Para além do loiro imigrante

HISTÓRIA, IDENTIDADE ÉTNICA E EXCLUSÃO SOCIAL NA REGIÃO DE SANTA CRUZ DO SUL (RS - BRASIL) *** Artigos opinativos e outros comentários selecionados pelo autor *** IURI J. AZEREDO

13 de jan de 2014

O apartheid também é aqui

*Escrito em 19/12/2013

“Choremos Mandela, mas não esqueçamos as denúncias de Milton Santos, Abdias do Nascimento, Florestan Fernandes e tantos outros/as.”

Aproveitando o período [texto escrito na semana passada] ainda de manifestação de condolência e homenagens ao Mandela, vou colar aqui abaixo uns comentários meus. Faço isso para registrá-los mais explicitamente, já que, observei tristemente, alguns que postaram suas condolência e aderências às ideias e posturas “mandelaianas”, pelo jeito, não gostaram da minha manifestação, postada como apoio e colaboração. Fico pensando por qual razão, mesmo, se fez a exclusão? Há muitos limites ao debate. Falar em África DO SUL, lá do outro lado do mundo, tudo bem; mas em Santa Cruz DO SUL, aqui do meu lado? Aí não é bem assim... Sinto, sendo bem sincero, também, uma certa hipocrisia, um “aproveitar a ocasião” e “dizer palavras bonitas”, para “ser bacana”. Mas ir muito adiante, “concretizar” ou enxergar a própria casa, aí não, né? Há medos. E eu não vou dizer que sou imune.

Segue o que anotei em 06/12:

Que a gente se inspire em Mandela e façamos todos os dias nossa luta contra os “apartheid” que ainda vigora no Brasil e, óbvio, em Santa Cruz. A população negra é vitimada pelo racismo e muitos dados demonstram isso cabalmente, basta ver as médias salariais e os cargos/funções que a esmagadora maioria das pessoas negras ocupam. Fruto da mobilização, temos muitos avanços, caso das políticas como as cotas em universidades, que tentam acelerar uma justiça social, ferida pelos quase 400 anos de escravidão brasileira, quando os africanos e afrodescendentes foram desumanizados, tornados “objetos”, animais de ganho, com o apoio institucional massivo, incluindo igrejas e ciências. A abolição ainda não foi completada, porque “atirou” uma massa de pessoas ao “Deus dará”, após gerações e gerações trabalhando de sol a sol, sem indenização socioeconômica alguma e, suprema sacanagem, marcados pela discriminação (vagabundos, inconfiáveis, intelectualmente inferiores, libidinosos etc.). Enfim, choremos Mandela, mas não esqueçamos as denúncias de Milton Santos, Abdias do Nascimento, Florestan Fernandes e tantos outros/as. Abraços!


Também anotei em outro espaço de debate (felizmente, mantido) algo bem semelhante:

Bom debate [sobre artistas que representam o Brasil na recente cerimônia da Fifa na Bahia]. Mas acho que não é tão simples assim, tipo “qualquer um pode representar o Brasil, que vai ficar bom”. O racismo é coisa séria e precisa de uma abordagem com menos senso comum e mais Florestan Fernandes, Lilia Schwarcz, Milton Santos e o Fernando Henrique Cardos, o sociólogo do tempo do “Escravidão no Brasil Meridional”; mais informações estatísticas, estudos bem abalizados, a partir de fontes fidedignas (IBGE e Ipea), para não apelar a sentimentalismos e vir com dados técnicos. Somos um país racista. Mandela morreu, todo mundo chorou, mas após condolências até do pessoal da KKK, tudo parece voltar a “normalidade” do apartheid nosso de cada dia. Temos um problema não superado. Ou não? Exemplo: Até dois anos atrás, as turmas de medicina da UFRGS, desde 1898 (mais de 110 anos), não tinham praticamente estudantes negros, muito menos, negras (precisou chegar as cotas). E por que isso de não ter negros/as? Por que os pretos são intelectualmente inferiores? Mesmo que alguns tenham vontade de afirmar isso, a verdade é que (vou me repetir outra vez, perdão) se trata do produto social dos quase 400 anos (quatrocentos anos) de escravidão – sistema que gerou a riqueza, sustentou o país e subsidiou projetos de colonização europeia, como em Santa Cruz do Sul (enquanto os mesmo trabalhadores, em 1888, são atirados “a deus dará”, sem terras, sem indenização alguma e com a pecha de “vagabundos” após gerações de relho, suor e sangue – e toda a desumanização que tal regime implicou, fazendo das pessoas afrodescendentes animais comercializáveis, subespécie, coisas. Então, mesmo considerando que possa haver “histeria” por um lado, há também algo importante sendo dito quando se substitui “morenos” por loiros. Não se estará tentando reafirmar uma brancura num país de maioria esmagadora negra e mestiça – até há pouco tão invisibilidade em novelas e comerciais, que se pensava algumas partes do Brasil como uma espécie de Reino da Dinamarca?? Óbvio que algo de podre sempre houve aí...

(...)

Não existe comparação entre o trabalho, sim, duro e a vida sofrida de imigrantes italianos e alemães (algumas levas recebendo 72 hectares de terra e outros subsídios governamentais aqui mesmo em Santa Cruz em 1849), e o trabalho escravo e tudo que ele implicou e implica até hoje. Ser escravizado, ser tido como escravo é uma situação mais do que humilhante – é aviltante da humanidade do ser, concebido como um animal comercializável. Houve a tentativa de destruição de qualquer vínculo cultural e total submissão ao racismo produzido pela igreja, estado e outras instituições “de pessoas de bem”. Somente a resistência negra e a rebelião na forma quilombos, sociedades secretas, sincretismos, grupos de sabotagem e, em último caso, suicídio, não deixou milhares e milhares de pessoas serem moral e economicamente esmagadas – embora algumas foram definitivamente destruídas em sua dignidade. Perto do que passaram os africanos e seus descendentes escravizados, italianos e alemães foram imensamente privilegiados.

E uma observação que fiz em outra postagem sobre Mandela: Heroísmo sem máculas, coisa difícil. Humanos, por definição, imperfeitos, né? O mito, como guia, é bom (ou pode ser bom), como disse o Jeferson. Mas se vamos a fundo... decepções nos esperam quase sempre.


*Milton Santos (foto) foi um dos maiores geógrafos brasileiros e do mundo. Intelectual independente (“outsider”, como ele mesmo dizia), propôs entendimentos sobre a sociedade e a economia que inspiram uma visão crítica, denunciando poderes opressores. Perguntado, disse que ser negro era difícil, pela história do povo africano no Brasil, assim como ser intelectual, porque pensar e fazer pensar não é algo que agrade há muitos.

**Existe um documentário muito bacana sobre Milton Santos. Fica uma dica, que dá uma panorama da sua vida e pensamento:

http://www.youtube.com/watch?v=-UUB5DW_mnM&feature=youtu.be

9 de out de 2013

O outro lado (oculto) da moeda

Domingo passado olhei um filme que há tempos estava na minha “lista” (quase infindável) de “imperdíveis”:

“A Fita Branca”

E de fato é um filme imperdível – especial para quem gosta de assuntos como história, cotidiano, educação, cultura e por aí.

Colo aqui a sinopse:

“1913. Em um vilarejo no norte da Alemanha vivem as crianças e adolescentes de um coral, dirigido por um professor primário. O estranho acidente com o médico, cujo cavalo tropeça em um arame afiado, faz com que uma busca pelo responsável seja realizada. Logo outros estranhos eventos ocorrem, levantando um clima de desconfiança geral.”

A direção é do cultuado austríaco Michael Haneke, que já dirigiu obras como "Amor" (indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013) e "A professora de Piano". Tem 71 anos, filho do ator e diretor alemão Fritz Haneke e da atriz autríaca Beatriz von Degenschild, tendo estudado psicologia, filosofia e teatro na Universidade de Viena, sendo professor da Viena Filmacademy. Ou seja, é para lá de credenciado.

Recomendo o filme como antídoto ao tipo de descrição e celebração acríticas, que faz do passado de comunidades – no caso de Santa Cruz, as teuto-brasileiras – algo bucólico, reunindo somente virtuosos e situações edificantes. “A Fita Branca” é um soco no estômago e duvido que se consiga olhá-lo sem um grande desconforto. Como faz estrategicamente o pastor, alguns continuarão insistindo nas aparências e métodos comprovadamente falhos (perversos), mas outros talvez (eis a esperança) consigam relativizar e analisar a nossa historiografia (narrativas) sem cair na apologia saudosista, de uma parcialidade e limitação que levam a exclusão em nome de exclusivismos étnicos, além da possibilidade de produzir monstruosidades.

“A Fita...” me remeteu, também, a romances de escritores vinculados a Santa Cruz do Sul, que acabam por fazer um papel bem melhor do que os pretensos livros e crônicas “históricas”, produzidas por certa intelectualidade local. Falo de obras como “A Asa Esquerda do Anjo”, de Lya Luft; “A Valsa da Medusa”, de Valesca de Assis, e “Pequena História de Amor”, de Wilson Müller. Recomendo-as com ardor, porque falam da complexidade das relações humanas, sem fugir de decepções, mas sem perder a beleza que é a vida e a universalidade que nos une enquanto humanos de qualquer procedência, sobrenome, poder econômico etc.

A comunidade que Haneke retrata é uma aldeia interiorana, que vive ainda num sistema de domínio de um barão, dono das maiores áreas de terra, empregando grande parte da população do povoado, onde existe o que seria uma verdadeira oktoberfest, a “festa da colheita”, quando os pobres trabalhadores (quase servos) e seus familiares podem ter um dia inteiro de farta alimentação, beberrança e outras diversões populares, numa tentativa de compensação a um cotidiano duro, de muitas privações.

A rigidez da educação religiosa mostra onde chega: a disciplina austera, de castigos corporais (tapas na cara, mãos amarradas etc.) e psicológicos (humilhação privada e pública) gera a contravenção às escondidas, com atitudes igualmente cruéis, como surras em indefesos e provocação de “acidentes” fatais. “Sob a capa da harmonia, o filme esconde a gênese do que de pior existe no ser humano”, diz André Negri em sua resenha na revista Bravo (março de 2010).

25 de jun de 2013

Caspary conta a sua história

Terminei de ler na semana passada uma publicação de 2003, que há anos estava na minha “lista”. Um relato bio e bibliográfico feito pelo sr. Hildo Caspary. Além da sua própria vida, da infância à adultez, Hildo dedica boa parte do seu livro ao seu pai, Adolfo Capary, e diversos parentes paternos e maternos que viveram em Santa Cruz do Sul ou têm relação com a sua família e comunidade desde os primeiros tempos dos assentamentos de colonos germânicos*.

É uma publicação toda ela sui generis, “caseira”, da brochura em si, aos tipos gráficos, diagramação, até na sequencia de apresentação, que não segue uma edição comum às biografias. Lembra uma espécie de álbum de anotações, com recortes, fotos, além de um linguajar não-acadêmico e franca referência a contatos pessoais, caso quando os Caspary diz que confirmou por telefone a informação com conhecidos em outra cidade.

E aí está o sabor especial do livro. Em meio às 200 páginas, muitas informações interessantes. Para quem quiser desenvolver algum trabalho sobre empreendedorismo e história do comércio em Santa Cruz na transição dos séculos XIX, XX e XXI, terá muitos detalhes e pistas para desenvolver pesquisas. Assim como dá política e formação de instituições como a Associação Comercial e Industrial, a Universidade de Santa Cruz etc.

Para mim, sempre “pescando” dados sobre a diversidade humana de origem étnica, cultural, social e geográfica em Santa Cruz, há várias pequenas pérolas no relado do sr. Caspary.

Fala de uma família de sobrenome Cerny, tchecos (ou com origens no que seria a República Tcheca de hoje), que residia “em um chalé do outro lado do arroio”, ou seja, nos arrabaldes da cidade (p.56). Caspary menciona casamentos, ainda no final do século XIX, entre teuto-descendentes e gente vinda de outros lugares do norte da Europa, caso da Noruega ou Ilhas Friesland, caso da emigrada Maria Mohring, que, depois de enviuvar, casou-se com o norueguês Ommen Timens Behrends (p.31).

