, na entrevista, como cantora preferida a baiana Ivete Sangalo, baluarte da “axé-music”; tem como prato predileto a italinaíssima lasanha; como bebida alcoólica, o escocês whisky; sua viagem marcante foi ao parque temático do “caubói nacional”, Beto Carrero; seu livro de cabeceira é O Alquimista, de outro consagrado baiano, Paulo Coelho; a atriz é Fernanda Montenegro, entre outras referências que estão longe de de ser de alguém com algum traço cultural muito diferenciado de uma comum adolescente que nasceu e vive no Brasil contemporâneo.

Nem falar uma língua estrangeira, como é dito de Daniele, pode ser alegado como algo distintivo. Não é porque domino o idioma britânico, tenho um antepassado vindo da Inglaterra, e admiro o charme de Londres, que posso me ter como um “legítimo inglês”.

Igualmente interessante – além da matéria em si –, com poucas exceções, é que a matéria não gerou espanto maior. Foi recebida com algo perfeitamente “natural”, ou seja, tratar uma moça brasileira como uma “legítima alemã” não foi visto como, no mínimo, uma falta de precisão jornalística. Duvido que isso acontecesse no caso, por exemplo, de uma matéria sobre a “mais bela negra” santa-cruzense, onde aparecesse com o título “A legítima africana” ou, mais esdrúxulo ainda, “A legítima mulher angolana”, para se referir à região do continente africano de onde vieram boa parte dos antepassados dos negros do Brasil.

Enfim, somos todos brasileiros, da nação brasileira, com nossas origens diversas e já por muito étnica e geneticamente “misturadas”, híbridas – como tão bem demonstra as preferências de Daniele. A afirmação de uma raiz cultural não precisa chegar a ponto de levar a confundir nacionalidade com descendência.




1874: mais de 60% da população de Monte Alverne não é alemã****

Monte Alverne foi uma colônia provincial (ou seja, estatal) ligada inicialmente ao município de Taquari. O historiador Dante de Laytano, em notas do seu livro Origem da propriedade privada no Rio Grande do Sul (Martins Livreiro, 1983), citando o “Relatório de colonização” de 1875, diz que a Câmara Municipal de Taquari, além de auxiliar o diretor da colônia em “acabar com as contendas existentes entre os colonos por causa dos caminhos” – uma alusão à situação nem sempre harmônica e de congraçamento dos assentados –, a corporação taquariense, na época com funções administrativas (similares a uma prefeitura de hoje), também estava empenhada no “melhoramento das estradas, mandando ultimamente construir, as expensas suas, três pontilhões na estrada que vai da colônia [de Monte Alverne] ao porto de embarque no rio Taquari”, indicando que as subvenções governamentais contaram, sim, para a efetivação do desenvolvimento da comunidade, não estando os colonos num total isolamento e desamparo por parte do poder público, como às vezes se dá a entender, sempre reforçando uma idéia de vitimização exacerbada dos imigrantes*.

Mas, nesse pequeno fragmento da obra de Laytano, ainda se referindo ao citado relatório de 1875, chama a atenção, em especial, que, no ano anterior, 1874, a população de Monte Alverne era composta de “592 indivíduos, sendo nacionais 273, alemães 227, austríacos 71, suíços 7, holandeses 14”. Transformando estes dados em percentagens, temos que 46,1% dos monte-alvernenses da época são brasileiros – o que deve incluir, além de possíveis teuto-descendentes naturalizados, vindos de colônias mais antigas, caso de São Leopoldo, também pessoas luso-descendentes, miscigenados de várias matrizes étnico-raciais, além (não se pode duvidar) de afro-descendentes, talvez, mesmo, trabalhadores escravizados, ordinariamente encontrados à época em Santa Cruz, Candelária, Estrela, Venâncio Aires etc.

A população de Monte Alverne se complementa com 38,3% alemães. Sem dúvida é um número bastante expressivo, mas que não deveria suplantar em termos de consideração, em primeiro lugar, o de “nacionais” (praticamente a metade), e, em segundo, os 15,4% de imigrantes de outros países da Europa, ou seja: 11,9% de austríacos, 2,36% de holandeses e 1,18% de suíços. Toda esta gente**, seus descendentes, devem ter constituído família, expandindo-se com uma parentela a cada geração mais numerosa, mesmo que “misturada” com pessoas oriundas de outros grupos, “cozinhando” o hibridismo do qual fala o professor Mozart Linhares.

Eis, num censo de 1874, em plena colônia de imigrantes – mas também de migrantes (o número de nacionais é a prova de que nem só estrangeiros foram assentados na região) –, a exposição, por números significativos, de uma diversidade que alguns ainda tentam desconsiderar. Monte Alverne é um exemplo da complexida histórica e da múltipla origem dos elementos humanos, compondo um painel de intensos câmbios culturais, resultando numa comunidade sui generis, muito longe de uma identidade que se possa referenciar – a não ser de forma artificial – numa única nação estrangeira, que, no começo da colonização, sequer existia como país***.


*No “Relatório do Vice-Presidente da Província”, de 1861, também já se vê o empenho e os recursos públicos implicados já na chegada e transporte dos imigrantes a serem assentados em Monte Alverne. Estradas são abertas para a expansão da colônia “para o lado de Taquari [Venâncio Aires]”, sob as expensas governamentais, encarregando-se (ou seja, pagando-se) para tal o “major de engenheiros Cândido Januário Passos, em 27 do corrente ano”. O mesmo vice-presidente também diz no relatório ter tomado providência para que os colonos desembarquem no “porto [na beira do rio Taquari, provavelmente na região de Vila Mariante] da fazenda do capitão João Francisco Fernandes, e dali por terra à moradia do cidadão José Joaquim da Cruz, distante da colônia [de Monte Alverne] uma légua”, complementanto que havia dado providências para que “naquele ponto serem recebidos os colonos, proporcionando-lhes alimento e transportes, visto ter a câmara municipal de Taquari mandado melhorar o pique [a via de acesso] existente para o trânsito a cavalo, da moradia do cidadão Cruz à mesma colônia de Monte Alverne”. É importante lembrar que a colônia é dirigida por um “funcionário público” – portanto, pago com recursos governamentais –, que, no caso, em 1861, era o agrimensor Carlos Sceverin.

**Sem falar nos indígenas de inúmeras procedências que estiveram estabelecidos na região desde, pelo menos, cinco mil anos atrás. Em terras que seriam e são hoje Monte Alverne, conforme o professor Jorge Cunha, houve, inclusive, até os primeiros anos dos assentamentos dos colonos europeus a partir de 1849, uma área de quase 1000 hectares pertencentes aos índios de origem missioneira da aldeia rio-pardense de São Nicolau. Os indígenas exploravam os ervais, tirando daí a sua subsistência. A ganância de alguns “bem relacionados”, com a valorização da área, acarretou a espoliação destas terras, que, a princípio, foram designadas aos indígenas pelo próprio governo provincial.

***No “Relatório do Presidente da Província”, de 1859, ou seja, apenas uma década após o assentamento dos primeiros agricultores de origem germânica na região de Santa Cruz do Sul, é mencionada a composição populacional da colônia: “Considerando os colonos em relação à sua naturalidade, vemos: nacionais 664; alemães 2.040; argentinos 1; dinamarqueses 2; flamengos 6 [provavelmente, refere-se a holandeses]; franceses 6; portugueses 4.” Ou seja, mais de 25% da população santa-cruzense da época não é natural da Alemanha (melhor dizendo, do que veio, mais tarde, a se configurar como o país Alemanha). Novamente, ponderamos que entre os 664 nacionais, pode haver teuto-descendentes e outros migrantes de várias regiões da província e do império. O que ressaltamos é a diversidade de procedências das pessoas, sendo, no mínimo, uma ingênua ignorância pensar-se que houve uma completa homogeneidade “racial”, étnica e cultural na época da colonização. Em cada comunidade, produz-se uma síntese a partir de diversas “tradições” trazidas e presentes. A “oktoberfestização” do passado santa-cruzense, pasteurizando a diversidade e complexidade socioculturais, é uma invenção muito recente.

****A rigor, não havia “alemães, porque, como se disse, não havia o país Alemanha durante boa parte do período da saída dos emigrantes que vieram aqui para o Rio Grande do Sul no século XIX. Considere-se, também, que a unificação comandada pela Prússia não foi algo que se deu de súbito e tranqüilamente. Foi um processo onde não faltaram conflitos.




Começo da colonização alemã no RS: lá estão os negros trabalhando

Não raro somos acometidos de uma espécie de cegueira. Acredito que ela seja derivada de condicionamentos mentais que, entre outras coisas, fazem desaparecer em nossa “visão” certos “detalhes”. Um exemplo: Há anos conheço um quadro famoso que reproduz a chegada dos primeiros imigrantes germânicos em São Leopoldo, “berço da colonização alemã no Rio Grande do Sul”. A pintura é de Ernst Zeuner, artista gráfico alemão radicado em Porto Alegre nos anos de 1950. Vi esta imagem reproduzida em muitos lugares. O último deles foi em um cartão postal, que traz a versão da artista Marga Glauche, que recentemente expôs esta sua obra na mostra alusiva aos 180 anos da imigração alemã, realizada aqui em Santa Cruz do Sul em torno da 20ª Oktoberfest.

De súbito, quase com espanto, numa espécie de “iluminação”, revela-se na paisagem que vejo naquele cartão postal um homem negro, de camisa branca e calças marrom, manobrando um barco com uma grande vara. Ele parece ter conduzido aquela gente postadas na margem do Rio dos Sinos, com toda as suas bagagens. Dou-me conta, por minhas leituras anteriores, que tal pessoa, mesmo considerando-a ficcionalmente, seria uma das centenas de escravos a serviço do governo ou de particulares que moravam e labutavam na região à época*. Possivelmente estava na província gaúcha há muito tempo, e agora lhe coube a tarefa de transportar aquelas famílias que recentemente atravessaram o Atlântico.

Embora em primeiro plano, este homem de pele escura e traços inconfundíveis (incluindo a vestimenta) dados pelo pintor, identificando-o, assim, como um negro, é quase um adereço para contar a história daqueles brancos, muito brancos, que agora, em sua desesperada jornada por uma vida longe da miséria européia, e contando com os recursos públicos do Império do Brasil**, estavam sendo trazido à antiga propriedade governamental tocada por escravos – a Real (depois Imperial) Feitoria do Linho Cânhamo. Aquele trabalhador – sim, ele está trabalhando! – é quase uma árvore na paisagem retratada; um elemento cenográfico da “grande saga” protagonizada por um outro grupo de humanos, que receberam uma dignidade (mesmo que justa) tão acachapante, que toldou nossos olhos para esse contingente étnico que ao longo da história (e na consideração historiográfica derivada) foram tratados como bestas, como coisas, como inferiores, como se não fossem humanos ou uma “sub-raça” – ideologia que, infelizmente, não se dissipou e ainda determina a estruturação social em todo o Brasil.

Foi assim que tive “provas”, por experiência própria, de como age a invisibilidade. Num quadro! Numa pintura! Num “retrato”! Mesmo que explícitas, certas informações são contornadas ou sub-projetadas, de forma que “desapareçam” por força de uma focalização tão intensa em determinados pontos, que chegam a ofuscar outros vários. A obra de Zeuner, relida por Glauche, é uma “admissão” da presença negra nas zonas de colonização alemã. Os ditos “pioneiros” da colonização, na verdade chegam em 1824 (e depois permanecem convivendo até hoje) em São Leopoldo conduzidos por gente de um povo cujos sofrimentos, cujo suor, cuja importância e nobreza não foram destruídas, apesar de muitíssimos esforços em contrário.


*Conforme Aurélio Porto, no livro O trabalho alemão no Rio Grande do Sul, no inventário dos bens Feitoria – extinta em 31 de março de 1824, através de uma portaria do governo imperial, que anunciava ao mesmo tempo a criação do assentamento de colonos germânicos naquela localidade –, constam 321 escravos, “que foram remetidos ao Rio de Janeiro, para onde anteriormente já haviam ido outros 334”. Ou seja, são centenas de negros e negras trabalhando sob a tutela do governo no período da chegada dos imigrantes. Soma-se a estes os escravos pertencentes a proprietários luso-descendentes estabelecidos na região, além de libertos e aquilombados. Todo esta “mão de obra”, além dos desgarrados, parece ser desconsiderada, e o trabalhador que passa a ser considerado como “verdadeiro”, como “pioneiro” é o de pele branca...

**Mesmo vendo frustrarem-se muitas promessas feita por agenciadores “oficiais”, Porto, na mesma obra já citada, afirma que os primeiros imigrantes destinados à colônia estabelecida na antiga Feitoria receberam subsídios governamentais, como o oficializado por documento de 21 de julho de 1826, onde concede-se o pagamento das passagens do navio transatlântico, auxílio diário de 160 reis e entrega gratuita 160 mil braças quadradas de terra.

***Contrariando a idéia de que os imigrantes alemães – ou melhor, de regiões que seriam a Alemanha décadas depois de 1824 – eram, mesmo que pobres e humildes, em sua totalidade pessoas “qualificadas”, “gente de bem” etc., o autor de O trabalho alemão no Rio Grande do Sul diz que Jorge Antônio de Schaefer, designado pelo governo imperial como recrutador de colonos, “fizera embarcar dezenas de criminosos, assassinos e ladrões, tirados das cadeias de Macklenburgo, que eram levados para bordo [do navio Wilhelmine, em fevereiro de 1825] ainda com as algemas nos pulsos”. Aurélio Porto cita Eduardo Teodoro Boesch, que acompanhou a travessia desta mesma leva, tendo publicado um livro em Hamburgo por volta de 1835. Boesch escreveu sobre seus próprios “compatriotas”: “Tremi ao avistar aquela gentalha rota [...] cuja atitude trazia o cunho da rudeza e da bestialidade animais. Estava bêbada a maior parte desses maltrapilhos vagabundos”.




Camões e caboclos

Um Português muito antigo continua presente em falares de muita gente no Brasil e também em outras regiões lusófonas espalhadas pelo mundo. Aqui em nosso país, este falar, que revela uma permanência de elementos do idioma da época de Camões – ou até antes do tempo de vida do autor de Os Lusíadas – quase sempre é confundida com “falta de cultura”, no sentido de “carência de conhecimentos”.

Assim é que “nós, os cultos”, cheios de classeocentrimo, encaramos com um sorriso superior e desdenhoso ou mesmo nos escandalizamos ostensivamente quando ouvimos alguém dizer “carça” ao invés de “calça”, “bassoura” ao invés de “vassoura”, “bamo” ao invés de “vamos”, “mió” ao invés de “melhor” e várias outras tantas palavras ainda usuais. Julgamos, “nós, os esclarecidos”, estarmos diante de “gente ignorante”, que “não sabe falar corretamente”. Talvez se, de fato, tivéssemos conhecimentos mais vastos e um respeito humano maior, poderíamos ponderar que, antes de “erros”, estamos diante de formas de falar o Português (um dialeto ou semi-dialeto) que mantém laços com os falares antiguíssimos, trazidos pelos primeiros lusitanos que ocuparam o território brasileiro; resquícios de um modo de falar que já foi dominante e permaneceu conservado em determinadas comunidades em nosso país.

Acontece que as pessoas (enquanto grupo ou individualmente) que se usam de um vocabulário com tais “arcadismos” são seguidamente objetos de preconceito, que leva à discriminação. Piadas e gozações humilhantes são a demonstração e, ao mesmo tempo, um meio de difusão e reforço à exclusão do caboclo e do “vileiro”, ambos personagens segregados na periferia urbana brasileira.

O padrão dito “culto” do Português deriva de um processo, em última instância, baseado em arbitrariedades de quem, historicamente, detém o poder político-econômico – e não de alguma “inteligência mais elevada”. Ou seja, se falar “carça”, “bassoura”, “bamo”, “mió” não significa “inferioridade mental”, mas, simplesmente, a manutenção de traços lingüísticos com origens lá no Latim – o idioma trazido pelos soldados romanos já no século III a.C para a Península Ibérica, e que, em combinações múltiplas e complexas ao longo da história, veio a dar no Português de hoje, que, como língua viva, não parou nem vai parar de alterar-se na interação com diversos fatores da contemporaneidade.

Enfim, os falares “sertanejos”, “interioranos”, “caboclos”, “serranos”, “dos pobres”, “dos incultos” são variantes que deveriam ser mais estudadas, e não desprezadas como se fossem excrescências, subprodutos, lixos lingüísticos inaproveitáveis. Ao contrário: são, como já foi dito, permanências – do Português arcaico, como é chamado pelos estudiosos – que, por tradições culturais localizadas ou/e pelo isolamento geográfico, social e econômico de certas populações, manifestam a rica diversidade brasileira, e também de outros lugares do planeta, que usam “a última flor de Lácio” (como diz o poema de Olavo Billac, se referindo ao Português, uma língua com raízes na região central da atual Itália) com instrumento de comunicação.


*Num texto da primeira metade do século XV, a Crônica de D. Fernando, lê-se palavras grafadas exatamente assim: poboo ao invés de povo (o que era “b” virou “v”, como no caso de vassoura, que muitos ainda dizem “bassoura”); senssivees ao invés de sensíveis; fremosa ao invés de formosa; acreçentamento ao invés de acréscimo; comsselhou ao invés de aconselhou, etc.

**Li no Caderno de Cultura de ZH (26/02/05) a entrevista com o diretor do filme Língua, Victor Lopes. É sobre o Português falado em diversos lugares do planeta. “Toda noite, 200 milhões de pessoas sonham em Português”, diz o moço nascido em Moçambique (mas de nacionalidade portuguesa e radicada no Brasil há 28 anos – ele tem 41). Lopes também diz que é uma “relação de afeto” que faz uma língua sobreviver, mesmo sendo uma “entidade mutante”. Pela diversidade de comunidades lusófonas espalhadas por todos os continentes, Lopes afirma que “a língua portuguesa continua um grande laboratório da troca entre pessoas de culturas variadas”, completando: “O Brasil é um universo em si e a maneira como a língua é falada aqui também. O português mais bonito para mim é do Nordeste. Fico absolutamente fascinado porque mesmo os analfabetos usam a língua de uma maneira tão rica, tão forte: falam corretamente, misturam português arcaico com elementos africanos e gírias contemporâneas. É muito bonito.” Dizem que o filme nos faz observar a importância e complexidade gramatical, histórica, cultural e até geográfica do Português; faz-nos sentir “apaixonado[s], encantado[s] pela língua portuguesa”. Lopez assevera: “Brasileiro tem mania de subestimar sua língua, de achar que o inglês é mais importante”.

***No livro O que é o português brasileiro, o autor, Hildo H. do Couto, lingüista e professor da UnB, propõe uma comparação entre três frases grafadas no chamado “português culto”, no “português caboclo” e em inglês. Respectivamente: “Todas as meninas pequenas chegaram atrasadas”; “As menina pequena chegô tudo atrasado” e “All the young little girls arrived late”. Após esclarecer que a variante cabocla nada mais é de que um desenvolvimento particular da língua portuguesa e não algum tipo de aberração, diz que a frase é perfeita “do ponto de vista da informação a ser transmitida”. O lingüista destaca que “a frase culta informa seis vezes (em todas as palavras) que se trata de mais de um (plural), e cinco vezes “que se trata de ser do sexo feminino”. Sem esta profusão de indicações de número plural e ser feminino, Couto pergunta: “quem ousaria dizer que a frase cabocla não informa tudo que a culta informa?” A seguir, compara a frase equivalente em inglês (anotada acima) com as variantes “culta” e “cabocla”, concluindo que o a fala característica de regiões interioranas do Brasil se aproxima muito mais da língua mais “chique” e internacional do mundo contemporâneo. Encerra o seu raciocínio dizendo que “o conceito de ‘bom’, ‘correto’, ‘superior’ e outros semelhantes não são absolutos, mas relativos a contextos”.




Santa Cruz com cheiro de bacalhau já em 1854 (1ª parte)

Tempos atrás, a propósito de um debate entre amigos sobre características das cidades da região, aproveitei para mencionar uma reportagem que saiu na imprensa local em março deste ano falando sobre os 150 anos da demarcação do núcleo urbano de Santa Cruz do Sul. Como já se tornou praxe, a autoridade consultada pelos repórteres foi o arquiteto e professor Ronaldo Wink, que, de fato, tem um importante trabalho sobre o processo de urbanização no município, incluindo um ótimo livro com parte de seus estudos.

O tom – também como costumeiramente acontece neste tipo de reportagem “histórica” – era grandiloqüente e ufanista. O texto falava que "Santa Cruz já nasceu moderna", com uma "estrutura quadriculada peculiar a grandes centros urbanos", "a exemplo de cidades como Nova York e Buenos Aires". E assim vai.

Mas acontece logo adiante uma "falha na Matrix" da concepção monoétnica da história santa-cruzense: o repórter registrou que, "curiosamente" (observe-se o espanto expresso na palavra “curiosamente”), a estruturação "não era um modelo adotado na Alemanha. Lá os povoados se criavam de forma espontânea, a partir de aglomerados", finalizando que Santa Cruz foi planejada "de acordo com as normas coloniais portuguesas"...

O que não foi dito na reportagem referida é que o Faxinal do João Faria, onde hoje está a cidade, já era habitado há décadas pela parentela do sesmeiro João Faria da Rosa (de onde vem o antigo nome da hoje cidade de Santa Cruz do Sul), seus agregados e escravos, além, muito provavelmente, de foragidos, aquilombados e a “bugrada” que circulava e se assentava pelas bandas. Ou seja, não era um vazio a área de 953 hectares desapropriada, projetada como entreposto estratégico e urbanizada por conta do governo provincial. Fora os terrenos destinados a edificações e espaços públicos, centenas de lotes foram concedidos a particulares (a maioria com sobrenomes tipicamente lusos), muitos deles – e isso o repórter menciona – para colonos de origem germânica, já migrando para outro meio, e assim também usufruindo de mais uma benesse estatal (além do já recebido como subsídio direto e indireto aos assentados europeus no decorrer do século XIX).

Para reforçar o lusitanismo da formatação urbana de Santa Cruz, registre-se que os trabalhos de demarcação e documentação (mapas) da área, iniciados em novembro de 1854 são realizados pelo capitão Francisco Cândido Menezes, auxiliado por José Luís Teixeira Lima – nomes e sobrenomes que indicam sobremaneira a origem étnica dos gajos. A propósito, no livro O urbanismo Português: séculos XIII-XVIII/Portugal-Brasil (editado em Portugal) fica reforçada a evidência da inserção de Santa Cruz do Sul num projeto de urbanização/ocupação territorial de raízes lusitanas, adotado nos anos de 1700, e “herdados” pelos governos brasileiros já no período pós-colonial.




Santa Cruz com cheiro de bacalhau já em 1854 (final)

Na página 226 da obra O urbanismo Português: séculos XIII-XVIII/Portugal-Brasil é dito que “A maior parte das vilas e cidades brasileiras do século XVIII têm por base uma quadrícula ortogonal regular e organizam-se em torno de uma praça, quadrada ou rectangular, localizada centralmente. É sobre esta estrutura ortogonal e a partir da praça que se define o traçado das ruas e a estrutura dos quarteirões, também de forma quadrada ou rectangular.” Segue adiante: “A associação da formosura da cidade à regularidade do traçado [...] são expressão da influência de princípios renascentistas na concepção dos traçados destas cidades” adotados pelo governo de Portugal da época, seja na metrópole, seja em suas colônias, o que inclui o Brasil e países do continente africano.

Irton Marx em seu livro sobre a “República do Pampa” fala que a disposição do casario em Rio Pardo demonstraria, em suma, a “inferioridade da origem lusa”, em contraposição ao ordenamento de Santa Cruz, revelando assim, mais uma vez, o quanto à limitação de informações pode levar a argumentações estapafúrdias.

Mencionei tal equívoco num outro pequeno texto onde aludi que, segundo a professora de arquitetura Maria da Graça Sebbem, em seu artigo A corrente imigratória alemã e a formação urbana – após analisar as características das aldeias alemãs donde vieram os imigrantes e os assentamentos aqui no Estado, destacando Santa Cruz, Venâncio Aires, São Leopoldo, Novo Hamburgo e outros – ela conclui que “as colônias [a ocupação territorial no meio rural] alemãs do RS foram planejadas por técnicos de origem lusa, baseadas na concepção da cultura lusitana”. No último parágrafo arremata: “a forma das cidades [os assentamentos urbanos] de imigração alemã no RS herdaram poucas influências (ou nenhuma) das cidades alemãs de onde vieram os imigrantes”.