Seu pai, Adolfo, por relações próximas, chegou a participar de um casamento de ciganos, que seguidamente “acampavam com sua barracas na chamada ‘várzea’, a esquerda de quem desce a atual Avenida Independência.”

Fala do “extraordinário serviço prestado por Ernesto C. Iserhard, na época em que procuraram nazificar as sociedades de Santa Cruz”. Bastante ativo na comunidade em todo o município, Ernesto foi gerente da Cervejaria Santa Cruz de 1928 a 1944, empreendimento dos mais interessantes para mais um estudo sobre a indústria no interior gaúcho. Sua expressão foi tal, que acabou sendo comprada pela poderosa Cervejaria Continental S.A., de Porto Alegre, num negócio cujas cláusulas impediam que fosse reaberta como cervejaria, desaparecendo diversas marcas de cervejas e refrigerantes. A origem de tal cervejaria recuaria a “pouco antes de 1868”, em Linha Santa Cruz, “talvez uma das primeiras da Província de São Pedro”.

Caspary reproduz uma carta assinada por Rudolf e Anna Gressler, escrita de Santa Cruz, em 1852, dirigida a parentes no que hoje seria a Alemanha (como é sabido, antes de 18571, enquanto país, a Alemaha não existia). Foi retirada do livro “Os velhos Gressler”, de autoria de Paulo Oscar Ernesto Gressler, publicado em 1949. Há nesta carta diversas informações sobre a emigração, a viagem, a chegada ao Brasil, as passagens por Porto Alegre, Rio Pardo e, enfim, a vida já nos lotes coloniais aqui na região. O tom da carta, embora várias agruras, é de muita satisfação com a recepção no Brasil, os encaminhamentos e a área de terra recebido – “mais de meia milha de comprimento”, com uma “vegetação que supera toda idéia”. No dia 21 de outubro de 1852, Rudolf e Anna já estão no que deveria ser o Faxinal do João Faria, instalado no “prédio de recpção que Kläudger em Hamburgo menciona em seu contrato”. Na verdade, são construções rústicas, usando um tecnologia propvavelmente herdada dos povos indígenas e africanos, ou seja, “galpões” com cobertura de folhas de palmeiras e outros materias naturais do lugar – algo muito provisório, mas onde o casal permanece por quatro semanas, antes de serem levados ao assentamento propriamente. Há muita expectativa de ganhos com o lote e a produção agrícola.

Uma curiosidade é o consumo de carne de macaco; os Gressler dizem que a acharam “excelente”. “Há aqui duas espécies de macacos, pequenos pretos [pregos?] e grandes vermelhos [bugios?]”. A caça é abundante e a proteína animal parece não ser um problema. O problema se verá décadas depois, com uma larga destruição do ecossistema, causada pelas centenas de assentamentos de gente de origem teuta e outros grupos abruptamente introduzidos em uma floresta luxuriante, na época, antes de 1849, vagamente povoada por negros aquilombados, cablocos arranchados em rincões e os candidatos a sesmeiros estrategicamente posicionados com agregados, além, evidente, de povos indígenas, já na região há séculos, muito antes de brancos e negros, mas “espantados” cada vez mais pelos machados ecoando cada vez com mais volume pelos vales, seguindo-se os incêndios, que devastam árvores, plantas, animais... Algo nada bonito para se lembrar; na verdade, algo não mencionado nas crônicas apologéticas sobre a colonização alemã***.

Na mesma carta, também salta o alerta dos Gressler em relações a certos “elementos perniciosos”, patrícios alemães, “pessoas inúteis, receosas do trabalho”,  com que não se devia estabelecer relações e sofrer influência. Outra situação que fere a determinadas narrativas onde se dá a ideia de que a virtude é completamente generalizada por conta de sobrenomes.

Sobre o desuso das líguas germânicas nas comunidades locais****, evidencia-se que não se trata de um subproduto da pontual repressão a “língua alemã” nos tempos de guerra, onde a Alemanha (aí, sim, já estruturada como país) se pôs em conflito mundial: Rudolf e Anna registram na carta que, embora a valorização do lote colonial, pela produção rural obtida, seria enorme em apenas 10 anos, valendo “uma enorme quantia de dinheiro”, se alguém pensar em se estabelecer “Com comércio (negócio) sem conhecimento da língua [portuguesa], não há nada a fazer”; pressupõe-se a necessidade do aprendizado do português para que tais empreendimentos possam prosperar, deixando-se de lado os dialeto teuto-brasileiro, já que negociam nas bases jurídicas, éticas, com outros vendedores, atacadistas, transportadores, anotadas na língua oficial do Brasil. Ou seja, a língua portuguesa brasileira se impõe paulatinamente por razões pragmáticas, e não – unicamente – por alguma imposição de fundo ideológico ou pela mão de ferro repressiva germanofóbica.

Assim é que, nos relatos pessoais, de autobiógrafos e historiadores diletantes, há boa matéria para aprofundamentos via a pesquisa acadêmica – que, aliás, acho eu, jamais será isenta de posicionamentos, “neutralidade”, sempre será uma narração a partir de um posicionamento e uma visão de mundo contextual.


Complementos:

*Ressalta-se que o processo históricos da colonização ocorrida na região envolveram a vinda e a integração entre diversos povos e pessoas de diferentes procedências, em torno de um projeto governamental de loteamentos rurais e núcleos urbanos, com investimento de recursos públicos, inclusive um estafe de administradores e outros servidores e contratados.

**Povoado fundado décadas antes da chegada das primeiras levas de imigrantes, origem do núcleo urbano de Santa Cruz.

***Já abordamos esse assunto em textos anteriores e há o importante trabalho do professor, doutor em História, hoje na Universidade Federal de Santa Catarina, professor Sílvio Correa, junto com mestre em Desenvolvimento Regional, jornalista Juliana Bublitz, “Terra de Promissão: uma introdução à Eco-história da colonização do Rio Grande do Sul” (2006), onde apresenta-se as posturas nada conservacionistas dos colonos e, mesmo, dos projetos de assentamentos, sempre com a ideia de erguer a civilização, o que significa destruir a floresta nativa e caçar sem preocupação todos os animais selvagens possíveis, o que causou rapidamente um impacto no ecossistema, acarretando a extinção de espécies da flora e fauna, produzindo situações como enchentes devastadoras e mortais na região. Obviamente, precisa-se relativizar, já em no século XIX tais preocupações praticamente não existiam.

****Obviamente, também não se falava o Alemão padrão de hoje, e, sim, diversos dialetos teutos, cada vez mais intercambiados entre si e com o Português.

2 de jan de 2013

"Comentário selecionados" II

Mais alguns comentários postados tempos atrás em um meu outro blog e que também colo aqui, já que estão dentro do tema deste "polígrafo eletrônico".


17/10/2008

A força gabiru na “raça” gaúcha e brasileira: Inter, Campeão do Mundo!!!


Na data histórica de 17 de dezembro de 2006, escrevi um comentário que quero compartilhar com vocês:


Estou fazendo estas anotações enquanto escuto ao fundo a histeria colorada aqui na frente de casa, na Imigrante - que é, como vocês sabem, a “Meca” desse tipo de comemoração em Santa Cruz. Mesmo que eu não quisesse, estou no meio do rebuliço, no bom sentido!

Confesso que não dou muita bola (bola!) pra futebol. Meus tempos de fanatismo foram lá pelos 10 a 14 anos, por aí, quando, de verdade, ficava deprimido com derrotas do Inter e vivia o domingo com um rádio, acompanhando nervoso toda a jornada esportiva da Guaíba, que era a minha emissora predileta – por mais uma influência do meu pai, colorado que amaldiçoava o tempo todo o seu próprio time enquanto jogava, chamando os jogadores de podres, cornos, burros, etc. Eu achava aquilo irritante e não entendia bem “qual era a dele”, mas fui compreendendo que aqueles xingamentos, aquelas maldições lançadas com fúria aos jogadores eram, na verdade, uma forma de dissipar a tensão e demonstrar, ao avesso, a sua paixão.
Enfim, mesmo que "desligado" de futebol, revivi hoje um pouco daquela alegria infantil enorme que experimentava nos anos de 1970 – e creio que a alegria em futebol tem muito de “coisa de criança”, de simulacro, de brincadeira. Foi um prazer saltar aqui na sacada do meu AP e congratular-me com os vizinhos colorados a vitória espetacular contra o "invencível" Barça. Gritei de doer a garganta, participei da passeata e fiquei lá em baixo do edifício para ver a "volta olímpica" que os torcedores santa-cruzenses do Inter deram aqui pela avenida, todos a pé, num estado de euforia, de desforra, de encantamento – estavam quase foras de si de tanta felicidade.

E mais um time gaúcho mostrou sua "raça" no Japão. E esta "raça" inclui gente como Adriano Gabiru, Iarley e Ceará, ou seja, NORDESTINOS. Isso é pra calar a boca de uma “gauchada” com laivos xenófobos, que, até, pedem a separação do Brasil. Parece-me um discurso muito do elitista, à beira do racismo. Depois de muitas peleias com “os castelhanos” ao longo de séculos de definição de fronteiras, feitas por soldados de origem lusa, por mestiços, por negros “bucha de canhão” e também mercenários de tudo quanto é canto do mundo (incluindo a Prússia), garantindo assim as terras para assentar colonos de lugares como a Alemanha e Itália, se quer um “desquite”, já que alguns se acham de uma estirpe superior e vitimizados por outros estados do Brasil – algo que não se comprova nem mesmo por indicadores econômicos reais.

Aliás, nordestinos, mais propriamente cearenses, também colonizaram Santa Cruz do Sul. Em 1900 chegava uma leva de 90 pessoas do Ceará, que depois são fixados pela região santa-cruzense, conforme registrou o professor Hardy Martin. Vai que muito santa-cruzense, que se tem por “ariano puro”, não tem logo ali atrás uma “cruza” com os mesmos antepassados dos nossos bravos Adriano Gabiru e Ceará?!

Última coisa: Sem mentira, em todas as disputas que o Grêmio teve em nível nacional e internacional, incluindo o mundial interclubes, eu torci com afinco pelo tricolor. Graças aos deuses, consegui ampliar a brincadeira que é o mundo do futebol (pelo menos para os torcedores, que se nutrem da emoção de uma filiação e disputa que rigorosamente não passam de uma abstração mental com fins lúdicos), de forma a não me tornar prisioneiro da incorporação permanente de personagens sectários.

Viva o Brasil, viva o Rio Grade do Sul, viva o mundialmente consagrado Internacional!
E assim encerrei, com ardor, o meu comentário dirigido, à época, a amigos de uma lista de contatos por intermet. Dias depois, numa crônica do Luis Fernando Verissimo, publicada no jornal Zero Hora de 21 de dezembro de 2006, fiquei muito contente em ler algo bastante similar ao meu comentário. O consagrado escritor – e colorado de quatro costados – fala que é um equívoco se pensar que “A vitória do Inter em Tóquio seria mais um triunfo do estilo gaúcho de jogar futebol. (...) Um estilo forjado pelo clima europeu, por uma história de feitos varonis etc.”. E aí ele pergunta: “Mas como se explica que a maioria dos jogadores que estavam em Tóquio não era de gaúchos?” Ou seja, o campeonato mundial, diz Verissimo, foi vencido por “falsos gaúchos”, complementando, com seu bom humor e ironia: “No bom sentido, claro.”

Eu acho que o filho do também grande Erico Verissimo compreende muito bem o quanto é bobagem ou mesmo estupidez achar que existe algo muito diferente no Rio Grande do Sul que possa nos distinguir do “resto” do Brasil. Com certeza, existem diferenças, mas, muito mais, há semelhanças, identificações comuns e complementaridades, que nos fazem uma nação humanamente rica e cheia de positividades.