Obviamente, “Cheiro de bacalhau”, o título deste breve texto, é só para falar com bom humor da multiplicidade de influências que se consubstanciam numa comunidade. Mais que somente do chucrute, Santa Cruz do Sul é bafejada por múltiplos aromas, embora alguns teimem em sempre requentar a mesma insossa e insubstancial sopa de pacotinho com o prazo de validade há muito vencido...

Iuri J. Azeredo – Membro do Grupo de Trabalho pela Promoção da Comunidade Negra em Santa Cruz




Kaingang em Santa Cruz: antes, durante e depois dos imigrantes (1ª parte)

Afonso Mabilde, ou melhor, Pierre François Alphonse Booth Mabilde, nascido na Bélgica em 1802 e falecido em São Leopoldo em 1892, foi um importante administrador e engenheiro na zona de colonização alemã no Rio Grande do Sul. Atuou na instalação de vários assentamentos agrícolas de imigrantes no século XIX, incluindo o que hoje é a cidade de Vera Cruz – que, aliás, oficializou o belga, naturalizado brasileiro, como o seu fundador.

Mas o mais notável em Mabilde, sob o meu olhar, foi o seu intenso interesse em relação aos povos indígenas do Estado. Detalhou o modo de vida dos coroados, hoje conhecidos como kaingang. Mesmo repleto de etnocentrismo, próprio de um europeu do século retrasado, o conjunto de seus relatos e estudos reunidos no livro Apontamentos sobre os indígenas selvagens da nação Coroados dos matos da Província do Rio Grande Do Sul, publicado em 1983 pela Instituição Brasileira de Difusão Cultural, é de grande importância para se conhecer com maior profundidade um dos grupos silvícolas que resistiu ao seu (quase) extermínio – provocado pela ocupação avassaladora do território por parte dos “brancos”.

Baseados em uma dieta de pinhões, os coroados se notabilizavam pela excelente saúde e resistência ao frio. Mabilde conta que, em pleno inverno sul-rio-grandense, mantinham-se praticamente nus e sem sinal algum de padecimento físico.

A acuidade de sentidos (visão, em especial) e espantoso conhecimento da mata, deixavam o engenheiro e etnólogo diletante impressionadíssimo, assim como a habilidade incomparável daquela gente com os materiais florestais na produção de instrumentos como arcos e flechas perfeitos e eficientes.

A frugalidade esboçava-se não só na alimentação praticamente sem carne (inclusive de peixe) e apenas com produtos de coleta da floresta (as araucárias eram imprescindíveis a eles), mas também em suas habitações construídas com técnica suficiente apenas para atender a itinerância do modus vivendi dos coroados de então. Assim, a dominação da área justificava-se para a garantia da subsistência do grupo, que circulava por uma grande região. Tal nomadismo, observe-se, muitas vezes é alegado para negar-lhes o direito sobre terras, apelando-se para a visão européia, tida como “superior”, impondo-se despoticamente aos povos indígenas um “respeito aos valores”, a “leis” e outros códigos sociais “estrangeiros”.




Kaingang em Santa Cruz: antes, durante e depois dos imigrantes (final)

A obra do Afonso Mabilde (1802-1892) – Apontamentos sobre os indígenas selvagens da nação Coroados dos matos da Província do Rio Grande Do Sul – também é interessante para ressaltar que havia, sim, na região de Santa Cruz do Sul a presença dos “antigos kaingangs”. Uma eloqüente informação está no prefácio, onde o vetusto historiador gaúcho, Guilhermino César, diz que o engenheiro, “achando-se na região de Santa Cruz [provavelmente entre 1860 e 1870], ocupado com os trabalhos de abertura de estrada, foi [...] surpreendido por um grupo de selvagens [coroados], que o prenderam”, tendo durado “mais de dois anos o seu cativeiro”, aproveitando a situação para coligir inúmeras informações sobre a existência daquele grupo naquele tempo, e ainda resistindo ao avanço “a ferro e fogo” da colonização européia que estava em curso – empreitada iniciada já no século XVII por jesuítas espanhóis nas reduções no Vale do Rio Pardo (dispersada pelo bandeirante Raposo Tavares, preador de índios para a escravidão), proseguindo-se com a ocupação lusitana (século XVIII) acompanhada de povos e descendentes de africanos, intensificando-se a partir da introdução dos primeiros imigrantes germânicos, que chegam ao povoado do Faxinal do João Faria, futuro município de Santa Cruz, em dezembro de 1849.

Infelizmente, a dizimação da população de coroados/kaingang foi dramática. Mas elementos de sua cultura, incluindo seus conhecimentos técnicos – como pode nos fazer intuir a leitura do supracitado livro – estão incorporados quase de forma impercetível na sociedade de hoje. Mais que tudo, enquanto “brancos dominadores”, lhes “devemos” muitas reparações, em especial pela usurpação de seu território e aviltamento de suas vidas desde a chegada dos primeiros portugueses e espanhóis pela região.

Quando vemos, pelo centro da cidade de Santa Cruz do Sul, crianças, mães e outros adultos com inequívocas feições indiáticas buscando formas de sobreviver em meio a uma penúria indigna, não deveríamos, penso eu, tratá-los como “seres indesejáveis” – um tipo de incitamento cretino perpetrado seguidamente por lamentáveis neofascistas locais. Talvez muito mais “estrangeiros” sejamos nós, que até bandeiras de outros países contemporâneos (caso que acontece na Oktoberfest) ainda usamos para nos identificar num Brasil forjado na mestiçagem, mas que não se livrou da arrogância eurocêntrica e do racismo dirigido às pessoas de pele mais escura.




Nos 100 anos da Estação, lembremo-nos do trabalho negro

Como já foi amplamente divulgado, a Estação Férrea de Santa Cruz do Sul, cujo prédio ainda está erguido e abrigando o Centro Cultural Jornalista Francisco José Frantz (denominação em homenagem ao destacado intelectual e empreendedor da cidade), completará 100 anos no próximo dia 19 de novembro. Eis aí uma oportunidade excelente de, entre outras comemorações em torno da data e da importância da estação e do ramal férreos – caso da elevação à categoria de “cidade”, dada pelo então presidente da Província, Borges de Medeiros, na visita à “vila” na inauguração oficial das obras –, lembrarmos de algo pouquíssimo valorizado na história santa-cruzense: o trabalho dos negros, a sua presença e influência sociocultural e econômica nada desprezível no município e região.

Num pequeno artigo, publicado há três anos, já sublinhava que uma documentação das mais interessantes da historiografia local é uma fotografia referente ao ano de 1905, tirada no período da inauguração da estação e do ramal que estava ligando a vila à cidade de Rio Pardo, reproduzida no livro Recortes do Passado de Santa Cruz do Sul, coletânea de textos do pesquisador Hardy Martin, organizada pelo professor Olgário Vogt e publicada pela Edunisc em 1999. “Há pelo menos 20 negros aparecendo entre um número total de cerca de 150 pessoas. Notável também é que muitos daqueles negros empunham ferramentas, como pás, provavelmente usadas na abertura dos caminhos dos trilhos e construção da extinta estação de trens do município”, ressaltei naquele breve escrito.

Ou seja, os afrodescendentes são, sim, uma importante força de trabalho para Santa Cruz do Sul desde os seus primórdios urbanos. Mas antes mesmo da introdução dos imigrantes, no povoamento que se consubstanciou no Faxinal do João Faria, na abertura das primeiras estradas e picadas por onde foram conduzidos os primevos colonos alemães; do trabalho escravo de incontabilizados homens e mulheres negros explorados por vários proprietários – como indicam, por exemplo, os registros em torno de 1857 do, à época, diretor da colônia, João Buff –, além dos diversos quilombos nos recônditos do território santa-cruzense apontados nos estudos do renomado historiador Mário Maestri, são flagrantes de uma vertente étnica local quase sempre desconsiderada e pouquíssima estudada, forjando-se, assim, a invisibilidade de uma parcela importante da comunidade e subsidiando os mecanismos da odiosa e persistente discriminação racial.

Enfim, o caso da Estação Férrea, uma obra fundamental no desenvolvimento do município até pelo menos os primeiros anos de 1960, através da supracitada fotografia, registra a população negra colaborando e interagindo na formatação da cidade. Além de alemães, austríacos, holandeses, portugueses, entre outros grupos vindos da Europa e diversos pontos do próprio Brasil (até do Ceará!) que se assentaram “por estas bandas” a partir de meados do século XIX e início do XX, temos a participação dos povos originários da imensa África e seus inúmeros descendentes (incluindo a miríade de mestiços), que, literalmente, também colocaram “a mão na massa” para a construção de Santa Cruz do Sul.




Afundaram 35 navios brasileiros, matando mais de 1400 pessoas

O livro Corações sujos, do jornalista Fernando Morais – uma extensa reportagem escrita com maestria – fala sobre os imigrantes japoneses e seus descendentes no Brasil durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Entre a imensa colônia nipônica concentrada principalmente em São Paulo, fundou-se a Shindo Renmei, organização terrorista que assassinou várias pessoas atuantes nas comunidades nipo-brasileiras que “desonravam o Japão”, “espalhando boatos” de que o país do “Divino Imperador Hiroíto” havia perdido a guerra, seguindo a capitulação da Itália e Alemanha. Um fanatismo quase inacreditável.

A obra de Morais é excelente, entre outras razões, porque vem muito bem contextualizada. Seria impossível, aliás, compreender a ação da Shindo Renmei sem se referir ao que estava acontecendo no mundo. Assim, “de lambuja”, o leitor recebe alguns dados muito interessantes sobre este terrível conflito com desdobramentos planetários. Pela lista de entrevistados, arquivos consultados, bibliografia, créditos das ilustrações, entre outros elementos, se vê que é um trabalho exaustivo e que implicou muita gente. Ele agradece especialmente a historiadora Ângela da Costa e Antonio Ribeiro, dizendo que os mesmo já haviam colaborado nas pesquisas para outros dois “clássicos” deste consagrado escritor: os best-sellers Olga e Chatô.

Algo que me chamou a atenção foi o número das embarcações brasileiras afundados pelos alemães. Morais informa: “Ao todo, entre novembro de 1939 e julho de 1945, eles [os alemães] afundariam 32 navios mercantes e três vasos de guerra brasileiros, sacrificando um total de 1439 vidas, entre tripulantes, passageiros e militares – três vezes mais baixas que as sofridas pela Força Expedicionária Brasileira (FAB) na Itália.”

Os afundamentos, destruições, ferimentos e mortes iam sendo noticiados nos jornais e rádios do Brasil à época. À medida que a população recebia as informações, juntadas com as internacionais, formava-se um crescente clima de hostilidade em relação aos que se identificavam ou eram identificados como “alemães”, ou seja, os “inimigos cruéis”! Mesmo quem se sentia brasileiro, para além da teuto-descendência e longe de qualquer soberba ariana, não devia escapar ao escárnio raivoso que se consideravam os legítimos patriotas – ainda mais quando “a coisa” começou a degringolar para o lado das forças militares hitleristas.

Somando-se a “agressão à nação brasileira” através das embarcações posta a pique, confirmava-se que havia, sim, os famigerados “quinta colunas”. A espionagem nazi no Brasil era real. Morais, discorrendo sobre as desconfianças da polícia brasileira sobre a existência de arapongas japoneses, assevera: “Como a história se encarregaria de confirmar [...], a única colônia de ‘súditos do Eixo’ que de fato justificava vigilância rigorosa da polícia era a alemã. Ao contrário do que desconfiavam as autoridades paulistas, as informações sobre posições de navios brasileiros não eram transmitidas aos submarinos alemães pelos imigrantes japoneses, mas por uma monumental rede de espionagens montada pelo Reich alemão no Brasil. Apesar da má vontade de Filinto Müller [chefe de polícia do Distrito Federal, ‘germanófilo’, conforme as palavras de Moraes, cargo de confiança de Vargas e notório simpático às idéias hitleristas] com as investigações, um delegado do DOPS paulista, Elpídio Reali, acabaria contando com o apoio de Oswaldo Aranha [da ‘ala pró-Aliados’ dentro do governo Getúlio] para desbaratar o maior complexo de espionagem nazista no hemisfério sul. Poderosas estações de rádio instaladas pela Alemanha no Rio e em São Paulo, com decidido apoio de empresários alemães residente no Brasil, eram responsáveis pelas mensagens enviadas aos submarinos alemães”.