22/06/2011

A história não contada da “rua mais antiga de Santa Cruz”


Um trabalho de levantamento histórico muito interessante é o realizado por Armindo L. Müller, pesquisador diletante e pastor luterano. Em seu Dicionário Histórico e geográfico da região de Santa Cruz do Sul (Edunisc, 1999), traz muitas informações que, por sua vez, poderiam ser desdobradas em muitos outros trabalhos de historiografia e análise social local e regional. É deste pequeno livro, publicado pela Editora da Unisc em 1999, que retirei alguns dados para tecer o seguinte comentário:

A chamada via mais antiga de Santa Cruz do Sul, hoje Rua José Germano Frantz, foi obra empreendida por Delfino dos Santos Moraes, capataz do fazendeiro e tenente-coronel Abel Corrêa da Câmara – nome de onde se deriva a designação original “Picada do Abel”, mais tarde Picada Velha e, finalmente, Linha Santa Cruz. Nos trabalhos de abertura e demarcação, agregados, contratados e escravos sob comando de Delfino devem ter sido mobilizados, sendo todo trabalho às expensas dos cofres públicos da então Província do Rio Grande de São Pedro (e dizem que foi uma bolada grande). A empreitada começou a ser definida em 1847, mas só terminada no final de 1849, quando os primeiros colonos estavam sendo assentados nos lotes, incluindo ali o homenageado, Sr. Frantz. Mais anteriormente ainda, a via foi uma trilha indígena, ligando a região serrana do Vale do Rio Pardo e banda acima (Soledade, Cruz Alta etc.), passando pelo Faxinal do João Faria (onde surgiu a cidade de Santa Cruz), até Rio Pardo (Rio Jacuí), por onde circulavam indígenas da região, incluindo ervateiros guaranis assentados – já no século 18 – na Aldeia São Nicolau, nos arredores da cidade de Rio Pardo.

Já os lotes, foram demarcados pelo engenheiro Frederico Augusto de Vasconcelos Pereira Cabral, nome que não deixa dúvida da sua origem lusitana. Subcontratou os serviços de Guilherme Werlang e Francisco Dilemburg, teuto-desecndentes residindo no Brasil. Mais uma vez, os recursos para os trabalhos são governamentais e, muito provavelmente, usando-se mão de obra escrava para os “serviços mais pesados” (ao brancos, só cabia o mando).

Temos aí, numa via municipal, uma multiplicidade de relações sociais e históricas, envolvendo protagonistas de várias etnias e origens nacionais – comumente, muitos deles, invisibilizados injusta e erradamente, porque empobrecem a história santa-cruzense diversa e complexa.


*A rigor, aliás, a “via mais antiga de Santa Cruz” não é aquela cujo trecho se chama hoje Rua Germano Frantz. Vias que ligavam internamente as instalações (sobrado do dono, casas dos agregados, senzala, estrebarias, pastos, lavouras, olaria, armazéns etc.) do povoado do Faxinal do João Faria e, deste, a Rio Pardo, então sede da região, e a outras localidades próximas – arraiales, fazendas, rancharias avulsas e armazéns existentes em caminhos –, já instaladas antes da introdução de colonos germânicos em 1849; são vias mais antigas e usadas muito antes de qualquer início de assentamentos de colonos da Prússia, Silésia, Boêmia e outras localidades europeias do norte (lembrando que a Alemanha, propriamente, ainda não existia como estado-nação antes de 1871).

**O trecho ainda não calçado da Germano Frantz – apenas um ou dois quilômetros paralelos a Av. Orlando Oscar Baumhardt, mantendo a ligação da esquina do “Mercado Recanto” (ou a entrada ao Seminário São João Batista) até próximo ao “Mercado da Lili” (ou a velha fábrica de sapatos coloniais) –, mesmo com os loteamentos que dela se bifurcam, guarda uma espécie de encanto colonial em sua sinuosidade, aclives e declives, pedregulhos, passagens por arroios, charcos, matos, vistas de casas antigas, nesgas de lavouras e campos onde pastam bois e cavalos. Seria muito interessante que a pavimentação e o uso do entorno preservasse essas características autenticamente coloniais. Ao invés de asfalto, quem sabe um calçamento com pedras ou bloquetes na cor do solo avermelhado? Uma lei poderia regulamentar as construções e terraplenagens neste trecho, além de se tombarem casas e outras instalações, num programa de incentivo (subsídios concretos) aos proprietários, ou desapropriações. Neste trecho, há áreas onde se poderia instalar-se um parque público para o lazer da população local e preservação ambiental.

***A denominação Linha Santa Cruz – e do próprio município de Santa Cruz – alude à Fazenda ou Estância de Santa Cruz, localizada na região serrana do Vale do Rio Pardo (ou Centro-Serra), hoje parte do município de Lagoão (conforme Müller). A chamada Picada do Abel, finda sua abertura em 1849, com o incremento do movimento entre a serra, as comunidade de imigrantes, o Faxinal do João Faria e a sede regional, a cidade de Rio Pardo, passa, mais tarde, a ser conhecida como Linha Santa Cruz, por ser via de acesso à Fazenda de Santa Cruz – numa época em que as fazendas eram os núcleo populacionais mais densos e economicamente mais importantes, por conta da liderança social e política de seus donos (o proprietário da Fazenda da Santa Cruz era parente do presidente da Província...) e local de troca, compra e venda de mercadorias. Especula-se que, por suas vez, o nome “Fazenda de Santa Cruz” viria de uma antiga e grande cruz (“curuzu”), posta por indígenas missioneiros no alto de um pinheiro, a fim de indicarem a sua fé e servir de guia em suas andanças em tempos do domínio jesuítico na região do Vale do Rio Pardo – em torno de 1630, ou seja, cerca de 220 anos antes da introdução de imigrantes germânicos na região e 120 anos antes da instalação de súditos portugueses e trabalhadores negros escravizados no Vale do Rio Pardo.




07/02/2012

Não é piada



Por duas vezes, recebi um e-mail que parece uma reação “bem humorada” (mas, para mim, extremamente problemática) às ações afirmativas voltadas à promoção da comunidade negra brasileira. São 17 “artigos” falando em cotas para “alemães”, penalidades a supostas ofensas raciais, dias comemorativos etc. Quando recebi, fiz um comentário e remeti-o como “resposta” a amigos. No segundo caso, expliquei à pessoa (uma professora) que estava reproduzindo o mesmo comentário, conforme segue abaixo.


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Olá, profa.

No mês passado um outro amigo também remeteu, através de uma lista de conversas via e-mail que eu participo, esse “projeto de lei”. Obviamente, se trata de um chiste, que pretende, com ironia, criticar as ações afirmativas vinculadas à promoção da população negra brasileira – mas que também envolve a população indígena, beneficiária nas reservas de vaga, como ocorre no ProUni, entre outros programas federais bastante exitosos.

Na ocasião que recebi o texto, enviei uma “resposta”, que vou colar mais abaixo. É um rápido e informal comentário feito para/entre amigos da supracitada lista, na maioria “leigos” no debate. Está longe de esgotar a questão, mas pode ser uma abertura para uma argumentação mais consistente sobre a procedência ou não do uso de cotas no Brasil.

Agradeço a tua atenção. Tudo de bom e fico à disposição.


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Hehe!!

Como disse o nosso camarada, como uma piada provocativa, fica bem. Mas vai até aí!

De fato, chamar alguém de "alemão porco" é racismo e se deve enquadrar o cara na hora, sem hesitação. Chamar o cara de "negro" como referência de origem étnico-racial (racial só existe em sentido ideológico, não biológico) não é ofensa alguma. Chamar o cara de "negro sujo" já é ofensivo e é passível de enquadrar como racismo ou, no mínimo, injúria. Há um mal entendido geral de que chamar alguém de negro é ofensivo, quando os próprios militantes se intitulam de “movimento negro”. Os equívocos já começam por aí e depois só pioram!!!

No item 03 usa-se a palavra "denegrir", ou seja, “torná-lo negro”, ou seja, rebaixá-lo, ofendê-lo... Sem querer, estão aí palavras que demonstram o nosso racismo institucionalizado, internalizado - como usávamos tranquilamente na infância a palavra "negrisse" para dizer que era algo exagerado e feio...

O racismo contra negros tem uma história longa, triste, cruel e massiva. Negros foram animalizados para justificar a escravização e viveram no Brasil, por quase 400 anos, abaixo do pau e do mais abjeto rebaixamento, além de uma exploração absurda do trabalho e outros sujeições indescritíveis, brutais. O passado não se apaga e, no caso, é uma maldição que ainda não expirou. Basta olhar as os estudos e estatísticas e ver os patamares socioeconômicos onde está a esmagadora maioria da população negra no Brasil – a maior nação negra após a Nigéria. Cito só dois estudiosos ainda referencias no assunto: Fernando Henrique Cardoso e Florestan Fernandes [foto acima]. Produziram estudos profundos e reflexões que todos deveríamos ter ao menos uma noção – para embasarmos nossas posições com mais dados e menos preconceitos e chavões reacionários.

As pessoas de “origem alemã” – uma designação imprecisa para uma população tão vasta e diversa (e considerando que a Alemanha sequer existia como país até 1870), que emigrou do norte da Europa aqui para a região, forçadas pela miséria crescente e tremendas injustiças sociais lá existentes, e, boa parcela, dentro de programas subsidiados com recursos do governo brasileiro (aliás, gerados pelo trabalho escravo), esses indivíduos e famílias recebiam, em suas primeiras levas aqui para Santa Cruz, em meados do século XIX, cerca de 72 hectares, além de ferramentas, utensílios, provisões de alimentos; aos negros após a abolição, o que lhes foi oferecido depois de gerações e gerações negras trabalhando feito bois de canga ou coisa pior?? Daí os efeitos sociais e culturais perversos, que não desaparecem facilmente. E então são necessárias ações que surtam efeito já, imediatamente; que o neguinho não precise esperar mais 100 anos para, por exemplo, se formar médico, engenheiro, professor universitários; políticas afirmativas como as cotas (alguns chama de “discriminação positiva”) é isso: "burlar" (ou vencer) as consequências funestas do passado de modo mais rápido, sem mais delongas. (Depois de equalizada e construída uma igualdade de fato, extingue-se a ação.)

E não se pense que o pobre branco é igual ao pobre negro; o negro pobre tem um "plus" de adversidade para enfrentar desde o nascimento – justamente o racismo. Para quem duvidar, posso remeter um estudo local, aqui de Santa Cruz do Sul, feito pelo historiador Alan Seitenfus, “Mobilidade social e processo de (re)democratização do Brasil”, traçando comparativos entre a mobilidade socioeconômica de brancos e negros da mesma classe – e aí se verá quanta diferença faz a cor da pele e o cabelo pixaim...

Enfim, não se criou políticas afirmativas, caso das cotas, baseando-se numa vontade de “ser bonzinho com os negros”. No frigir dos ovos, toda a população brasileira se beneficia com a equalização étnico-racial, diminuindo-se disparidades e conflitos advindos dos fossos (fossas?) sociais. Não dá mais para aceitar que, como acontece em quase todas as universidade brasileiras, onde, em seu quadro de professores, um número tão diminuto de docentes seja de pessoas negras, estando longe de refletir o percentual de afrodescendentes existentes em nível local e nacional. Será que isso acontece por “pura” incapacidade, falta de vontade da “negrada”? Eu penso que não. É o racismo agindo pelos seus sutis, mas poderosos filtros.

No Brasil temos um “apartheid” mais eficiente do que o havido na África do Sul e EUA – porque "cordial" e "não dito". E isso não se rompe só com palavreados, grandiloquências ditas do alto de nossa brancura e seus privilégios (naturalizados), de que “TODOS SOMOS IGUAIS”. É preciso considerar os fatos, os números e a história, e agir aqui e agora para diminuir injustiças e sofrimentos.

Abraços!




12/10/2009

Por e-mail, contrapontos


Há anos estamos tentando colocar contrapontos a algo que acaba se configurando como uma pesada violência simbólica, na acepção trazida pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu: o estabelecimento de uma identidade dominante para a comunidade santa-cruzense, ou seja, “germânica” - palavra que já encerra uma miríade de associações, tal a sua abrangência e interpretações complexas.

Nestes empenhos de "germanizar" Santa Cruz, outros grupos são invisibilizados e pessoas que não se adequam a tal “origem” têm o seu “capital social” - outro termo de Bourdieu - desvalorizado, e permanecem numa marginalidade de pertencimento comunitário; seres subalternos, menosprezados, submetidos por uma historiografia e aparato simbólico-turístico exclusores, forjados por ideólogos da "germanidade" local.