*Quando se debate situações referentes a determinados períodos do governo Vargas, quando houve várias restrições a manifestações consideradas “alienígenas”, seguidamente aparece o discurso de vitimização e “terceirização de culpas” por parte de saudosos mistificadores, que desconsideram o contexto e o processo social, político e histórico complexos em andamento naqueles tempos, mesmo em recônditas comunidades – o que não era o caso de Santa Cruz, que até sede local do Partido Nazista tinha desde 1933 no centro da cidade.




Um novo templo para uma Santa Cruz que se quer germânica

Com o seu prédio inaugurado solenemente em 1939, a imponência neogótica da atual catedral de Santa Cruz do Sul pode ser vista como uma afirmação do caráter germânico ideologicamente construído no município. A edificação anterior, que abrigou o primeiro templo católico santa-cruzense, foi inaugurada em 1863 (portanto, 76 anos antes) e localizava-se bem em frente ao atual templo, seguindo as linhas do que poderíamos chamar de “padrão luso”, derivado da herança estético-arquitetônica da colonização portuguesa, como ainda bem se vê em igrejas como as de Santo Amaro, Rio Pardo e até na do distrito local de Cerro Alegre.

Diferente dos protestantes, que vieram à região do Vale do Rio Pardo trazendo “de fora” (direto da região que depois se tornou a Alemanha) seus rituais e expressões religiosas (inclusive no molde dos templos, quando assim era possível), os católicos santa-cruzenses tinham o seu máximo monumento à fé cristã “demasiado brasileiro” para um grupo étnico que já havia alcançado a hegemonia econômica e política na comunidade e, ao que parece, queria demonstrar isto com veemência. Ou seja, a origem luso-brasileira estava ainda muito explícita em uma cidade que, a partir de certo momento, queria se caracterizar como “tipicamente alemã”. Ainda em outras palavras: o máximo templo da comunidade católica santa-cruzense transparecia a presença marcante da cultura de base lusitana em Santa Cruz do Sul, não mais condizente com o “espírito teuto” que dominava o município. Germanizar era preciso...

A nova igreja, erguida nos fundos da “velha”, não apenas estava substituindo o pesado prédio, cujo empreiteiro foi o inglês Guilherme Lewis, casado com a famosa Dona Carlota – uma das primeiras famílias a se estabelecer no povoado com suas simétricas ruas e logradouros recém demarcados (sob a direção do Capitão Tenente da Armada Francisco Candido de Castro Menezes). A majestade dada à nova edificação, desenhada pelo austríaco Simão Gramlich lá por 1925 (que acabou se impondo numa escolha conturbada, onde o primeiro lugar no concurso oficial ficou, na verdade, com o projeto em estilo barroco, característico da Itália e países latinos, do arquiteto Vitorino Zani), com suas duas pontiagudas torres de 80 metros, não apensas substituiu, mas suplantou de forma acachapante o templo católico dos primórdios do pequeno burgo projetado no modelo ortogonal pombalino (adjetivo derivado do famoso ministro do império português, o Marques de Pombal****), ofuscando, assim, as possibilidades de vislumbre de um passado onde os luso-descendentes – entre outras grupos étnicos e personalidades “não-alemãs” – tiveram um papel fundamental.

Ao ser derrubado, em 1940, o que restava do primeiro templo católico santa-cruzense, derrubava-se também mais um pouco dos registros históricos explícitos da multiculturalidade do município. Vai-se pouco a pouco constituindo simbolicamente a germanidade santa-cruzense, a ponto de tornar-se, cultural e politicamente, quase totalitária. Santa Cruz do Sul transfigura-se no imaginário, paulatina e deliberadamente, numa “pequena Alemanha”. E a catedral, erguida nos escombros do “arcaico” templo original “modelo luso-brasileiro”, torna-se por excelência o “cartão-postal” desta estereotipada “cidade ariana”.


*O texto acima não passam de algumas especulações que coloco como uma provocação intelectual positiva, problematizando a “história santa-cruzense”, a fim de alargar a visão sobre a constituição do nosso município, cuja complexidade formativa muitas vezes dá lugar a um folclorização calcada em uma etnofilia explícita; está muito longe de ser um estudo exaustivo, tratando-se, talvez, de reflexões preliminares calcados em algumas leituras, apresentadas de forma muito sintética e pessoal.

**“Etinização do espaço urbano santa-cruzense”. Este também poderia ser o título deste texto sobre o processo ocorrido com o principal templo católico e “símbolo municipal” santa-cruzense.

***Processo semelhante ocorreu ma tranformação do “Parque da Fenaf” (local para a realização da Festa Nacional do Fumo) em “Parque da Oktoberfest”. Fachadas e outros elementos do paisagismo foram alterados, “germanizando” o espaço (como a introdução de um mastro “típico em localidade alemãs” – embora não se tenha notícia de algum em comunidades de imigrantes assentados na região de Santa Cruz do Sul).

****Quando li aquele famigerado livro do Irton Marx, sobre a criação da “República do pampa”, ri muito das “ingenuidades” do “nosso” futuro vereador ou, quem sabe, prefeito de Santa Cruz do Sul. Numa das ilustrações, que “provavam” as diferenças entre a “desenvolvida” Santa Cruz e a “atrasada” Rio Pardo, estava a das ruas retilíneas da cidade germânica, contra o “caos lusitano” das vias e prédios rio-pardenses. E assim se ia o germanófilo tacanho em sua teoria tacanha e, sobretudo, contraditória. Escrevi um pouco sobre isso um tempão atrás e recebi muitos “elogios” de ferrenhos defensores das teses “irton-marxistas”. Lembrei disso neste fim de semana ao ler um artigo da revista Ágora (não confundir com a Agora), do Departamento de História e Geografia da Unisc. O artigo é da professora de arquitetura Maria da Graça Sebbem, com o título “A corrente imigratória alemã e a formação urbana”. Após analisar as características das aldeias alemãs donde vieram os imigrantes e os assentamentos aqui no Brasil, destacando Santa Cruz, Venâncio Aires, São Leopoldo, Novo Hamburgo e outros, ela conclui que “as colônias [a ocupação no meio rural] alemãs do RS foram planejadas por técnicos de origem lusa, baseadas na concepção da cultura lusitana. No último parágrafo arremata: “a forma das cidades [os assentamentos urbanos] de imigração alemã no RS herdaram poucas influências(ou nenhuma) das cidades alemãs de onde vieram os imigrantes.”

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Os sem-terra da Alemanha

Abaixo, seguem três pequenos trechos do volume 2 da obra História da vida privada no Brasil – Império: a corte e a modernidade nacional que podem nos dar pistas de como a imigração alemã é um fenômeno social complexo. Percebe-se, por exemplo, como a noção de pertencimento a uma “pátria Alemã” é muito mais uma fabricação posterior à chegada dos colonos no Brasil. Também aponta para o fato de que nem todos os “colonos” eram “genuinamente” agricultores. Muitos vinham de ocupações profissionais tipicamente urbano-industriais. Portanto, na hora de criticar a suposta desvinculação ao trabalho rural de alguns participantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, o diabolizado MST, é preciso dar uma olhada em como se deu esta que é uma peculiar “reforma agrária” européia a partir dos anos 20 do século XIX. É preciso lembrar, também, que o governo imperial brasileiro investiu muito dinheiro nestes “assentamentos” – foi uma verdadeira política pública efetivada, calcada quase sempre em fundamentos ideológicos racistas, ao manter a escravidão e optar pelo “branqueamento” através de imigrantes europeus.

Eis as passagens:

“Nas camadas mais modestas, existia uma Heimatlosigkeit (ausência do sentimento de pátria) estrutural, vivenciada como a não-propriedade do solo ([Grund] – Bezitslosigkeit), o que tornava alguém sem terra o mesmo que alguém sem pátria, com a conseqüente condição de desgarramento, ou ausência de sentimento comunitário. Emigrar surgia como a única alternativa para um dia se realizar o sonho de ser proprietário de um pedaço de chão.”

“(...) a emigração era a procura consciente de terra e liberdade. Essa conotação novamente se observa nas Canções do Imigrante: “Amerika, du freies Land [...] Europa bot nur Sclaverei” (América, terra livre [...] a Europa só nos oferece escravidão).”

“(...) aqueles [imigrantes] saídos do meio urbano, desalojados pela grande indústria desenvolvida na Alemanha a partir de 1870, passaram a compor um número significativo de imigrantes.” (p. 318-321)


Tenho me referido à imigração como uma política pública sustentada pelos governos brasileiros em especial ao longo do século XIX. Ou seja, há um planejamento e a aplicação de recursos estatais para que os assentamentos de colonos estrangeiros se estabeleçam e prosperem, embora todas as falhas, retrocessos e redefinições nessas deliberações. Voltando a um ponto da discussão anterior, há ainda “gente boa”, descendente de imigrantes, que costuma fazer um discurso reacionário, condenando o movimento pela reforma agrária porque “dão dinheiro a vagabundos”, sem notar, por ignorância (de ignorar), que seus antepassados, que possivelmente receberam vantagens especiais do Estado, literalmente “vagavam” numa sociedade européia que atirava milhões de pessoas à miséria mais medonha, a tal ponto que atravessar o oceano e se se emaranhar na mata subtropical brasileira acabava sendo a tábua de salvação.

No mesmo livro mencionado anteriormente – o volume 2 do História da vida privada no Brasil – Império: a corte e a modernidade nacional –, no capítulo “Caras e modos dos migrantes e imigrantes”, de L. F. de Alencastro e M. L. Renaux, há um outro detalhe interessante, referente a "ajuda religiosa", demonstrando a canalização de dinheiro público – não esquecendo que tais recursos eram gerados quase que completamente pela força de trabalho escrava, ou seja, por africanos ou/e afro-descendentes (que saíram do regime escravista numa situação de degradação humana que ainda não foi recuperada, reparada).

Diz assim:

“Por decreto de 1858, do governo do Império, o pastor Hesse foi contratado na Alemanha para servir em Blumenau. Durante os primeiros sete anos de estadia, foi pago pelo governo imperial, o que não era incomum nas paróquias evangélicas. O mesmo benefício fora concedido à colônia gaúcha de São Leopoldo, cujo primeiro pastor, que chegou ao lugar em 1824, também teve seu salário pago pelo império [...]. Ao governo da província de Santa Catarina, pediu-se ajuda para trazer da Alemanha um sacerdote católico. O auxílio oficial foi concedido, e em 1876 já se encontrava na região o padre Jacobs, natural da Renânia. Em Joinvelle, o governo provincial chegou a colaborar com a quantia de 10:000$000 para a construção do templo evangélico.” (p. 327-328)




Mais comentários

Na página nove da Gazeta do Sul do fim de semana passada (4-5/10/03), há a reportagem sobre o maibaum – um mastro "tradicional nas cidades da Alemanha, indica o potencial de cada comunidade". Bem, o que aprece neste "porta estandarte" são figuras que remetem unicamente à "germanidade" santa-cruzense, como se "isso" fosse todo o "potencial" da cidade... "Até hoje as ligações com a Alemanha continuam estreitas e aspectos culturais são constantemente importados". Ligações estreitas com a Alemanha? Aspectos culturais constantemente importados?" Meus deuses! Vejam o paradoxo: a "tradição alemã" é cada vez mais algo importado e que nunca existiu por aqui! O que resta de verdadeiramente original dos colonos germânicos da nossa região?

Outra reportagem interessante na mesma edição é a que fala sobre "jogos germânicos" (página 12). Logo após o título, é dito: "Modalidades mantêm a tradição dos antepassados". Mas a tal "tradição" fica um pouco maculada quando, logo a seguir, o repórter diz que há uma "inovação" em 2003, o "stockschiessen, importado da Alemanha [outro grifo meu] nesta teporada". É um jogo de bocha feito com discos. Na Alemanha se joga no gelo. Aqui, fizeram uma pista de concreto alisado...

Para não dizer que só falo dos alemães de Santa Cruz, vou mencionar uma coisinha sobre Rio Pardo, outra cidade que devoto grande curiosidade. Em outra reportagem da Gazeta do Sul é mostrado os resultados de uma restauração feita por uma arquiteta paulista num casarão que, comprado por outra paulista, estava caindo aos pedaços. Pela foto e descrição, a casa ficou muito bonita e confortável.