Nada pessoal contra tais intelectuais, mas seus desejos, objetivos e empenhos não são inócuos e indolores. Por isso acredito que é preciso manter-se uma crítica a este tipo de “arrazoado” – quase sempre mais sentimental do que uma argumentação de fôlego –, para que não se continue impondo concepções marginalizadoras. Enfim, acredito que nem tudo se pode fazer em nome de orgulhos étnicos e viabilidade turística.

Como uma forma de "resistência", muitas pessoas usam e-mails, mostrando-se contrários, contrargumentando. Abaixo vou postar alguns meus, enviados esporadicamente para alguns destes intelectuais (dois deles, no caso), que têm amplo acesso à imprensa, a produções intelectuais (livros, fascículos, programas de rádio etc.) e são demandados para palestras seguidamente.

Não vou usar o nome das pessoas a quem se direcionaram as mensagens, até porque o que interessa mesmo é a argumentação e os dados que acabei apresentando de uma forma bem livre.

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Professora,

Tenho acompanhado os textos da senhora que saem na Gazeta do Sul. Li também aquele que saiu no livro Fragmentos de Vida organizado pelo professor Schneider. Pareces ser uma pessoa dedicada e sensível, mas, em alguns pontos, com todo respeito, não posso concordar com suas posições.

No último, na primeira parte, publicado em 23/05 na página 2 da Gazeta do Sul, a senhora parece, em minha opinião, repetir uma argumentação em superação. O historiador Mário Maestri, na revista Vox (IEL, número 7), faz uma referência a isso no artigo A lei do Silêncio: história e mito da imigração ítalo-gaúcha. A perspectiva apresentada por Maestri, creio, pode ser perfeitamente transposta, com as devidas particularidades, ao caso das colônias teuto-gaúchas, onde entraria, sem dúvida, Santa Cruz do Sul. Cito alguns trechos:

“Na Região Colonial Italiana, ainda hoje, é forte a recordação de violentos atos policiais contra colonos por falarem e cantarem em italiano; de crianças levando bilhetes para realizarem as compras familiares; do terror lingüístico conhecido pelos moradores das distantes linhas. Para essas memórias, os falares itálicos jamais teriam se recuperado dos golpes causados pela Lei do Silêncio. Essa interpretação nunca foi confirmada ou infirmada por estudos históricos. A explicação da dominância lingüística do português e do desaparecimento dos falares itálicos devido à repressão do Estado Novo aponta causa exógena à comunidade colonial para fenômeno essencialmente endógeno a ela – suas práticas lingüísticas.”

Adiante, no mesmo artigo, Maestri, ao comentar um trabalho acadêmico da historiadora Cláudia Mara Sganzerla – A lei do silêncio –, diz que, partindo do pressuposto que houve um “golpe fatal” da repressão lingüística durante o Estado Novo, a pesquisadora “abandonou as hipóteses iniciais ao, surpresa, não se deparar, para a região, com o decantado rosário de repressões e violências aos falares italianos. (...) Após contextualizar e hierarquizar os atos policiais e institucionais do Estado Novo, enquadrando-os espacial e temporalmente, Cláudia Mara traçou paisagem histórica bastante mais nuançada, precisa e complexa, rompendo com as interpretações maniqueístas correntes sobre a política de nacionalização da região. (...) Sem descurar as seqüelas das violências varguistas, corroborando investigações lingüísticas concluídas e em conclusão, Cláudia Mara sugere que as razões últimas da superação do talian sejam mais estruturais, encontrando-se aquém e além da Lei do Silêncio: crescente inserção da Região Colonial Italiana na economia nacional; desenvolvimento da mídia e da rede de ensino; interesse dos pais que os filhos dominassem o português, etc. A Lei do Silêncio: Repressão e nacionalização no Estado Novo em Guaporé (1937- 1945) [esse é o título do trabalho que Maestri está comentando], de Cláudia Mara Sganzerla, certamente apoiará outros estudos que ampliem a área analisada e, através da objetivação crítica dos fatos analisados, contribuam à superação da ainda importante opacidade criada por visões mitológicas e ideológicas do passado sulino e brasileiro.”

Senhora, a sua defesa de que “a diversidade existe, mas não é expressiva, historicamente falando, e muito menos, ‘desde os seus primórdios’ [onde parece citar-me sem fazer referência ao meu nome]”, parece querer legitimar a exclusão de outros grupos étnicos da formação de Santa Cruz do Sul, menosprezando a importância de inúmeras pessoas que colaboraram na conformação do município, antes mesmo de 1849. Permita-me colocar abaixo três pequenos artigos que escrevi ano passado, a partir das reflexões que realizamos junto ao Coletivo de Estudos e Debates Étnicos e Culturais de Santa Cruz do Sul (Cedecs), que se referem, em especial, aos negros e negras. Os textos sintetizam um pouco do que penso e a necessidade de se relativizar a “origem alemã” do lugar. Embora sem pretensões, sem seguir o “rigor científico” – e considerando que foram feitos para um jornal popular e não uma revista acadêmica – são todos pautados em “pesquisas sérias”, incluindo os escritos do professor Sílvio Correa [não estão colocados aqui].


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Professora,

Continuo acompanhando seus artigos no jornal e, por circunstância, um último que li, na Gazeta do Sul de 6 e 7 de outubro de 2007, Die Oktoberfeste. E também continuo a dizer que admiro a sua dedicação apaixonada pelo resgate/construção da identidade teuto-descendente aqui em Santa Cruz. Mas há momento em que julgo haver, para além de romantismos históricos e “polianice” em relação a Oktober, um abuso à beira da ofensa. A quem a senhora se refere quando diz “Nossa Oktoberfest” e “nossa região”? Eu estou incluído? Também estou tentando entender o que significa "a cultura e as tradições daqueles que historicamente transformaram este espaço [suponho que seja a região de Santa Cruz] natural e cultural”. Vou ser repetitivo: Meus parentes e parentes de meus amigos santa-cruzenses sem sobrenomes “alemães” estão fora? Os imigrantes e teuto-descendentes fizeram todas as coisas sozinhos? Nunca houve cultura anterior aqui no Vale do Rio Pardo e mesmo em Santa Cruz? O que dizer do Faxinal do João Faria, por exemplo? Não existiu este povoado [que deu origem à cidade]? Não houve nenhuma interação? Não houve em meio às comunidades teutas outras pessoas de outras procedências? Não houve alguma influência, a não ser o que trouxeram do centro da miserável Europa de meados do século XIX? Parece-me algo que se choca frontalmente com todas as evidências e a básica historiografia que tente escapar de exageros ideológicos. Se a senhora luta pela afirmação de uma identidade “alemã” para Santa Cruz, por outro lado, eu e muitas outras pessoas temos nos empenhado em “abrir” as perspectivas identitárias para algo integrador e policultural, evitando exclusões (sempre me vem à cabeça que será muito improvável que uma soberana da Oktober seja uma negra, mesmo que seus tataravôs tenham nascido aqui no município e a moça seja tão ou mais lindas que nossas doces Rapunzéis). Noto uma violência tremenda nisso, que é preciso avaliar muito bem os impactos.


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Prezada professora,

Muito importante as suas preocupações manifestadas no artigo “Nossa Linha Santa Cruz”. E uma oportunidade para irmos até além, percebendo que sempre há uma composição de gentes envolvidas na formação de uma comunidade, mesmo que pequena. Caso contrário, se acreditarmos em “purezas” e “direitos maiores” de um grupo, bem fácil caímos na discriminação e seus subprodutos perversos e que tanta dor já causaram (e ainda causam) à humanidade. E isso vale pra qualquer grupo social ou étnico-racial.

A senhora diz “Nós vivemos aqui e agora, antes de nós outros vieram e depois de nós outros viveram e depois de nós viverão. Não podemos perder de vista esta dimensão temporal histórica, social e cultural que constitui e constrói nosso lugar.”

Acho certíssimo e por isso até podemos recuar ainda mais quando falamos em Santa Cruz do Sul e em Linha Santa Cruz. A senhora sabe que devemos considerar que a picada se constrói em torno de antiguíssimas trilhas de povos indígenas (e depois caminhos de tropeiros vagos) que circulavam a região desde milênios, descendo e subindo a serra, do planalto até o rio Jacuí, limite natural com o pampa gaúcho.

A senhora também sabe que a picada foi originalmente aberta por trabalhadores negros e peões sob mando de empreiteiros e outros servidores pagos com recursos públicos, e que ganhou o nome de Picada do Abel – antes de se chamar Linha Santa Cruz –, alusão ao empreiteiro contratado anos antes da introdução dos primeiros 12 assentados, o sr. Abel Corrêa da Câmara – mas que acabou sendo levada a cabo (por outorga da lei provincial nº 111, de 6 de dezembro de 1847) por outro empreiteiro, Delfino dos Santos Moraes.

A senhora sabe que, a rigor, se trata de uma licença ideológica se dizer que estas primeiras levas são de “alemães”, já que não há o país e que muitos, mesmo considerando a divisão territorial européia de hoje, seriam poloneses (caso de 11 pessoas da primeira leva de 12). *A propósito, segue mais abaixo o comentário que publiquei no meu blog falando justamente disso [não colocado aqui].

Também dizer que eram terras despovoadas é impreciso, professora. Já há informações suficientes para demonstrar-se que toda a colonização com povos germânicos e outras gentes no Vale do Rio Pardo não se dá num vazio populacional. Como mencionei, considere-se os grupos indígenas que aqui se assentavam e circulavam sistematicamente desde séculos (até reduções jesuítico-guaranis tivemos nos anos de 1630 aqui no vale – inclusive uma em pleno território de Santa Cruz, a redução San Cristóbal, com 950 pessoas); considere-se os aquilombamentos, com negros e outros “parias” fugidos das cidades e fazendas na região, em especial de Rio Pardo, embretados em matas e montanhas (e sempre recuando na medida que os loteamentos rurais vão expandindo-se pela serra); considere-se os ocupantes e sesmeiros luso-brasileiros, trabalhadores negros e outros agregados que aqui estavam estabelecidos e conformavam o Faxinal do João Faria e rancharias ainda mais modestas espalhadas nos arredores.

Não entendo como esta riqueza de gentes, de referências geográfica, sociais e culturais é desprestigiada e mesmo desconstituída com discursos que forçam exclusivismos e purezas que me parecem mais fetiches de identidades étnico-raciais, cujos pressupostos, a menor contraposição seriamente embasada, “se desmancham no ar”, aludindo a outro intelectual alemão admirável, Karl Heinrich Marx. **Também a propósito, segue outro comentário sobre o assunto que postei no meu blog [não colocado aqui].

Agradeço a atenção e desejo tudo de bom.


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Prezado:

Leio esporadicamente com muito interesse a sua coluna no Riovale. Dias atrás, um fragmento me chamou a atenção: havia uma crítica a manifestações questionando o questionamento que historiadores e ativistas têm colocado na imprensa. O chapéu me serviu e então resolvi, cordialmente, mandar-lhe este e-mail.

Não se trata, como sempre digo, de menosprezar, muito menos negar toda a carga de dificuldades, esforço e sofrimento de milhares de indivíduos e famílias imigrantes e descendentes que se assentaram na região de Santa Cruz do Sul, em especial (mas não unicamente) alemãs. O questionamento se refere ao tom grandiloquente e mitificador, que parece tentar concentrar todas as virtudes em um ou dois grupos específicos, esquecendo que somos, independente de referências geográficas e culturais, seres humanos...

Recentemente, o senhor deve ter acompanhado, registrou-se os “130 anos da presença italiana no RS”. O caderno de cultura do jornal Zero Hora publicou uma série de textos, cujo enfoque e conclusões são perfeitamente aplicáveis para o caso da “presença alemã” no estado: recupera-se “a dimensão humana da vida da colônia, para além dos discursos laudatórios”. No artigo da professora Corteze, destaca-se que “O mito de um colono predestinado simplifica, estereotipa e empobrece a complexa história da imigração italiana.” No do professor Maestri, levanta-se a idealização de muita produção historiográfica, que escamoteia “contradições, tropeços e desastres”, propondo-se que o “progresso” da região deriva de uma essencialidade étnica do colono itálico, em contraposição (mesmo que não mencionada) aos povos nativos, caboclos, afro-descendentes etc., que “fracassaram” por “razões intrínsecas à raça”. Só para citar mais um artigo, da lingüista Florence Carboni, que aponta a simplificação ingênua de acredita que os falares itálicos nas colônias da serra gaúcha sucumbiram por conta tão somente restrições que ocorreram durante um período (três anos, mais exatamente) do governo de Getúlio Vargas, que, aliás, flertou por longo tempo com os países do Eixo...