Mas o que quero mesmo é chamar a atenção de vocês para um "detalhe": ao falar do porão da casa de mais de 170 anos, a arquiteta diz, na transcrição do repórter, que "servia apenas como elemento estrutural para evitar a umidade, e, quando tinha alguma utilidade, era apenas como depósito de madeira ou para uso dos escravos"... Que coisa braba isso! Um lugar úmido, que só deixava de ser inútil quando virava "quarto" de negros, junto com os ratos, as baratas... Humilhações desse nível, que envolveram milhões de pessoas durante centenas de anos – trabalhando feito bicho, de graça –, até bem pouco tempo atrás, são impagáveis, mas precisam de reparações.




Invisibilidade

Na sexta-feira passada fomos a Candelária participar de uma reunião de trabalho na Secretaria de Educação da cidade. Na sala da secretária há um mapa com os distritos do município, as fronteiras e algumas outras referências geográficas. Pois há lá no município um distrito denominado Linha Quilombo, ou, simplesmente, Quilombo. Logo "acima" (no mapa) há a localidade de Alto Quilombo. Há também um Arroio Quilombo e, ainda, uma outra localização, na mesma região, conhecida como Barra do Quilombo, onde a escola se chama... Princesa Isabel – sim, a da Lei Áurea, que acabou oficialmente com a escravidão em 1888, após inúmeros movimentos de oposição à exploração negra, incluindo os inúmeros quilombos espalhados pelo país!

Toda essa região em Candelária – que fica na margem esquerda do Rio Pardo – faz divisa com o antigo distrito de Santa Cruz do Sul, Trombudo, hoje município de Vale do Sol. Ou seja, em plena zona de colonização alemã (e não dá pra esquecer, além, que Candelária se chamava, antes da emancipação, de Vila Germânia), temos esta "coleção" de topônimos vinculados a uma designação tradicional de comunidades negras no Brasil.

Mas talvez o mais incrível de tudo é que essa relação de localizações com uma denominação explicitamente relacionada ao povo negro nem é percebida. Pessoas ligadas “intimamente” à educação e à cultura em Candelária, por exemplo, demonstraram uma sincera surpresa quando eu mencionei, a título de uma pequena observação, tal “curiosidade”. Jamais haviam pensado no assunto! A invisibilidade dos negros é tanta e tamanha que, mesmo com as evidências indicadas pela palavra “quilombo” em identificações de vários pontos no município, não se nota e nem se considera a flagrante inserção da população negra no processo sócio-histórico na região.

*A visita em Candelária (RS) foi em 19 de dezembro de 2003.




Expressões racistas

Em uma viagem com alguns amigos fiquei a pensar: há expressões racistas que nem nos tocamos ao usá-las cotidianamente. Mesmo entre pessoas “politicamente correta", que organizam seminários para discutir a "horrível discriminação", mesmo entre “gente consciente” não é comum o uso de expressões que reforçam idéias pra lá de preconceituosas.

Dois exemplos dessas expressões:

"Eles que são brancos, que se entendam!". O que se está dizendo com isso? Que, como são pessoas brancas, portanto civilizadas, podem perfeitamente se entender e chegarem a algum acordo sensato e proveitoso para ambos ou todos os (brancos) envolvidos. Caso fossem negros, não haveria tal possibilidade, já que são "selvagens", intelectualmente prejudicados, com uma genética que lhes predispõe à violência; são incapazes de uma atitude racional, ponderada e frutífera. "Eles que são pretos, que se esfolem!", poderia ser a expressão adapatada aos “de cor”.

A outra "inocente" expressão, carregada de uma arrogância imbecil: "Eu sou branco e franco!". É uma lógica: como sou branco ("Você está vendo, evidentemente!"), sou, necessariamente, franco, verdadeiro, fidedigno, confiável, correto. Se tivesse uma epiderme mais escura, combinado com outros traços "característicos" (nariz, cabelo, lábios, ginga corporal etc.), isso não seria possível. Ficaria assim: "Eu sou preto e (então) dissimulado!"...

Mas que m. de sociedade racista esta brasileira, e que quer se apresentar como "Democracia Racial"!




Tradição inventada

A professora da Ufrgs, Sandra Jathay Pesavento, doutora em História, em um artigo (Caderno Porto & Vírgula, nº 3, Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre) sobre a passagem, em 1993, dos 100 anos da Revolução Federalista no Rio Grande do Sul – conhecida também como “A revolução da degola” – alude que o tal passagem é um “bom motivo para repensar a nossa identidade regional [gaúcha] e a construção da nossa história [gaúchas]”, perguntando se tal reflexão “não seria uma forma de comemorar o centenário [do conflito que se estendeu de 1893 a 1895]?”

No transcorrer de datas comemorativas como o Dia do Colono, Aniversário do Município e outras datas do “calendário histórico municipal” de Santa Cruz do Sul também poderíamos somar às festividades, momento de aprofundamento da compreensão e debate sobre o nosso passado santa-cruzense e do próprio “fazer histórico”.

Pesavento diz que “a história realiza uma ordenação e uma intrepretação do passado segundo os critérios do presente. Neste sentido, o historiador lida com a memória [...]”. Memória esta que é manipulável, ou seja, “reconstrução do passado visando determinado fins.” A professora esclarece: “Esta memória social, assim construída, implica em um processo seletivo, de textos e imagens, que ressalta certos dados e elimina ou desconsidera outros, como se não tivessem importância ou jamais tivessem existido.” Trata-se do “domínio das tradições inventadas (...), onde o reconhecimento e aprisionamento do passado pelo presente dão a chave privilegiada para o acesso a um determinado imaginário.”

A professora conclui, nesta parte do seu texto, que “Resgatando a memória, inventando o passado e atribuindo-lhe um significado, historiadores podem se constituir em artífice da construção de uma identidade, (...) uma coesão social, designando valores, pautando condutas e criando símbolos.” Ou seja, compõe-se um imaginário, sem que haja “necessidade as representações simbólicas tenham correspondência reflexa com o real. “Trabalhando com elementos tirados das condições históricas objetivas, eles são manipulados de acordo com intenções não necessariamente explícitas, mas que lidam com elementos de sonho e utopia. Afinal, a construção de uma identidade regional [ou municipal] procura recuperar elementos nobilizantes que configurem um quadro de tradições gloriosas, das quais todos se orgulham de partilhar e deter a herança”.




Capitão do Mato em Santa Cruz do Sul

Na semana que passou também houve duas coisas que me deixaram bem feliz. O primeiro foi ter conseguido, enfim, acesso a um livro chamado “Município de Santa Cruz”, publicado em 1914 por J. B. de Menezes (mas que, segundo o autor, estava pronto já por 1911, aguardando meios para a publicação). Vem a ser a grande referência bibliográfica da historiografia santa-cruzense. Não há quem escreva sobre Santa Cruz sem considerar a obra desse autor. Ele foi uma espécie de intelectual da cidade na época, secretário da intendência e conheceu na sua infância o neto do João de Faria Rosa, o sesmeiro que assentou-se no que hoje é a cidade de Santa Cruz do Sul pelo começo do século XIX, ou seja, bem antes da introdução dos colonos alemães.

Consegui o livro do Menezes com um amigo, que acabou de apresentar sua monografia de conclusão da graduação em História. O trabalho fala da invisibilidade população negra em Santa Cruz do Sul no século XIX. Vem a ser, pelo que tudo indica, o primeiro trabalho acadêmico de graduação abordando especificamente os africanos e descendentes nesse período (e em outros também!) mo município.

Até bem pouco tempo atrás se concebia que Santa Cruz era uma comunidade “completamente alemã”, sem “interferências” de outros grupos étnicos. Sinto-me orgulhoso em ter uma influência no trabalho do rapaz, abrindo esta pequena fenda nos estudos acadêmicos sobre a conformação ética local. Um “detalhe”: o meu amigo é negro – um dos raros que conseguem terminar o ensino superior aqui e no Brasil, e, mais ainda, em Santa Cruz.

Pode parecer sem maior importância esse trabalho de, digamos assim, desmistificação da história santa-cruzense – concebendo-a de um modo que incorpora outras etnias e personalidades com referências geográficas e culturais em “outros quadrantes” além da Alemanha. Mas eu acredito que a força socialmente excludente da “antiga” historiografia de Santa Cruz é uma tremenda violência – nos termos do socióogo Bordieu – e justifica uma “contra-narrativa”.


Um outro detalhe que acho interessante mencionar sobre o livro do Menezes: como falei, tive acesso a ele por meio do já citado amigo; ele, por sua vez, recebeu o livro de um professor, que lhe assegurou – mesmo já tendo lido a obra – que “não ia achar coisa alguma sobre negros”. Só que, já no início da brochura com mais de 300 páginas, Menezes menciona o “preto Joaquim, por alcunha Gaiola”, que morava no Faxinal Velho (hoje bairro, vizinho ao Arroio Grande) desde, pelo menos, meados de 1800. Joaquim, inclusive, recebeu um terreno na quadra “M” na então já demarcado núcleo urbano.

Numa cidade que alguns insistem dizer que não havia negros no passado, a figura de um capitão do mato chega ser espantosa. Como é sabido, a função deste “capitão” era a de “resgatar” escravos fugidos...

O fato é que se tem indicação de diversos quilombos em meio às matas e grotões do que veio a ser o município de Santa Cruz do Sul. Além dos libertos, que viviam em cantos, terras devolutas ou trabalhando para os vários proprietários lusos que estavam estabelecidos nas imediações do Faxinal do João de Faria.

A história santa-cruzense é bem mais complexa e pluricultural do que aquela que se forjou em hinos, monumentos, livros apologéticos etc. Os “alemães”, como sempre digo, são fundamentais, mas nunca estiveram sozinhos ou foram os únicos a constituírem o município. É uma estupidez insistir-se numa visão monoétnica.

*O texto se refere a meados de junho de 2003

**A propósito do entendimento do que seja “violência simbólica”, a professora Ondina Fachel Leal, no artigo A violência e as suas formas [em “A Televisão e a violência: Impacto sobre a criança e o adolescente”, 1998], diz que “é necessário observar que existem várias formas de violência e nem sempre a violência explícita, a violência física, é a forma mais perversa de violência. Todas as sociedades, em todos os tempos, cultivaram várias formas daquilo que nós, antropólogos, chamamos de violência simbólica, que pode ser definida como a internalização, por parte daquele que sofre a dominação da necessidade desta dominação e o reconhecimento de um papel necessariamente subalterno e passivo”. Para Bourdieu, “é esta força propriamente simbólica que permite a força exercer-se plenamente, fazendo-se desconhecer enquanto força e fazendo-se reconhecer, aprovar, aceitar, pelo fato de se apresentar sob a aparência de universalidade – a da razão e da moral”.)




O racismo como fundamento para a colonização germânica do Vale do Rio Pardo

Mesmo considerando que a “abolição” tenha ocorrido somente em 1888 – o que poderia servir de argumento para o não uso de afro-descendentes como colonos na ocupação de terras devolutas ou desapropriadas pelo Estado brasileiro (seja o provincial ou nacional) na região de Santa Cruz do Sul pela simples falta de indivíduos “livres” –, a existência de um contingente de negros já libertos da escravidão (evidente que não da chaga social e pessoal deste processo) e os seus diversos mestiços (também discriminados), já seriam, em termos numéricos, suficientes na região para iniciar a ocupação de “áreas ociosas” do Vale do Rio Pardo, dinamizando, assim, a economia regional, exatamente da mesma forma que se pretendia com os imigrantes brancos, notadamente os germânicos. Afinal, a experiência com os trabalhos rurais dos “pretos” vinha de uma longa tradição, quando os africanos foram trazidos como mão-de-obra, por exemplo, para a lavoura canavieira e para tantas outras tarefas próprias daquelas fazendas enormes.

E por que não se usou os negros e negras para esse fim? Ora, além da manutenção do regime escravocrata, seguindo as ideologias racistas, “embasadas” em certas cientificidades, a elite governante, de descendência lusa “pura”, “branca”, projetou e executou o seu plano de produzir, em sua concepção negrofóbica, o verdadeiro, duradouro e urgente “reerguimento” e desenvolvimento da nação – “maculada” pela negrura –através do branqueamento, subsidiando de diversas formas a introdução de europeus “arianos” ao longo do século XIX nas encostas do vale, penetrando a sua floresta subtropical a partir de 1824.