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Senhor,

Muito interessante a sua crônica na GS de quarta-feira, 21/03. Aliás, acompanho-as sempre que possível, às vezes lendo na corrida, desde quando saía no Riovale. Penso sempre em fazer algum comentário, mas na hora “H”, acabo me envolvendo com meus afazeres, e perco a “inspiração súbita”.

Como me interesso pela “questão étnica”, as inter-relações entre grupos – ainda mais em nossa região –, prestei um pouco mais de atenção no seu último texto. E ponderei que a consideração final, de que não houve “interpenetração social e cultural” entre ciganos, tropeiros, negros – poderíamos falar de índios e diversos outros grupos migrantes e imigrantes – pode ser relativizada ou vista de outra forma. Para mim, não existe convivência, por mínima que seja, que não implique em mútuas, diversas, sutis ou “descaradas” interpenetrações culturais, sociais, etc. Um exemplo prosaico: o hábito do chimarrão. Acho que não se pode dizer que na região da hoje Alemanha, havia o consumo da erva-mate. Pra ficar no campo da gastronomia ainda: e o que dizer do consumo de feijão – algo aprendido pelos colonos nos primeiros dias de chegada ao Brasil? (Caso disponha de algum tempo, mando-lhe um comentário meu falando sobre as memórias de Luis Panke e a relação que estabeleci entre a mencionada leguminosa e os imigrantes em Rio Pardinho.)

Outra observação: Em relação aos negros, não creio que se possam reduzir as relações entre imigrantes teutos (entre outros) e seus descendentes como uma “acolhida” – mesmo que isso tenha de fato acontecido e seja algo louvável, emocionante, mesmo. Apesar das “proibições”, houve na região imigrantes que possuíram escravos, além de sistemas de “apadrinhamento” que, ao cabo, podem ser caracterizados com um regime de trabalho de servidão. A situação de proscritos – vivendo aquilombados em vários pontos do Vale do Rio Pardo, já bem antes de 1849 –, de miserabilidade, de discriminação sistemática – apoiada numa poderosa ideologia racista – de negros e mestiços (não-brancos em geral) os colocavam (e ainda colocam, basta ver os dados sócio-econômicos do Brasil de hoje) em situações de subalternidade, de submissão, de exploração medonhas. Nas zonas de colonização isso também aconteceu.

Penso que na “saga da colonização” está também a saga ou a tragédia do povo afro-descendente, dos autóctones americanos, de outros tantos povos que por aqui estavam e estão – até mesmo ciganos, grupo, como sabes, originado na mítica Índia, mantendo, ainda, explicitamente, elementos culturais daquele distante oriente. Ou seja, a saga não é algo feito em isolamento, creio eu. É algo complexo, cheio de “detalhes”, para além de romantismos. A saga dos colonos é a saga de todos nós, brasileiros, seres inapelável e culturalmente híbridos, onde não existem “purismos”. E me parece que “purismos” só servem para fertilizar “ovos de serpente” – algo que, infelizmente, não foi superado, mesmo com tantos exemplos de matança horríveis em nome de credos de vários tipos.

Agradeço a atenção. Abraço fraternal.

"Comentários selecionados"

Mais uma leva de comentários publicados em outro blog e que agora colo-os aqui também. Estão com as datas, indicando sua publicação "original", seguindo-se o título que dei ao texto.


01/03/2011

Alemanha faminta


Há uma novela do Stephen King publicado no seu livro Quatro Estações onde um menino prototípico norte-americano, loiro, saudável, inteligente, ativo, curioso, classe média envolve-se com um ex-comandante nazista que está tentando passar despercebido, vivendo pacatamente numa cidade também tipicamente americana. A relação vai deteriorando a vida do jovem; na medida em que ele vai crescendo, seus piores impulsos vão lhe sugando inclusive a sanidade mental, acabando tudo numa grande tragédia. Mas o que interessa no momento é que na história de King, o personagem nazi, já um velho senhor naquela altura (anos de 1970), usava nos campos de concentração (e extermínio) técnicas para “persuasão” de judeus, jogando com a fome imensa que debilitava, deprimia e punha os presos num permanente estado de desespero por comida; a promessa de uma refeição levava as pessoas a se submeterem de uma maneira aviltante, delatando companheiros de primeira hora; uma canalhice de primeira grandeza, nojenta.

Já para o término da Segunda Guerra, a população alemã – entre outros países envolvidos direta ou indiretamente na guerra (foi o caso da Índia) – estava a passar fome pelo desabastecimento, provocado pelos óbvios estragos na produção, beneficiamento e distribuição agrícolas, entre outras carência que atingiram milhões de pessoas como sub-produtos violentos de uma guerra já por demais violenta.

Mesmo com toda a ojeriza à nação alemã, associada – mais uma vez – a arrogância e barbarismos cometidos em nome de seu “direito” de dominar a humanidade por sua auto-suposta superioridade moral e racial, mobilizações pelo mundo todo foram feitas para salvar a Alemanha de uma desgraça ainda maior. No Rio Grande do Sul, nasceu uma organização, o Comitê de Socorro à Europa Faminta (SEF), que, apesar do termo mais geral, estava concentrada em alcançar alimentos e outros subsídios de sobrevivência à Alemanha exclusivamente. A iniciativa e liderança partiu de notórios germanófilos/germanistas, caso do gaúcho Pe. Balduíno Rambo, jesuíta, professor e pesquisador de geografia e botânica, além de liderança comunitária, escritor, enfim, um educador, cientista e intelectual engajado na sociedade gaúcha dos anos de 1930 até sua morte em 1961.

É interessante notar-se que a derrocada do governo alemão, capitaneado por Hitler, após tantas afrontas e sandices, acaba por receber a solidariedade – mesmo que pelo empenho de teuto-descendentes – de um país de mestiços e negros, antes colocados como degenerados, sub-humanos, passíveis de banimento.

Ao mesmo tempo, parece que não ocorreu a SEF socorrer populações não-alemãs atingidas igualmente de maneira terrível. Em meio a celeumas internas entre católicos e protestantes, a massa de judeus famintos emigrados, mesmo que alemães de nascimentos, parece que não foram considerados. Assim é que, num esforço “solidário” pós-guerra, o antissemitismo e outros preconceitos continuaram vigorando, demonstrando que o Ovo da Serpente continuava em seu ninho...


SURDINA

Toda a mobilização da SEF era feita à surdina. Sabiam que estavam lidando com rejeições. Rejeição a ajuda à população de um país por hora detestado, culpabilizado por uma guerra horrível e ainda perdedores humilhados do conflito. Rejeição, sobretudo, porque o Brasil, o Rio Grande do Sul vivia uma crise de carestia e desabastecimento de alimentos, levando a revoltas, incluindo Novo Hamburgo, “terra de alemão”, onde o tumulto popular envolvia a falta de farinha de trigo, implicando a demissão de autoridades municipais. Como se poderia ajudar os famintos da Alemanha quando, além de tudo, aqui mesmo na pátria brasileira tudo estava um caos – por conta, também, da guerra recém finda, onde milhares de brasileiros foram mortos pela forças armadas alemãs!

Padres, pastores e outras personalidades germanistas se empenhavam em minorar sofrimentos no além-mar, esforçando-se para reerguer um país há pouco inimigo e ameaçador a soberania de outras nações e francamente hostis a etnias “não-arianas” (além de buscar facilitar a deportação de cidadãos brasileiros retidos na Alemanha – possivelmente, entre eles, colaboracionistas ao regime nazista). Não era uma tarefa fácil, tranquila. E esses homens sabiam disso e tiveram perspicácia suficientes para agir com descrição e “jogo de cintura” (católicos e luteranos juntos, presença de lideranças luso-brasileiras, politicagens etc.), começando com a própria denominação apelativa e se referindo a toda a Europa, de Portugal a Áustria, mas, na prática e intencionalmente, dedicada exclusivamente à população alemã, como informa o artigo. Até o final dos anos 1940, conseguiram embarcar muita coisa, milhares de toneladas em alimentos e outros artigos como roupas e calçados, o que demonstra que obtiveram sucesso.

Hoje temos gente “bem posicionada” criticando o governo brasileiro por ajuda e perdão de dívidas a países subdesenvolvidos na África. Sem considerar a solidariedade entre povos (uma recíproca), ligações históricas com o continente africano (quase 400 anos de uso do trabalho escravo) e outros tipos de retornos ao Brasil, com o fortalecimento de vínculos políticos e econômicos com as nações “auxiliadas”; sem considerar tudo isso, tenho certeza que a mesma gente que faz tal crítica ao “paternalismo” e “incoerência” brasileira (quando temos tantos problemas sociais por aqui) apoiariam com entusiasmo a iniciativa de ajuda aos alemães em petição de miséria no pós-guerra – e assim o Brasil mais uma vez se tornando a tábua de salvação de milhares de famílias germânicas, como aconteceu com as assentadas em projetos de colonização estatais e particulares, como houve as centenas aqui no Vale do Rio Pardo. Óbvio que isso teve “retorno” ao Brasil também. Assim como há direta e indiretamente com o ajuda externa a países hoje em grandes dificuldades – mesmo que o Brasil tenha problemas, como outrora tinha e mesmo assim, mostrou-se solidário.


GRATIDÃO...

Pe. Rambo e os intelectuais orgânicos da germanidade e outros difusores desta ideologia argumentavam que – ainda mais numa situação de penúria da Alemanha pós-guerra (1945) – havia uma “dívida de gratidão” dos teuto-descendentes no Brasil a ser resgatada. Forçava um elo com a designada “pátria-mãe”. Mas quando refletimos que, na realidade, a esmagadora maioria dos imigrantes foi praticamente defenestrada, expurgada, expulsa economicamente de suas regiões por conta da concentração de renda, de terras, de bens de produção na mão de nobres e grandes proprietários rurais e burgueses, seria mais adequado se dizer que a Alemanha agia não como uma boa mãe, e sim como um padastro violento, egoísta, que não considerava autênticos filhos aqueles pobres coitados; para a sua segurança, era melhor vê-los pelas costas, pois nada mais detestável que reclamações, revoltas e outras ameaças as suas benesses de patrão... Passados anos, depois dos dialetos e hábitos profundamente transformados pelo convívio em outra nação, com outros povos locais e estrangeiros (outros imigrantes), então vem germanófilos, quase sempre privilegiados economicamente (e até viajados para a Alemanha) pedir reverência ao padastro! Por favor...

Em nome de uma germanidade postiça, patrocinada por ideólogos vivendo longe do cotidiano do trabalhador urbano ou rural teuto-descendente remediado ou empobrecido (veja-se o número de pessoas com sobrenomes tipicamente germânicos entre os sem-terras e assentados da reforma agrária, por exemplo), se busca produzir uma identidade ligada com uma Alemanha de hoje ou de um passado utópico de onde teriam partido os “intrépidos”. Enquanto isso, a riqueza etno-cultural da teuto-brasilidade perverte-se em oktoberfestes e aprendizado do alemão padrão – jamais falado por antepassados do século XIX (se fosse um estudo dos dialetos, sua evolução na interação com outros dialetos germânicos e o Português, seria excelente, mas aprender o alemão contemporâneo, qual é o objetivo? Rememorar e homenagear quem jamais falou tal língua?). Por favor...


SIMPATIAS

Pe. Rambo parece que além de um erudito, pesquisidor de botânica e fisionomia geográfica do Rio Grande do Sul, foi um infatigável germanófilo e germanista, crente na superioridade dos povos germânicos e numa espécie de missão divina a ser desempenhada pela Alemanha no mundo e que ele acreditava presenciar antes do final da sua vida. Rambo, se não aderiu diretamente ao nazismo, parece ter nutrido uma simpatia ao regime de Hitler; tinha uma expectativa positiva pelo regime liderado por Hitler e manifestou um pesar pela derrocada do nazismo, mas anunciando uma esperança profética de, no futuro, a Alemanha mostrar à humanidade a que veio...


FLORESTA

Ao mesmo tempo, Rambo amava as florestas. Visitou parques nos EUA e foi por sua iniciativa que o Aparados da Cerra se tornou uma realidade no RS. Em seu romantismo, olhava as árvores como seres sagrados, presentes na história do mundo, merecendo reverência. A atmosfera em meio às matas formava um templo propício a se sentir a "presença de Deus".




10/12/2010

Mais “alemães” que a Alemanha


A polêmica na escolha da Rainha da Oktoberfest (2010) de Santa Cruz do Sul é das mais interessantes. Em minha opinião, revelam-se aí os limites da tolerância étnico-racial no município e abre-se a farta mala de diversos preconceitos que nutrimos – vários maquiados por “justificativas culturais”.

Queremos ser mais alemães que a Alemanha, escolhendo como soberana da principal festa municipal uma estereotipagem de jovem germânica, ou seja, uma loira de olhos azuis – como se isso fosse algo geral no conjunto de povos de onde chegaram os primeiros imigrantes ditos alemães ou, ainda menos, do que é o norte da Europa atual.

Bastaria, como já foi aludido, pensarmos na seleção de futebol alemã das últimas copas. Há, entre os jogadores, representando o que há de melhor no país de Beckenbauer, uma pluralidade étnico-racial exuberante, incluindo afro-descendentes – sendo, inclusive, um deles, brasileiro naturalizado alemão.

Mas aqui, mesmo com todas as evidências de um já avançado – e, na verdade, desde o princípio da formação do município – processo de intercâmbio étnico, se quer exclusivismos raciais, o que configura, sem meias palavras, racismo, ou seja, a ideologia supremacista, que hierarquiza e diz, em suma, quem manda e quem obedece (ou quem deve viver e quem deve ser morto, lembrando os campos de concentração do governo alemão de algumas décadas atrás).

Onde a teuto-brasilidade deveria preponderar, vê-se a patética tentativa de afirmar elos com uma Alemanha contemporânea – pouco a ver com os lugares de onde partiram no século XIX as massas de pobres que foram assentadas em terras brasileiras –; uma “Deutschland” onde chega-se ao absurdo de “tradicionalizar” um esporte jamais praticado nas comunidades teuto-brasileiras – o Eisstocksport; até as cores alusivas à germanidade são da bandeira de um país que sequer existia nas primeiras e mais expressivas décadas da colonização germânica no Rio Grande do Sul.

Mas há bons sinais. Até mesmo autoridades locais têm criticado o ”paradigma” (sic) racistóide escondido atrás de argumentos que, ao fim e ao cabo, exigem a “pureza da raça” para ser “a” representante simbólica feminina da beleza, inteligência e simpatia santa-cruzenses. Nisso, a comissão julgadora prestou um bom serviço. Quiçá tenhamos em breve – como disse a secretária de turismo neste ano (2010) – uma moça negra soberana, para tornar de vez a Oktober uma festa que não discrimina, mas representa a variedade étnica que compôs e compõe Santa Cruz do Sul, desde quando o povoado primevo se chamava Faxinal do João Faria.

*Na foto (divulgação), Cacau, brasileiro de Santo André, SP - naturalizado alemão -, no ataque da Seleção da Alemanha, em plena Copa do Mundo 2010, comemora o gol sobre a seleção australiana (foto divulgação).




16/07/2012

Santa Cruz e Kiev


Volta e meia, cá estou com esta questão meio rabugenta: aqui em nossa região, de forte germanidade, muitas pessoas têm uma posição vitimista em relação as ações que tentavam coibir o uso dos dialetos teuto-brasileiros nos anos de 1940*.

Pois é notável como se “esquece” o contexto da situação de coibição desencadeada em todo o Brasil e que atingiu a população teuto-descendente, mas também descendentes de japoneses e italianos. No caso de Santa Cruz do Sul à época, eram comunidade onde, inclusive, se deve considerar a existência de lideranças que propugnavam uma aguerrida germanidade, em alguns casos, pautada no ideário e cultos cívicos nazis. Isso estava acontecendo no período de mais uma guerra mundial, onde a Alemanha se postava como a nação que deveria dominar o mundo, já que possuíam o povo mais perfeito do planeta (arianismo), e diversas atrocidades estavam sendo cometidas em nome da pureza racial. Além, por exemplo, de torpedeamento de navios brasileiros (que implicaram na morte de mais de mais de mil brasileiros), aconteceram atrocidades quase inenarráveis, demonstrando extremo e mortal ódio étnico – era o antissemitismo radical em ação, além dos expurgos e eliminação de outras populações e indivíduos.

Um caso:

Em 1941, em Kiev (ilustração acima, como seria em 1870/80), Ucrânia, os alemães assassinaram praticamente toda a população judaica da cidade. Em 36 horas, na ravina de Babi Yar, quase 34 mil pessoas foram mortas, enterrados numa grande vala comum, alguns ainda vivos. Tudo porque, na paranóia nazi, o culpado até por pequenos insucessos do exército alemão na guerra – como aconteceu na ocasião, com um bombardeio que matou alguns soldados alemães no centro de Kiev –, “só podia ser” o povo judeu... Tais barbarismos racistas eram função e especialidade principalmente dos Einatzgruppen, “unidade móveis de extermínio da SS, que segundo estimativas, teriam assassinado mais de 1,5 milhão de judeus, ciganos, comunistas e ativistas políticos à medida que o exército alemão avançava pelo Leste Europeu e pela União Soviética”, conforme está dito na página 729 do livro “1001 Dias que Abalaram o Mundo” (2009, editora Sextante).

Diante disso, diante do metódico e frio assassinato racista de milhões de pessoas, incluindo crianças, velhos, mulheres grávidas por parte da Alemanha nos anos da guerra, com podemos classificar a “revolta”, a indignação quanto a proibição do uso dos dialetos “alemães” em Santa Cruz do Sul? Por favor... me parece até uma mesquinharia, uma chorumela infantil, porque não contextualiza, não considera os reflexos internacionais – numa cidade (Santa Cruz) onde havia até um vice-consulado da Alemanha – do que estava acontecendo na nova escalada bélico-imperialista da “nação alemã”, sendo que, a cada dia, mais notícias horríveis, de fato revoltantes corriam o mundo! Nesse contexto, onde a nacionalidade/identidade alemã “naturalmente” se apresenta e se configura no imaginário tão negativamente a partir de atos concretos da Alemanha nazista e na guerra imperialista desencadeada em 1939, as restrições que começaram a existir (depois do governo Vargas ter flertado por longo tempo com os nazis) e até os atos excessivos, raivosos contra “alemães”**, todas esses acontecimentos podem ser – não justificados – mas compreendidos sem lamúrias e imputações exageradas – caso da decadência do uso dos dialetos***.


*Também como sempre me refiro, os dialetos falados “na colônia” são algo bastante diferente da língua alemã, como comum e equivocadamente muitos se referem, já que, ao tempo das primeiras levas da imigração para o Vale do Rio Pardo, sequer havia a Alemanha, surgida como país após uma forçada unificação em 1871; vindos de diferentes regiões, os imigrantes falavam diferentes dialetos, que foram se “misturando” entre si e com o Português, resultando e novos dialetos, que podemos classificar como teuto-brasileiros.

**Concebo a designação “alemão” ou “alemã” como uma identidade construída (colocando num liquidificador descendentes de diversos países europeus, da Boêmia, da Saxônia, da Polônia, Áustria, Bélgica, Rússia, Hungria etc., resultando no suco comum chamado “alemão”) e desenvolvida zelosamente cultivada por muitos, ao ponto de se colocarem em contraste aos “brasileiros”, ou seja, aos “demais”, os “sem origem alemã” – em especial lusos, negros, índios e mestiços.

***O desuso dos dialetos podem ser entendidos pela natural incorporação das comunidades teuto-brasileiras, pela migração cada vez maior de parentela para as cidades, pela expansão das comunicações – transporte, jornais, rádio etc –, da escola pública no meio rural; da integração econômica levando a uma integração social e cultural cada vez maior e mais efetiva, desencadeando eventos como os casamentos “interétnicos” e “inter-religiosos”, aos hábitos cada vez mais “urbanizados” e cosmopolitas.




10/12/2010

Teuto-brasilidade x Alemães no Brasil


Triste observar que festividades como a Oktoberfest em Santa Cruz do Sul acabem por configurar-se como uma deturpação histórica, instituindo uma “cultura” que se reporta a elementos estereotipados da Alemanha contemporânea – até mesmo no que se refere ao folclore que lá persistiu –, em menosprezo ao autêntico e rico caldo cultural surgido na interação ocorrida nas comunidades onde imigrantes (de diversas regiões) e descendentes teutos (entre outros) se assentaram e conviveram no sul do Brasil.

Observando pinturas do artista porto-alegrense e teuto-descendente Pedro Weingärtner, falecido em 1929 – viajado e formado também na Europa, incluindo Berlim, Paris e Roma – de vasta produção. Entre vários temas, há retratos da talvez mais autêntica festividade teuto-brasileira no Rio Grande do Sul, o kerb. Mas ao contrário da imagem maquiada de “alemães” vestidos a la Fritz e Frida – duas caricaturas importadas e fixadas artificialmente como “alemães típicos” –, vemos as pessoas com suas roupas domingueiras – incluindo, lenços, ponchos bombachas, bota e vestidos tipicamente gaúchos e brasileiros da época. Nada a ver com chapeuzinhos e macacões “bávaros”, que fazem da Oktober literalmente uma festa a fantasia, uma espécie de carnaval de inverno (ou melhor, de outubro).

Há mais elementos no retrato a demonstrar o entrecruzamento de hábitos trazidos das regiões que mais tarde formaram o país Alemanha e arredores, com os já arraigados na colônia da região do rio Sinos, na província de São Pedro, Império do Brasil. O próprio prédio, com todos os traços das típicas edificações luso-brasileiras, incluindo as “telhas portuguesas”, é enfeitado com as guirlandas tão associadas à germanidade.

Também temos esboçado na pintura de Weingärtner a diversidade fenotípica e separatividades sócio-”raciais”. Da janela, a mulher negra, com seu lenço na cabeça, observa – por de trás de meninos no peitoril do lado de fora – a festa onde provavelmente a sua “dona” se diverte. Ou seja, a comunidade teuto-brasileira convive e está inserida plenamente na sociedade onde a escravidão da população afro-descendente é “normal”. Aliás, não eram raros, como apontam estudos e relatos (embora em pequena medida), os casos de teuto-descendentes proprietários de escravos – ou “padrinhos” de negros e negras, situação que não formalizava a propriedade da pessoa, mas se estabelecia uma situação de exploração da mão-de-obra.



10/12/2010

Demolindo memórias: uma Santa Cruz que vai desaparecendo


Lamentável o que continua acontecendo com a cidade de Santa Cruz do Sul. Suas antigas edificações, casas e prédios comerciais e industriais estão dando lugar a edifícios – muitas vezes de uma beleza e complexidade de uma caixa de sapato, ou seja, uma mediocridade com o fim único de abrigar o maior número de possível de comércios, serviços e habitações, cada vez mais semelhantes a locais de confinamento...

Interessante observar que a cidade, que se diz orgulhosa de seu passado, destrói, literalmente, suas memórias concretas. Nada resiste a tentação do faturamento. Discursos sobre “nossas tradições” não resistem um minuto à cupidez do bolo de dinheiro fácil. Abre-se mão de convicções bem rapidamente. Ou, na verdade, nunca se teve: tudo sempre foi um discurso vazio.

O que define uma cidade na prática se não sua urbanização: edificações, ruas, áreas verdes, passeios, praças etc? Assim, estamos descaracterizando Santa Cruz de forma aguda. Aproximamo-nos velozmente (no centro, em especial) de um mercadão visualmente indigesto, desconfortável: poluído, feio, sem caráter – ou com aquele caráter-padrão, igual a tantas outras cidades que estão neste processo.

Triste também o pouco empenho da comunidade e da sua administração. Como não temos uma política efetiva e eficiente para a preservação e promoção do patrimônio arquitetônico? Será que todos se dobraram à lógica do ganho imediato ou estão alienados para tais questões urbanísticas de alto impacto no futuro da cidade? Afinal, que cidade queremos viver e ver nossos filhos e netos crescerem?