Assim temos o racismo como fundamentação para a opção de ocupação territorial através de imigrantes de origem germânica, com “o privilégio da pele branca”, como disse literalmente o médico e viajante alemão Robert Ave-Lallemant, em seu livro Viagem pela província do Rio Grande do Sul, e que esteve em Santa Cruz no começo de 1858. A pele negra ou amorenada, os traços africanos ou indiáticos, denunciavam a “congênita incompetência”, o “natural subdesenvolvimento” em todos os sentidos. Aqueles que através do seu trabalho durante séculos construiu as riquezas do país; aqueles cujo trabalho geravam os recursos do Estado, acabaram por “financiar” a imigração e o assentamento de colonos no Vale do Rio Pardo, sem merecer mais do que o histórico desprezo e uma caridade humilhante feita de migalhas.


*O título deste comentário também poderia ser “Imigrantes no Vale do Rio Pardo: pressupostos racistas para colonização alemã”. A introdução de colonizadores teutos em Santa Cruz do Sul está inserida em um contexto histórico muito específico, onde as elites governantes do município de Rio Pardo e da província sul-rio-grandense, raciocinavam e demandavam esforços para “branquear” a região e, de modo geral, o país. Baseados nas teses da hierarquia das “raças humanas” e da derivada concepção de inferioridade dos povos negros, o resultado é a ocupação do território por “arianos”, e não por índios, descendentes africanos e mestiços abundantes na região, com condições para ocupar lotes agrícolas – ainda mais considerando os subsídios governamentais, que implicaram, inclusive, na doação ou financiamento de terras, ferramentas, sementes, transporte etc. Com certeza, pesquisas em documentações de arquivos históricos – em especial de Rio Pardo, os discursos, os jornais, os registros em atas e despachos da administração municipal, da sua câmara de vereadores e em outras instituições – poderão revelar a extensão dessa perspectiva.




Trabalhadores negros financiam os imigrantes alemães

A promoção da imigração nos séculos XIX e começo do XX, conforme desvelam vários estudos, se dá, em especial, por força de uma concepção racista de desenvolvimento nacional. Baseados em teses que estabeleciam hierarquias de “raças”, punham os negros e mestiços nos mais baixos estratos de qualificações humanas. Para um país onde a população não-branca era a grande maioria, “justificando-se” assim os problemas brasileiros de todas as ordens, as elites portadoras da ideologia da “supremacia branca”, viram na vinda de europeus ocidentais, destacando-se os teutônicos, a forma de branquear o Brasil e assim “recuperar” e desenvolver positivamente a nação.

Move-se, então, muitos recursos para concretizar as colônias oficias pelos subsídios estatais. E de onde vem esse dinheiro em pleno regime escravocrata? Ora, vem do trabalho de milhares de negros e negras submetidos a mais ignóbil exploração econômica. Ou seja, é o trabalho dos africanos e seus descendentes escravizados (e até daqueles outros “livres” trabalhando nas rebarbas funcionais) que financiam a vinda, a instalação e a manutenção de imigrantes em colônias oficiais, caso de Santa Cruz e Monte Alverne.

Não se trata de menosprezar os “alemães”, mas de enquadrar a imigração numa perspectiva mais ampla, incorporando uma complexidade de fatores pouco refletidos, além de considerar, mesmo que indiretamente, a relação fundamental entre os grupos étnicos na formação da região – mesmo que dentro de uma hierarquia imposta pelas camadas políticas mais influentes.




Gente de carne e osso

O historiador Mário Maestri ao comentar o livro A cocanha, do escritor gaúcho José Clemente Pozenato, que fala da vida de imigrantes italianos da região de Caxias do Sul, diz que tal obra “supera as narrativas vitimárias e prometéicas das leituras étnico-apologéticas da colonização”. Tal avaliação me parece extremamente pertinente. Mais do que isso, acredito que essa visão crítica poderia muito bem ser transposta para os relatos históricos referentes aos imigrantes alemães (e de outras referências culturais e geográficas) e seus descendentes aqui no Vale do Rio Pardo.

O que se ganha com isso? Ora, uma humanização dos personagens envolvidos e possibilitando uma compreensão mais real do processo de construção da sociedade regional. Somos envolvidos numa mitificação, que deixa escapar a riqueza da complexidade dos fenômenos implicados na constituição de municípios como o de Santa Cruz do Sul.

Em nome de que ou de quem se pasteuriza a história e se transforma numa saga heróica protagonizada unicamente por “arianos” – o “loiro imigrante” e sua “bravura alemã”, como diz literalmente o hino santa-cruzense –, quando, na verdade, temos gente de carne osso, a maioria empobrecida, fugida de uma Europa convulsionada, com inapeláveis relações – diretas e indiretas – com outras pessoas de diversas procedências geográficas e referências culturais, mesmo que fincadas nos grotões mais ermos ou em proporção numérica menor?

A manutenção do “legado dos antepassados” não pode significar a simplificação das coisas. Simplificação esta que acaba por menosprezar grupos e personalidades fundamentais na construção da comunidade local.




Santa Cruz e Cachoeira do Sul

Uma cooperativa agrícola de Cachoeira do Sul, a Coriscal, que trabalha com diversos grãos, especialmente arroz, completou 60 anos, conforme a reportagem do Jornal do Povo (fevereiro de 2005). É uma longevidade respeitável para um empreendimento comercial, ainda mais com um caráter associativo. Fiquei pensando: Aqui na região de Santa Cruz, onde houve massiva colonização alemã, onde se imputa à "cultura germânica" um "forte viés associativo", são poucas as cooperativas que ainda resistem. Em Cachoeira, “terra de pelo-duro e negrada”, o arroz é a principal cultura há anos (daí o título "Capital Nacional do Arroz"), e existe uma cooperativa bastante sólida atuando ininterruptamente desde 1945. Em Santa Cruz, onde o fumo é o carro-chefe da economia, o domínio do beneficiamento (e, pode-se dizer, também do plantio e comercialização) está nas mãos de empresas privadas – quase todas de ou com capital estrangeiro. Não há hoje uma só cooperativa beneficiadora de tabaco funcionando na "Capital do Fumo". Se houve algumas iniciativas no passado, estão completamente destruídas pelo domínio das grandes empresas fumageiras e seus aparelhos de sustentação.

Não entendo o porquê de tanto orgulho e perorações em torno da "união", da "solidariedade" etc. entre "os imigrantes e seus descendentes" – um orgulho que chega ao ponto de pensar-se como exclusivo, singular, "próprio da raça", não existindo algo parecido entre comunidades com outras formações étnicas –, quando o que se vê é este completo aplastamento da economia local; esta submissão às empresas particulares, onde não se consegue erguer alternativa associativa alguma, que se contraponha um tiquinho que seja à lógica empresarial privatista.

Emendando no assunto: Outra baboseira é "a grande preocupação com a educação e a cultura da comunidade alemã, formadora de Santa Cruz". Só um dado pra ver o quanto há de “propaganda enganosa” e auto-consideração estapafúrdia: A primeira biblioteca pública santa-cruzense foi criada em 2001, ou seja, quatro anos atrás, quando eu já estava morando aqui em “Frankfurt do Sul”. E dezenas de prefeitos de sobrenomes alemães se sucederam na administração de Santa Cruz...Voltando a Cachoeira: Lá existe há décadas um museu e arquivo histórico públicos (além de biblioteca e outras instituições culturais) mantidos pelo município. Santa Cruz só tem museu e arquivo por iniciativa de um colégio particular e até hoje são instituições privadas.

*Outra notícia (“Jornal do Povo”, fevereiro de 2005) sobre uma outra cooperativa de Cachoeira do Sul que recortei do “Jornal do Povo” fala da Cooperativa de Eletrificação Centro Jacuí (Celetro). Mais uma vez, demonstra-se que a vitalidade dos empreendimentos associativos em comunidades sem a presença massiva de descendentes de colonos alemães é até maior do que, por exemplo, na "toda germânica" Santa Cruz. Detalhe: Na notícia mencionada, ao mesmo tempo que se vê a "virtude" de uma organização cooperativa, como a publicisação e existência de instâncias decisivas de caráter democrático (conselho fiscal, assembléia dos cooperativados etc.), se vê também a fragilidade desses mesmos mecanismos, quando 30 sócios podem decidir por quase 17 mil. De qualquer forma, a cooperativa permanece sendo um modelo, uma possibilidade que se soma ao "100% privado" e até ao estatal. **A propósito, ontem (fevereiro de 2005) visitei a Cooperfumo, cooperativa montada pelo MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores, que já tem um escritório no centro de Santa Cruz, e está ainda engatinhando em sua proposta de ser alternativa às tabacaleiras "clássicas". Na fala do coordenador que nos recebeu, mencionou que além do gigantismo das Dimon, Universal etc., impondo um fluxo da economia fumageira, esmagando iniciativas fora dessa "matrix", as experiências com cooperativas locais no passado na região deixaram a "colonada" ressabiada: calotes, quebradeiras e prejuízos – muito disso pela imperícia ou/e irresponsabilidade ou/e desonestidade dos gestores, que, sublinhe-se, não eram "brasileiros"...





Fantasmas

A forma com que os “humanitários” e “civilizadores” brancos se impuseram na África é um atestado de hipocrisia e, mais do que “simplesmente” isso, de uma extrema má-fé contra povos com uma concepção de mundo e organização social baseada em outros parâmetros, em uma outra cosmovisão. Num livro superinteressante, O fantasma do Rei Leopoldo (1999, Companhia das Letras ) – de Adam Hochschild, professor na Universidade da Califórnia – a cobiça por riquezas inexploradas no continente africano fica muito explícita na vontade de um monarca – o tal Leopoldo, “Rei dos Belgas”, que subiu ao trono em torno de 1865 – muito habilidoso em se apoderar da região em torno do rio Kongo.

Os “tratados” que os europeus convenciam os chefes tribais a “assinarem”, ou melhor, riscarem um xis ao final do calhamaço, já que, praticamente, desconheciam a língua e a forma de registro européias e, muito menos, o jargão da enrolação jurídica – outra normatização completamente alienígena, incompreensível aos africanos da região, que encaravam aquela situação – de estar riscando um papel cheio de arabescos – como um ritual de amizade, similar aos realizados entre os clãs e aldeias de lá. Mas, munidos daqueles papéis, os “civilizadores” se arrogavam no “direito comprovado” de fazerem o que bem entendessem numa imensidão de terras, rios, florestas, povoamentos. Até mesmo fuzilarem o “selvagem” que resistisse ao “trabalho digno”, aos “valores humanos” e à “verdadeira religião”.

O livro do professor Hochschild também pode nos levar a perceber que o liberalismo econômico pregado por países como os EUA é uma falácia tão grande quanto o “comunismo” da finada União Soviética. Liberdade de iniciativa parece algo muito bonito. Mas o que faz a riqueza concentrar-se em determinadas mãos é, quase sempre (ou sempre), uma feroz e mesquinha apropriação de recursos.

Num dos trechos da obra é dito que “[o carismático líder negro no Congo sob domínio belga, Patrice] Lumumba acreditava que a independência política não era suficiente para libertar a África de seu passado colonial; era preciso também que o continente deixasse de ser colonizado economicamente pela Europa. De imediato, soaram os alarmes nas capitais ocidentais. Corporações britânicas, belgas e americanas tinham vasto investimento no Congo, país rico em cobre, cobalto, diamante, ouro, estanho, manganês e zinco. [... A mensagem de Lumumba], temiam os governos ocidentais, era contagiosa. Pior ainda, não havia o que pudesse compra-lo. [...] Menos de dois meses após ser nomeado como primeiro chefe de Estado democraticamente escolhido do Congo, uma subcomissão para operações secretas do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, da qual participou o chefe da CIA, Allen Dulles, autorizou seu assassinato. [Diante de diversas dificuldades de mata-lo direta e imediatamente] a CIA optou por apoiar grupos contrários [a Lumumba] dentro do governo fragmentado do Congo, na esperança de que eles fizesse o trabalho. E assim foi. Depois de ser preso e sofrer uma série de espancamentos, Patrice Lumumba foi secretamente fuzilado em Elizabethville, em janeiro de 1961. Um agente da CIA acabou tendo de rodar a cidade com o corpo no porta-malas, tentando encontrar um lugar para deixá-lo [desová-lo].”

Seguiu-se um rapinante governo ditatorial de mais de três décadas, apoiado entusiasticamente pelos EUA. O testa-de-ferro, que seguiu a “escola” do rei belga, Leopoldo II, continuou uma exploração hedionda dos congoleses e dos recursos naturais de uma imensa região. Riquezas fantásticas foram transferidas à Europa ao custo de uma destruição de vidas incalculável.




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Acréscimos – textos elaborados em 2006.



Uma madame na selva

Há livros surpreendentes, não é mesmo? Sem se esperar muito, ou quase nada, acabam revelando pequenos tesouros. No caso, sobre a história e a sociedade da época das imigrações no Rio Grande do Sul, e até mesmo aqui da nossa região do Vale do Rio Pardo e Central do Estado, nos meados do século XIX. Estou falando das memórias de Madame van Langendonck, traduzida do francês como Uma colônia no Brasil.

Marie Barbe Antoinette Rutgeerts van Langendock, seu nome completo, veio da Bélgica em 1857, já com seus quase 60 anos. Após uma estada em Porto Alegre (onde voltará mais vezes), sobe o Rio Jacuí num lanchão, instalando-se primeiro em Santa Maria da Soledade, numa colônia nas terras concedidas a um tal Conde de Montravel.

Letrada, poetisa, traz neste seu escrito saboroso o “tom mais íntimo” reputado às escritoras mulheres, como é dito na resenha que consta nas orelhas da obra publicada em 2002 pela Edunisc e editora Mulheres. Poderia dizer que também há nas suas palavras uma clara auto-submissão patriarcal ao governo imperial brasileiro e uma dedicação aos filhos, a ponto da bajulante madame não se constranger em reivindicar favores aos seus rebentos por parte do “maior soberano que o céu jamais deu à terra”, se referindo a D. Pedro II.

Há várias passagens interessantíssimas que, como diz Augusto Meyer na introdução à narrativa – publicada originalmente em 1862 –, “em duas ou três penadas traçam todo um quadrinho social em flagrante”. Também revela, quase subitamente, uma visão nem sempre edificante para muitos grupos e personalidades, enquanto acaba ressaltando papéis costumeiramente subalternizados, quando não invisibilizados dentro da historiografia apologética (termo que pego emprestado do doutor em História, Prof. Mário Maestri) centrada nos imigrantes europeus.

Assim, Langendonck fala de negros, índios, mestiços que, mesmo em meio aos preconceitos variados da autora – por si só reveladores do pensamento então em vigor, devendo ser entendidos no contexto sociocultural da época – são indicadores da interação profunda com os grupos trazidos e vindos da Europa e que vão sendo assentados na região a partir de 1849, como aconteceu em Santa Cruz do Sul.

Há as tragédias da viagem em embarcações lotadas e pouco salubres que vêm ao Brasil, como quando uma jovem mãe é forçada a ceder o seu bebê de três meses recém falecido, para ser jogado ao mar num pacote, que, para aumentar o sofrimento de todos a bordo, permanece boiando alguns instantes terríveis, para depois ser arrastado pelas ondas do mar, onde ficará sepultado nas profundezas, como outras crianças que se seguirão ao longo dos meses de travessia do oceano.

Nestes navios, não viajavam apenas virtuosos trabalhadores rurais. Havia, como diz a belga, exemplificando com famílias suas conterrâneas, recrutadas na “populaça”, “os piores dessa escória”, saídos de “prisões e depósitos de mendigos”, “germes de todos os vícios da humanidade”, “amostras de toda a infâmia do velho mundo”. “Entre os colonos vindos da Alemanha, estavam ladrões, incendiários, assassinos. Quase todos eram indivíduos que haviam passado de quatro a doze anos na cadeia e com os quais tínhamos medo de nos encontrar nas florestas” (página 57), após o desembarque e início dos trabalhos na colônia, ressaltando que, da terra de Goethe, não vinham “apenas bandidos”, “muitos alemães são infatigáveis trabalhadores” – mas já colocando em definitivo, no painel historiográfico da imigração, uma dimensão de personalidades que não servem para ilibados heróis.

Perde-se em sentimentalismos passadistas glorificadores, mas ganha-se em fidedignidade e compreensão da complexidade social e humana envolvidas na formação das comunidades das zonas de (ou melhor, com) colonização européia. Eis um dos tantos lucros da leitura das aventuras e desventuras da Madame van Langendonck, morta em 1875 na região de Pelotas, após andanças pelo Rio de Janeiro, pela Europa (numa breve volta) e, novamente, o Brasil, a São Leopoldo já marcada pelos teuto-descendentes, e outras localidades do Estado gaúcho.




Ainda o ovo da serpente num trem para Berlim em 1965 (1ª parte)

Outra faceta interessante do jornalista e escritor Fausto Wolff – para mim que gosto de estudar e refletir sobre a identidade étnica, em especial dos imigrantes alemães e negros aqui no Vale do Rio Pardo e, mais especificamente ainda, nas bandas de Santa Cruz do Sul – é a abordagem desse autor sobre esses aspectos de conformação histórica e social que tanto nos afetam e implicam, mesmo que sem nos darmos conta.

Gaúcho descendente de alemães emigrados para o Rio Grande do Sul, a família de Wolff estabeleceu-se primeiro no interior de Santo Ângelo, como indicam as suas obras e referências biográficas alheias. Com todo o estereótipo “ariano” (loiro, alto, esbelto, etc.), incluindo o nome e sobrenome, Faustino Wolffenbüttel (donde deriva o pseudônimo Fausto Wolff), viveu as realidades da colônia rural de imigrantes teutônicos no Rio Grande do Sul; a de uma pequena cidade do Estado gaúcho, a Santo Ângelo dos anos de 1940; a de uma Porto Alegre dos 50, bairros proletários, inclusive; a de um boêmio Rio de Janeiro dos 60 e, por fim, do cosmopolitismo internacional na Dinamarca e Itália dos anos 70, quando a ditadura militar engrossou no Brasil e o jovem repórter, como já notório contestador, teve que se auto-exilar para não ser preso e até morto pela aparelhagem repressiva que se instalou no Brasil até 1985.

Conforme o conto O travesti, publicado no livro O nome de Deus: 10 histórias (Bertrand Brasil, 1999), sabe-se que Wolff conhece a Alemanha por volta de 1965, através de uma estadia naquele país – passando por Munique, Colônia, Bonn, Stuttgart, Hamburgo e Berlim –, a convite de uma organização que lhe estava apresentando o sistema televiso alemão, que, à época, totalmente estatizado. O jornalista, que havia trabalhado na revista O Cruzeiro e outras publicações cariocas e na imprensa porto-alegrense, onde iniciou sua carreira, acaba não tendo as melhores impressões sobre o povo alemão na ocasião.

A certa altura, o protagonista da história, que vem a ser, ao que tudo indica, conforme estou aludindo, o próprio Wolff, faz um desabafo: “A verdade é que eu estava saturado da Alemanha e dos alemães: da pontualidade, da falta de humor, do mal disfarçado orgulho, da mal disfarçada arrogância, dos assuntos que não podiam ser discutidos, mas que estavam enganchados em qualquer pedaço de ar”.

Que assuntos tabus eram esses? Veremos...

Wolff também revela logo adiante no texto que, em provável razão do seu perfil étnico, em desacordo com a mistificação de “país mestiço de lusos, negros e índios”, tinha um sentimento de “sentir-se estrangeiro no Brasil” – “mas, certamente, na Alemanha me sentia mais estrangeiro ainda”, conclui. Quer dizer, Wolff ou/e seu personagem não consegue(m) observar e sentir essa “identidade comum e fraternal” que muitos tentam estabelecer entre descendentes de emigrados germânicos na América do Sul e a população alemã contemporânea, como se fizessem parte de uma supra-territorial “pátria comum”.




Ainda o ovo da serpente num trem para Berlim em 1965 (final)

O ponto crítico da viagem narrada por Fausto Wolf através do conto O travesti é o acontecido no trem que seguia a Berlim, quando, por desatenção e cansaço, o protagonista dessa história (um conto de evidente conteúdo autobiográfico), entra em uma cabine da primeira classe, tendo um bilhete para a segunda. Percebido o equívoco pelo fiscal do comboio, instala-se um histérico tribunal de acusações entre os passageiros que também estavam naquela cabine. “Todos berravam ao mesmo tempo. Agiam como se eu houvesse cometido um crime horrendo”. Não suportando mais a cena, Wolff dá um passo para trás, bate os calcanhares, estende a mão aberta e grita “Arbeit Macht Frei!” – “o moto irônico e cruel que os nazistas haviam colocado na entrada de todos campos de concentração”, significando “O Trabalho Liberta”. A teatralidade faz seu efeito e de imediato as pessoas se calam, talvez percebendo a sua indignada ironia, lembrando àqueles súbitos revelados celerados a soberba, “a prepotência alemã no tempo do III Reich”.

O assunto que não podia ser discutido tinha tudo a ver com esta questão envolvendo a Segunda Guerra Mundial. Wolff observa intrigado os alemães com mais de cinqüenta anos que passam a sua frente (depois de ter dado uma desastrosa entrevista a um programa cultural, onde desagradou “judeus alemães, o entrevistador” e seu cicerone na ocasião, declarando “que deveriam ter instalado o Estado de Israel no Vale do Ruhr e não na Palestina”), perguntando-se: “Mas será possível que ninguém sabia de nada?” Das câmaras de gás, do sádico assassinato de crianças e velhos, das experiências mortais com cobaias humanas, etc?

Passaram-se duas décadas desde o fim do terror inominável da “Era Hitler”, mas a Alemanha (ou parcela da sua população), naqueles meados de 1960, parecia ter recuperado – ou mantido? (ao menos em parte) – uma tacanhice que embasou um conflito estúpido onde o sangue de milhões de seres humanos não parecia ter sido suficiente para deixar ao largo idéias cretinas de superioridade.

(No romance À mão esquerda, Wolff, através, também, de personagens e situações autobiográficas – como no conto O travesti, onde a abordagem é bem mais rápida, embora muito interessante –, traça um painel onde se inserem as questões dos teuto-brasileiros – como ele mesmo se reconhece –, retrocedendo num exercício ficcional-histórico à Alemanha medieval, passando pela colonização germânica no Rio Grande do Sul a partir de 1824, até o Brasil e o mundo contemporâneos, centrado nos anos de 1950 até meados de 1990.)




O feijão e o sonho em Rio Pardinho (1ª parte)

Há muitíssimas coisas interessantes no livro Memórias de Luis Panke, editado em 2005 pela Edunisc, traduzido do alemão (ou um dialeto, possivelmente) por Irma Lau e Eddhite Nuse, com apresentação do Prof. Olgário Vogt. Nascido em meados do século XIX, filho direto de emigrados da atual região da Alemanha, chegados a Rio Pardinho em 1853. Panke findou a narração de suas lembranças, reflexões, convicções e aconselhamentos – me parece que é assim que se estrutura o texto – em 1951, mesmo ano em que veio a falecer. Agricultor e empreendedor, foi um homem formado num luteranismo rígido, com laivos de teólogo cristão diletante e deslumbramentos místicos emocionantes.

De seu livro, de agradável leitura, quase um romance, depreende-se vários detalhes sobre as vivências dos imigrantes e descendentes, e da formação da comunidade, fruto de uma complexa interação entre planos de colonização dos governos brasileiro – imperial, provincial e municipal (Rio Pardo, diga-se) – e da situação da população norte-européia, enfrentando uma pobreza derivada da concentração de terras, desemprego, abusos de leis ditadas pela elite político-econômica.

Diferente das narrações apologéticas, Luis Panke revela que, embora a grande solidariedade e esforço coletivo pelo bem comum, havia conflitos quase indissolúveis no seio da comunidade de teuto-descendentes, caso da escola em Rio Pardinho baixo, quando da transferência de um professor: o memorialista escreve que “essa briga – que ia se agravando e dividiu até o coro da igreja – deixou cicatrizes; a comunidade nunca mais voltou a ser como antigamente.”

O contato com a Alemanha, através do fluxo de pastores vindos da Europa também é digno de um maior aprofundamento, a partir das informações dadas pelo autor; indica um vínculo persistente com a “pátria alemã”, incluindo os períodos dos conflitos mundiais. Panke fala, até, da prisão de um pastor durante o “tumulto da guerra”, referindo-se a Segunda Guerra Mundial – quando, por um lado, havia nas comunidades uma propaganda hitlerista notória e, por outro, arbitrariedades cretinas contra teuto-descendentes.

Também as canalhices de alguns sacerdotes não escapam do relato, caso, em 1921, de um pastor, que foi pego furtando direto da “caixinha de contribuições para ajudar os pobres”.