Lembro de uma palestra do José Lutzenberger na Câmara de Vereadores aqui de Santa Cruz; o agrônomo e ambientalista premiado, conhecedor do mundo, teuto-descendente “da gema” (filho do afamado arquiteto e artista alemão Lutzenberguer, radicado em Porto Alegre) perguntava ao público do evento o que estava acontecendo com Santa Cruz? A cidade perdia notoriamente suas edificações antigas. Por que não se fazia como na Alemanha, onde prédios históricos eram zelosamente preservados, convivendo com a arquitetura contemporânea, dando um ar ao mesmo tempo aconchegante, tradicional e moderno? E isso foi dito lá por 1995!

O caso é que queremos ser uma Alemanha só de Oktober – carnavalesca, caricatural, de papelão pintado. Copiamos – mal e indevidamente (deixando de lado a rica cultura verdadeiramente teuto-brasileira –; um folclorismo importado, mas dizendo que se trata de “nossas raízes” (desde quando houve na região de Santa Cruz alguma Oktoberfest ao longo do século XIX até meados de 1980?). E o que de fato há de admirável na Europa, damos de ombros e agimos com aquela mesquinharia cretina, cada vez mais se estampando em suas nossas.

Triste fim de uma cidade outrora singular, simpática... (Além das edificações antigas, áreas como o Cinturão Verde – outra marca da cidade – também estão cedendo à especulação imobiliária.)




21/02/2009

Carmen e os nazis no Brasil de Getúlio



Ruy Castro, jornalista e escritor, em entrevista publicada em Zero Hora no dia 9 de fevereiro passado (2009) falando sobre o seu livro Carmen: Uma Biografia, tratando da cantora e atriz brasileira Carmen Miranda [ilustração ao lado], diz o seguinte, respondendo sobre a acusação de “americanização” que pesava sobre a “pequena notável” após sua instalação em Hollywood, tornando-se uma beldade de fama internacional:

“O verdadeiro público da Carmen nunca a chamou de ‘americanizada’ nem isso era um pecado na época – em 1940, os EUA eram os heróis do mundo. Quem não gostou de ouvi-la falando ‘Hello, peoples!’ foi a platéia do Cassino da Urca [no Rio de Janeiro] naquela noite em que Carmen tinha aceitado dar um show beneficente a pedido da primeira-dama, dona Darcy Vargas. Essa platéia era formada pelos membros da ditadura Getulio Vargas, totalmente simpática ao nazismo [não excluindo o próprio mandatário do país] naquele tempo: os ministros, os militares, os empresários alemães e seus sócios brasileiros.”

Essa fala de Castro me fez lembrar – e reiteradamente lembro disto – o discurso de auto-vitimização que vulgarmente observamos por parte de uma intelectualidade germanófila na cidade e região. O governo Vargas e a figura deste político gaúcho são satanizadas como “anti-alemães”, “esquecendo-se” que, na verdade, antes de uma tomada de posição – tardia, até – pró-aliados na Segunda Guerra Mundial, o alinhamento com o totalitarismo alemão liderado por Adolf Hitler foi grande e, em conseqüência, houve, sim, apoio a posturas fascistóides, culto ao arianismo e quejandos. A extradição de Olga Benário é um exemplo do colaboracionismo oficial com o governo e a ideologia nazi.

E também se subtrai o contexto de uma guerra onde a Alemanha encarnava o terror, a crueldade e a arrogância sobre forma de ação bélica violentíssima, imperialista, pretendendo “simplesmente” dominar o mundo em nome da suposta superioridade racial do seus cidadãos – que, na época, massivamente respaldava o governo do “fuhrer”.

Claro que se deve reconhecer: no acirramento da antipatia contra uma Alemanha invadindo países, torpedeando navios brasileiros, notícias sobre extermínios em escala industrial etc., houve manifestações e posturas que exacerbaram e foram injustas, despropositais, pura desforra irracional. Mas que devem ser contextualizadas: o clima era de revolta contra os alemães e, assim, contra tudo que se ligasse a nacionalidade e etnia germânica no Brasil naqueles momentos de emoções incontidas, tal os barbarismos anunciados.




17/09/2012

Garrafada na cabeça


Seguido ouço dizer que “racismo é coisa que não existe mais”; “isso é uma bobagem, hoje somos todos iguais”; “não há mais preconceitos, ainda mais entre os jovens”...

Bueno, além de desconsiderar todo um avanço de células nazifascistas na Europa (inclusive Alemanha), constituídas basicamente por pessoas de 20 anos, além de todos os indicadores socioeconômicos brasileiros (colocando a população nos piores patamares de educação, posição social e qualidade de vida), além desses aspectos de indicadores técnicos e noticiários cotidianos, parece que se desconsidera atos como o ocorrido há poucas semanas (10 de agosto de 2012) aqui pertinho. Pois numa estação do Trensurb de Porto Alegre (Estação Mercado) um jovem (21 anos) se fez um desafio perante um amigo que estava nesse banheiro público: “o primeiro negro ou mendigo (olhem que correlação interessante!) que aparecer, eu vou dar uma garrafada (de uísque) na cabeça do maldito”. Dito e feito: um outro jovem, de 24 anos, negro, antes de embarcar para o trabalho, entrou no banheiro da estação e, enquanto urinava, recebeu, de costas, a garrafada na cabeça, como detalhou o jornal (Zero Hora, 11/08, p. 40).

Ou seja, um jovem porto-alegrense, nesta segunda década do século XXI, movido pelos mais tacanho preconceito social e ódio racista, agride barbaramente outra pessoa por ela identificada como negra e, portanto, passível de um tratamento aberrante, desumanizador, de inaudita e potencialmente letal violência.

E esse rapaz passou por uma escola e viveu aqui no RS – e não em Marte ou na Josnesburgo do famigerado Apartheid – o seu processo de socialização... O que aconteceu, então? Mas, mesmo assim, dizem que “o racismo não existe entre nós” e essa é “uma questão menor”... Menor para quem não leva a garrafada na cabeça por conta de sua aparência...




30/03/2012

Tradição há seis meses...


Pode um pão de forma lançado no mercado no ano passado (2011) receber o nome de “Tradição”??

Não só pode, como há! A empresa mexicana Bimbo, que comprou a Nutrella de Gravataí, está vendendo o fatiado Tradição, que, além da denominação do produto que remete a um passado longínquo, a ancestralidade, a algo desenvolvido de forma artesanal, tem no seu logotipo, começando pelo lettering em letras cursivas (“escritas à mão”), uma colher de pau, um rolo de massa, um jarro de leite e uma tigela de bater a massa feitos de louça, fechando, ao fundo, com um saco de tecido contendo a farinha de trigo identificado com ramos do cereal.

Contrabandeando mais uma vez o historiador Hobsbawm***, temos mais uma situação de “tradição inventada” – no caso, um embuste marketeiro. Iludidos pelo estratagema cosmético-comercial via embalagem, compramos um produto megaindustrializado, feito aos milhares por hora numa linha de montagem automatizada, dentro de uma bilionária empresa transacional... pois compramos tal alimento como se feito por alguma senhora de avental, que mora lá num bucólico recanto, açando o seu pão num rústico forno de barro... E nem reclamamos da engambelação! Na verdade (parece), gostamos/desejamos essa ilusão – entre várias outras humanas situações de “eu quero acreditar”, com diz o subtítulo daquele filme de 2008 da série Arquivo X, sobre ETs e outras paranormalidades.

Não são só produtos de panificação (já mencionei biscoitos da zona de colonização ítala no RS) que recebem essa “cobertura artificial de passado”. Há muitíssimos e variados exemplos. A Oktoberfest é um deles, marcante pela invencionice à beira do patético – e perversora da história das comunidade teuto-brasileiras –, como já disse gente como Flávio Kothe, nascido em Santa Cruz do Sul em 1946, professor na UnB, doutor e livre-docente em Teoria Literária e Literatura Comparada, com pós-doutorado em Yale e nas Universidades de Konstanz, Heidelberg, Bonn e Berlim (tudo isso pra dizer que não é só um cururu como eu que fala isso da Oktober, mas uma santa-cruzense "legítimo", “da gema”, com “sobrenome alemão”, de “família tradicional”, que estudou e se pós-doutorou na Alemanha, entre outros países, sendo professor na prestigiada Universidade de Brasília, autor de dezenas de obras, incluindo um clássico dos estudos acadêmicos na área da Literatura Brasileira, a “trilogia” O Cânone Colonial, O Cânone Imperial e O Cânone Republicano).

Voltando ao pão de forma: a empresa nem se constrange em apresentar o seu produto, conforme está destacado na parte “de baixo” da embalagem:

Novo Pão de Forma Tradição, a novidade que vai deixar o seu dia a dia ainda mais gostoso.

Ou seja, usa as palavras “novo” e “novidade” na mesma frase para anunciar algo que se chama “Tradição”...

Cinismo? Esquisofrenia? Imbecilidade pura e simples? Imbecilidade deliberada? Talvez de tudo um pouco nesse mundo onde – me arrogo a dizer “filosofando” – vivemos quase sempre na superfície das coisas, sustentados numa densidade feita de babaquices; numa atmosfera baseada em falsidades e fantasias, alienados da vida para além das aparências e convenções sociais.


*** Me refiro ao livro de Eric Hobsbawm (em co-autoria com Terence Ranger), “A Invenção da Tradição”. Conforme a mini-resenha no site da Submarino, "Os autores mostram como a 'tradição' - base do nacionalismo e 'prova' de uma espécie de antiga e inatacável superioridade dos povos - é uma construção, algo criado, inventado".



09/06/2011

Um fantasma racista assombra concursos de beleza


Na minha opinião, concursos de beleza focados em um perfil étnico-racial são extremamente problemáticos. Retirando-se outras questões, como a da “mulher objeto” e a ditadura do padrão estético (magra, alta, jovem etc.), há o componente da discriminação fenotípica – um caminho ao racismo. Se o concurso é “Beleza Negra”, não entram brancas; se é “A Mais Bela ítalo-descendente”, retira-se as demais moças de outras nacionalidades.

No caso do “Miss Germany no Brasil”, pelo que li na imprensa local, o pré-requisito básico é que as concorrentes sejam descendentes alemãs até a terceira geração. Todas muito jovens (de 15 a 25 anos), com os cabelos loiros e pele claríssima, encarnam o estereótipo da “legítima moça alemã” – desconsiderando, aliás, que, na própria Alemanha, o perfil populacional tem um fenótipo muito mais diversificado, com a incorporação de inúmeras origens étnicas, configurando múltiplas cores de pele, tipos de cabelo, cor de olhos, formas de narizes, bocas etc.

O que mais me preocupa – até porque isso ignorado, nem passa pela cabeça dos promotores de tais concursos – é a ideia de “pureza racial” que está na base desses eventos; exige-se a exclusividade (só brancas, só negras, só “germânicas”, só “italianas”), ou seja, a “não-mistura racial”, quando vivemos num mundo cada vez mais a miscigenado e aberto a diversidade. Pode acontecer que, os pais que mantém características associadas a descendências (“alemães”, “italianos”, “africanos”...) e querem que suas filhas um dia concorram em tais certames, terão de buscar seus pares sexuais-reprodutivos entre símiles étnico-raciais. Caso contrário, caso a criança absorva certas cargas genéticas, ficará “imprestável” para concursos etnicamente fechados...

Acho que se deve entender ou relativizar certos casos, como, por exemplo, a escolha da “Mais Bela Negra” de Santa Cruz. O evento foi criado como alternativa a concursos onde as moças negras sequer cogitam em se inscrever, caso da “eleição das soberanas” da Oktoberfest local – a festa onde a “beleza máxima” santa-cruzense é representada por moças brancas. Há, assim, no “Mais Bela Negra”, uma compensação, buscando valorizar também a beleza de mulheres negras, ordinariamente, como já disse, impedidas – implícita ou explicitamente – de participar do certame (estético feminino) por seu explícito “corte étnico”.