A paulatina destruição da floresta, incluindo sua flora e fauna exuberantes – onças, macacos, aves diversas, raposas, veados, javalis (que andavam em bandos), etc. – se pode acompanhar pelos escritos de Luis Panke, entre outros processos históricos que acontecem a partir da instalação dos colonos na região até o início dos anos de 1950 – mencionados às vezes muito rapidamente e também nas entrelinhas, exigindo do leitor uma atenção específica e conexões com informações prévias sobre a história regional e mundial.

Entretanto, o que mais me chamou a atenção foi a alimentação com feijão, sustentáculo para os imigrantes. Com certeza, foi fundamental nos primeiros anos de assentamento nos lotes, misturado ao toucinho e, também, à valiosa farinha de mandioca – itens fornecidos na provisão subsidiada pela administração pública provincial.




O feijão e o sonho em Rio Pardinho (final)

Em suas memórias (p. 55) publicadas pela Edunisc (2005), Luis Panke narra que já em Porto Alegre, na “Casa dos Imigrantes”, onde seu avô, tio e pai – entre outros vários recém emigrados com destino a Rio Pardinho – receberam panelas, baldes, canecas e os mantimentos mencionados, “uma pessoa fora indicada para mostrar-lhes tudo e explicar como cozinhar o feijão preto”, que poderia ser servido como pirão (mais “mole” ou mais “duro”, servindo-se, até, em “fatias”) e sopa, modificando-se a “tecnologia” de cozimento e uma pequena variação dos ingredientes (caso do uso da carne-seca, o charque gaúcho).

Perceba-se, assim, que a subsistência dos nossos colonizadores teutônicos era baseada numa dieta e culinária tipicamente brasileira, cabocla, miscigenada, derivada de plantas indígenas – o feijão e a mandioca – e com agregações das formas e meios de alimentação e cozimento dos lusos e afros-descendentes no Brasil. Pensando-se nas abóboras, batatas, milhos, amendoins, na erva-mate, que foram também se incorporando na dieta dos imigrantes e sua prole já nascida brasileira (podemos somar a isso as ervas e outros vegetais medicinais nativos, sem falar no tabaco), vemos o quanto se deve a outros povos a sobrevivência e desenvolvimento das comunidades germânicas, com sua gente chegada em meados do século XIX – e que, de resto, nunca foram permanentemente isoladas e sem a presença de membros de outras origens geográficas e culturais. E também o quanto, já pela alimentação, aqueles que, simplificadamente, chamamos de “alemães” se tornaram brasileiros desde o princípio – embora cisões, por conta de ideologias, interesses econômicos e políticos expressados por discriminações étnico-raciais, nunca tenham cessado por completo.

A própria agricultura na colônia começou pelo plantio da leguminosa logo após o primeiro desmatamento (p. 89) – usando-se (ou abusando-se) novamente de uma herança indígena, a coivara –, bem como foi “moeda de troca” dos colonos com o centro comercial da época, Rio Pardo. Mesmo não tento um valor elevado, trocava-se um saco de feijão por um indispensável chapéu de palha, como observa Panke (p. 94).

“O feijão e o sonho”, título deste artigo, “emprestado” da famosa obra de Orígenes Lessa, quer falar da significativa “combinação” de uma planta indígena e a esperança de uma vida próspera, feliz, mais livre para os pobres emigrados; a fonte protéica do dia-a-dia e produto dos primevos comércios – tanto para os que aqui estavam há centenas (ou milhares, no caso dos silvícolas) como aos recém-chegados. Enfim, o grão tão característico e popular, em sua simplicidade e polivalência – como nos fala o genial folclorista Luis da Camara Cascudo na sua monumental História da alimentação no Brasil (editoras Itatiaia e da USP, 1983) –, possibilitou a fixação e o desenvolvimento do colono teutônico, assim como, anteriormente, possibilitou aos índios horticultores, os colonos lusitanos, os negros (em seus quilombos, inclusive nos sertões de todo o Vale do Rio Pardo) e outros grupos.

Podemos dizer que a substancial vagem dos ancestrais indígenas, criada como cultivo alimentar através de milhares de anos na América, foi fonte de energia para o trabalho e crescimento de Rio Pardinho e de tantas outras comunidades. Entretanto, os tributos à planta e ao povo ameríndio (entre outros), mesmo no “Dia do Colono”, é praticamente inexistente em Santa Cruz e região – o que se configura como um “esquecimento” lamentável, para se dizer o mínimo.




As negras raízes do escotismo

Pode até parecer um contra-senso, mas o movimento mundial criado pelo inglês Baden-Powell, no começo do século XX, tem muitas ligações com o continente africano. Como militar, o jovem Robert, então capitão do exército imperial britânico, começa a conhecer a África pelo sul, ou seja, pela África do Sul.

Atuou em vários conflitos na região. Um dos mais marcantes, certamente, foi o da “Guerra dos Zulus”. Conforme o sociólogo e escotista suíço Laszlo Nagy, em seu livro publicado originalmente em 1985, traduzida no Brasil como 250 milhões de escoteitos, “nesta campanha militar, Baden-Powell adquiriu três coisas que deveria guardar durante o resto de seus dias. A primeira, um longo colar do chefe Dinizulu, formado por contas de madeira entalhada, o qual deveria mais tarde presentear a seus melhores Escoteiros. A segunda – uma experiência em humildade que o ensinou não somente a apreciar as qualidades de seu adversário, mas também aprender a sua forma de vida e cultura, fosse o inimigo um Bantu ou Bôer”.

Além da insígnia derivada do colar Zulu, a canção Ingonyâma, “uma melodia majestosa e cativante que mais tarde deveria tornar-se o canto dos Escoteiros em todo mundo”, vem, da mesma forma, deste ancestral povo africano.

Robert também passou por Gana, na época Costa do Ouro, onde mais uma vez imbuiu-se da cultura local. Laszlo anota que Baden-Powell “aprendeu a apreciar a sabedoria do provérbio do povo Ashanti: ‘Devagar, devagarzinho, é que se pega o macaquinho’”, que fala da necessária suavidade e paciência para se cumprir difíceis tarefas e objetivos idealizados.

Já dedicava a África um “amor apaixonado”. Em carta a sua mãe, durante a permanência em Matabelelândia, onde conviveu com gente das tribos matabeles, “passou um dos períodos mais felizes de sua vida.” E em outra região da África do Sul, na fronteira com a então Rodésia, é onde se tornará um herói do seu país: Mafeking. Ali gesta-se, no íntimo de Robert, a futura “decisão dramática de voltar às costas a todas as formas de violência e colocar o enorme capital de sua fama militar à disposição do movimento educacional não militar, com o qual o seu nome estará para sempre ligado – o Escotismo”, nas exatas palavras de Laszlo.

Talvez a maior prova do apreço pela terra africana está no fato de Baden-Powell – que também esteve a trabalho no Egito – ter escolhido a região de Nyeri, no Quênia, onde comprou uma casa, para viver seus últimos anos de vida, retirando-se para sempre da Inglaterra em 1938, vindo a falecer no começo de 1941, aos 84 anos, em sua “pátria de coração”, onde está até hoje o seu venerado túmulo. Se Robert não pode escolher onde nasceu, parece que escolheu onde morrer e reintegrar o seu corpo à natureza e ter seu espírito partindo em meio às bênçãos da “Mama África”.

Portanto, é no continente africano, em meio ao povo negro, que “BP” nutre-se para fundar e dirigir, até o fim de sua vida, uma mobilização juvenil mundial sem precedentes. É importante ter em mente essas “negras raízes”, para que nunca se pratique, entre escotistas, discriminações por questões étnicas, de “coloração da pele” e outros atributos físico-corporais e culturais, já que, na origem do movimento, está uma significativa influência – para além de exotismos e estereótipos – da população africana, tão maltratada pela ganância, intriga, opressão e exploração dos “brancos”, às quais, contraditoriamente – é preciso ter consciência –, Baden-Powel esteve a serviço enquanto súdito e soldado de um arrogante império europeu.




Curaçau

Quero comentar uma matéria – uma das várias interessantes que li numa pilha de Revista Geográfica Universal dos anos de 1980 e início dos 90, editadas pela Bloch, que o camarada Rafael Amorim me emprestou dias atrás. Saiu no número de fevereiro de 1990, falando sobre a ilha de Curaçau, que forma o arquipélago da Antilhas Holandesas, no Caribe, a 60 quilômetros da costa da Venezuela.

Curaçau é conhecida como "A Pequena Amsterdã", por suas ruas e prédios que lembram a metrópole holandesa. E também é conhecida pelo seu licor: Licor de Curaçau, mundialmente falsificado e multicor. A bebida original é feita (ainda hoje, pelo que sei) a partir do óleo da casca de uma laranja amarguenta, fruto da adaptação de um laranjeira trazida pelos espanhóis, a Valença, e que sofreu alterações "fisiológicas" pelo clima e solo da ilha.

Bem, vocês sabem o que quer dizer "curaçau"?

Sim! Quer dizer "coração". Percebam que é muito parecido com o jeito (sotaque) que os portugueses ainda hoje falam a palavra "coração": “Oh, bela rapariga, meu curaçau é todo seu!”

Pois em Curaçau se fala uma língua onde há muito do Português, o Papiamento. Colonizada por holandeses e africanos, a cultura e a língua nativa de Curaçau teve influência de famílias judias (os sefaradim) saídas do Brasil, fugindo da inquisição (perseguição da Igreja Católica) em nosso país, lá em meados do século XVII.

O Papiamento tem fortes origens em outro arquipélago, o Cabo Verde, entreposto de escravos africanos usados por Portugal – na época deste abjeto comércio –, depois levados para trabalhar na América. Também entram elementos do inglês, espanhol e francês, além do holandês e português, que já mencionei. Essa língua "misturada" e única é oficial em Curaçau, ao contrário do que acontece nas outras ilhas do arquipélago, que adotaram o idioma do colonizador (ou invasor?).

Algumas expressões: “Bom bini”, quer dizer, “Bem-vindo”; “Masha danky, amigu”, significando “Muito obrigado, amigo.”

Há bancos e lojas em Willemstad, que é a capital do arquipélago, em Curaçau, com nomes e sobrenomes tipicamente luso-brasileiros, como Maduro Bank, Loja Leon, Nunes da Fonseca, Morão Henriques, Álvares Correa, etc.

Lá existe o distrito de Otrobanda, quer dizer, “outra banda” ou “outro lado” – a zona residencial de Willemstad.

E observem o seguinte versinho: Dedé pikini (Dedo mindinho)/ Ku su bisinia (Com seu vizinho)/ Maior di tur (Maior de todos)/ Fula bonba (Fura-bolo)/ Y mata picow (E mata piolho).

Também me ocorre que a própria denominação "Papiamento" pode derivar de "papear", conversar, assim como "parlamento" vem de "parlar", falar, entender-se, discutir, por aí.

Enfim, a língua de Curaçau é mais uma prova da "miscigenação" de culturas e, em particular, do vigor e amplidão da nossa muitas vezes desprezada língua portuguesa, usada por mais de 200 milhões de pessoas (dados da Wikipedia).


*Aqui mesmo em Santa Cruz, em Venâncio e em toda zona de colonização alemã, o Português penetrou nos diversos dialetos trazidos da “proto-Alemanha”, transformando-os em algo muito peculiar, próprio, híbrido - assim como é toda a cultura das comunidades teutas no RS, que pouco tem a ver com a Deutchland de hoje, pela distância no tempo, na geografia e pela convivência/composição no/do caldo cultural e histórico brasileiro. A ligação que eventos como a Oktoberfest – criada há apenas 20 anos – tenta fazer com a Alemanha contemporânea é forçada, artificial e descaracterizadora desses agrupamentos. Ensinar o Alemão padrão, como forma de "resgate de valores", é anacrônico, na medida que a Alemanha e sua língua atuais têm pouco a ver com o lugar e a língua dos imigrantes, e menos ainda tem a ver com a cultura surgida nas comunidades teuto-brasileiras.

**Conforme a enciclopédia virtual Wikepédia, o Português – língua desenvolvida na parte ocidental da Península Ibérica do Latim falado trazido pelos soldados romanos desde o século III a.C. – é falado em Andorra, Angola, Brasil, Cabo Verde, Timor Leste, Guiné-Bissau, Luxemburgo, Macau, Moçambique, Namíbia, Portugal, São Tomé e Príncipe, Índia, África do Sul e 20 outros países, num total de falantes calculado entre 202,7 e 209,4 milhões. É a sexta língua materna mais popular no mundo, e a segunda língua latina, só ultrapassada pelo Espanhol.

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