22/12/2011

Sessão Exclusão


Pessoal,

Estou compartilhando com algumas pessoas o meu questionamento quando a uma postura na divulgação da sessão do Amigos do Cinema que vai ocorrer hoje, 19/12. Recebi o convite e fiquei indignado com o que está dito. No final do texto escreveram assim:

Será uma forma singela [a sessão de cinema em Linha Santa Cruz, com o filme A Ferro e Fogo, a partir da obra homônima de Josué Gimarães, autor que aparece na foto acima] de lembrar a data da chegada das seis primeiras famílias de imigrantes alemães em 19 de dezembro de 1849, provenientes da Silésia e do Reno, na “Alte Pikade” (Picada Velha) como se denominava Linha Santa Cruz na época, iniciando-se assim a sua história e também de Santa Cruz do Sul e região.

Como assim “iniciando-se assim a sua história [dos ‘alemães’ na região] e também de Santa Cruz do Sul e região”??? Ou seja, estão dizendo que os “alemães” começaram TUDO por aqui, até mesmo a história da região? Na minha visão, trata-se da continuidade de uma mentira, de uma manipulação ideológica, uma ignorância sobre a historiografia local e regional – tudo isso misturado.

Não gostei. Até pode ser legal relembrar os antepassados e homenagear seus esforços, mas não precisavam insistir neste conto moral apologético à beira do racismo. Todos os outros grupos e personalidades “não-alemãs” são subalternizados, invisibilizados nessa “nossa história”. Meus vizinhos negros do bairro Linha Santa Cruz, as muitas famílias mestiças, os sem-descendência “germânica”, toda essa gente mais uma vez vai ser “catequisada”; ficarão “sabendo” que são párias e só chegaram depois de toda a maravilha estar pronta pelo esforço dos “donos da história”. Enfim, tudo aquilo que lutamos para relativizar, incluindo o que de fato é: há muito mais diversidade e vários outros grupos étnicos na construção da sociedade santa-cruzense.

Acho que o Amigos do Cinema estão envolvidos num tipo de comemoração que não faz jus a amplitude do cinema e as possibilidades de reflexão e criticidade que muitos filmes podem nos suscitar.

Abaixo, segue o “retorno” que enviei ao pessoal que me enviou o convite, além do texto completo do convite mencionado.

Até mais!

Iuri


********************



Muito boa iniciativa de fazer a sessão do Amigos do Cinema em Linha Santa Cruz. Bem como relembrar a trajetória dos imigrantes germânicos no RS e em Santa Cruz. Mas tenho que discordar de algumas alusões, em especial o que está dito na frase final do convite, ou seja, que a “chegada” (a palavra deveria ser “introdução”, por trata-se de um projeto de colonização do governo provincial) dos imigrantes “alemães” (em termos de designação, trata-se de uma outra imprecisão) teria iniciado “a sua história [dos imigrantes] e também de Santa Cruz do Sul e região”.

Não vou dizer que é uma inverdade, mas está muito próximo disso. Se não é fruto da ignorância, trata-se de uma manipulação ideológica, que subverte a historiografia e produz uma subalternização e invisibilidade a outros grupos e personalidades “não-alemãs” aqui do município e região. Uma enorme injustiça e violência simbólica contra quem também esteve aqui e desenvolveu Santa Cruz – antes da chegada de qualquer europeu do norte.

Para quem se dispor a estudar a história local para além das rasas narrativas apologéticas germanófilas, algumas à beira do racismo, saberá que a ocupação da região inicia-se com grupos indígenas, destacando-se os antepassados e os atuais kaingangs e guaranis. Especificamente, temos o Faxinal do João Faria, povoado bem anterior a colonização germânica. É ali que surge a cidade de Santa Cruz e onde são recebidos (após desembarcarem em Rio Pardo), os novos assentados europeus, contando, em suas primeiras levas, com subsídios do governo, incluindo cerca de 72 hectares de terra.

João Faria Rosa era um sesmeiro, cujos trabalhadores escravizados, parentela, agregados e famílias avulsas perfaziam o Faxinal. O neto de João Faria recebeu e acantonou no sobrado familiar os primeiros sem-terra germânicos, conforme registra Bittencourt de Menezes na publicação de 1914, “Município de Santa Cruz”. As primeiras vias e loteamentos rurais foram feitos com recursos públicos e realizados por técnicos e capatazes lusos e trabalhadores negros escravizados, entre outros trabalhadores humildes. Holandeses, belgas, russos, austríacos e até cearenses, entre outros grupos – além da miríade de pessoas de regiões que só mais tarde vieram a se tornar o país Alemanha e vizinhanças –, foram assentados ao longo dos anos. Quilombolas e indígenas continuaram existindo, buscando sobreviver a ocupação branca, conforme registro de historiadores como Jorge Cunha.

Por anos estamos lutando para que não se “patrole” e se perverta a historiografia em nome de orgulhos étnicos que, de tão “orgulhosos”, “esquecem” e subestimam todos os outros grupos e pessoas sem determinados sobrenomes e fenótipos. Acho que a associação de moradores, a escola e o Amigos do Cinema prestam um desserviço nesse sentido da integração e comunhão comunitárias, porque estão insistindo em homenagens sem lastro histórico verídico e completo, eivadas de ideologia e sentimentalismo étnico-racial. Há uma vasta e interessantíssima história das comunidade teuto-brasileiras que dá lugar a mixórdias artificiais, como já denunciou Flávio Koth, santa-cruzense professor da UnB, entre outros estudiosos sérios.

É o que eu penso. Abraço do

Iuri.


***Interessante que ninguém do Amigos do Cinema (nem quem me enviou o e-mail) se manifestou. Talvez ignoraram ou ficaram envergonhados... O pior é ignorarem. Acho que alguns simplesmente ignoram, porque têm uma posição sectária sobre o assunto e não admitem questionamentos, porque isso “abala as estruturas” – inclusive de suas personalidades, calcadas numa construção indenitária onde os “meus antepassados são os melhores mais importantes”.

***Muito obrigado pela atenção. Muito bom que houve uma reação ao meu comentário. O pior é o silêncio.

Copiei e "editei" o texto a fim de destacar o ponto onde (perdão) "a maionese desanda", na minha opinião. Não se tratava de nenhuma crítica ao filme em si, adaptação do livro do Josué, que li há anos e gostei muitíssimo - como várias outras "sagas gaúchas", caso de O Tempo e o Vento e, de alguma forma, o Videiras de Cristal, Quem faz Gemer a Terra, A Valsa da Medusa e Pequena História da Amor, os dois últimos escritos por santa-cruzenses, a Valesca de Assis e Wilson Müller , respectivamente, tratando diretamente dos teuto-descendentes aqui de Santa Cruz (fazem isso com enorme sensibilidade e fidedignidade histórica). Critique o Amigos do Cinema pontualmente, por estar "assinando" um convite que me indignou pela perspectiva histórica e social - uma luta que travamos coletivamente a mais de década.

Deixei bem claro que acho bacana e justo que se homenageie os antepassados e, obviamente, os teuto-descendentes aqui em Santa Cruz e região. Absolutamente nada contra o Amigos de Cinema fazer isso. Minha discordância, como disse, é pontual e se refere ao reforço, através de um convite, a um tipo de comemoração baseada em uma perspectiva germanófila, que afirma que os alemães iniciaram a história de Santa Cruz e região.

Quanto a "adjetivação raivosa" (gostei disso!) é completamente espontânea e a uso comumente nesses momento de indignação; tenho dificuldade em tolerar a repetição de uma abordagem germanófila - equivocada e geradora de exclusão. Tento minimante fundamentar isso, fazendo algumas alusões historiográficas e até citando obras e autores. Uma pena que possa soar pedante.

Talvez pudesse ser mais diplomático. E aceito de bom grado a dica e todas as suas ponderações no e-mail. Louvo a existência/persistência do Amigos do Cinema. Mas foi uma pisada na bola feia! Que bacana que houve esse reconhecimento. Agora é tocar para frente!


***Valeu! Como sempre, tuas mensagens são instigantes, inteligentes e humoradas - com aquela ironia temperando o papo.

Acho que a reação minha e de outros valeram para demonstrar que o debate sobre a etnicidade local está vivo e não se vai deixar passar afirmações absurdas todas as vezes. Acho incrível como há gente zelosa de uma descendência basicamente ficcional. Será tudo para se achar especial por conta de uns parentes maltrapilhos chutados por uma suposta pátria hoje tão amada??

***Como disse, uma lástima que meu comentário soe arrogante. Suponho que seja pelo tom professoral, impositivo. Faço citações e cobro conhecimento, embasamento. Talvez tenha que corrigir essa abordagem. Mas não deixo de pensar que, enquanto isso... muitos “ofendidos” não têm prurido algum em reproduzir militantemente uma versão do passado (ia quase dizendo uma farsa) apoiada (mal apoiada) acriticamente numa históra rala e apologética (várias vezes já denunciada), que é a matéria constituinte dos símbolos municipais ufanistas – como o hino local, a bandeira, os monumentos etc. –, e não a partir de dados historiográficos obtidos por pesquisa acadêmica ou ao menos com algum lastro documental consistente. E isso leva à violência simbólica, que poucos parecem se dar conta, tal a naturalização da situação. O fato de uma menina ou menino negros terem de cantar na hora cívica da sua escola um cântico de louvação à “bravura alemã” do “loiro imigrante” (trechos literais da letra do hino municipal germanófilo) não causa nenhum constrangimento àqueles que “cultivam suas raízes” sem considerar todos que viverem e vivem, influenciaram e influenciam concretamente Santa Cruz do Sul. Que tipo de relação se quer forjar com uma pseudohistória e culto cívico municipal com esse teor de exclusivismo étnico-racial?? Que sentimento de pertencimento se quer construir nos “não-alemães”?? Que alemão é esse “loiro imigrante”?? Uma imagem estereotipada e que já é uma aberração diante da miríade de gentes que se assentaram aqui na região a partir de meados do século XIX, vindos de um país que nem existia na época, a Alemanha? Por que se insiste nesse conto de orgulho, de desejo de se engrandecer às custas de uma presunção calcada na adulteração da história local? Quem ganha com isso?? Desculpa dizer, mas quem ganha com isso é a imbecilidade, onde se inclui o racismo. A riqueza da história cotidiana das comunidades de/com teuto-descendentes (que alguns ainda hoje colocam fora da categoria “brasileiros”, justamente porque se têm como “especiais”), com suas culturas multihíbridas já desde a Europa, é terraplenada por uma germanofilia de quinta categoria, que iniciou-se há tempos e teve seus surtos nas intencionalidades políticas de momentos – sejam estrangeiras (o pangermanismo, por ex.) ou locais, para (por ex.) justificar a adoção de candidatos com determinados perfis, rejeitando-se outros. Se alguém quer continuar tolerando isso e tendo cuidados “para não ofender” (mesmo que uma outra ofensa está sempre sendo perpetrada), tudo bem! Da minha parte, não consigo mais ouvir sem ficar indignado – ainda mais quando é proferida e reproduzida por pessoas com excelente acesso a múltiplas informações.




20/06/2009

Da polenta e da cuca – uma pureza que não existe



Dias desses eu li na coluna Almanaque Gaúcho, de Olyr Zavaschi, publicada diariamente (menos domingo) em Zero Hora, um pequeno artigo “A milenária polenta” (p. 54, 23/05/2009). Pois este alimento – tão associado ao imigrante italiano no Rio Grande do Sul – sintetiza múltiplas e antiquíssimas influências – vejam só! – asiáticas, européias e americanas, ou seja, muito além da Itália e das zonas de colonização itálicas em solo gaúcho. Assim, um símbolo distintivo de uma etnia, carrega, na verdade, aquilo que todos somos: seres culturalmente híbridos desde sempre, não havendo existência real de purismos, fechamentos e exclusividades.

Anota Zavaschi que “a palavra como hoje é usada chegou à península Itálica com os hunos. O termo caucásico pulint (que se pronuncia pulent) foi trazido para o Ocidente com as tropas de Átila, no século 4º. Com a descoberta [?] da América e a introdução do e de sua farinha na Europa, a polenta ganhou um ingrediente fundamental. Foi assim, feita de farinha de milho, com herança asiática e ingredientes pré-colombianos, que ela embarcou nos navios da imigração no fim do século 19.”

O colunista finaliza dizendo: “Antes da vinda dos italianos, já se consumia no Brasil um produto assemelhada, o angu, que provavelmente tenha origem na papa de milho, consumida na Ilha da Madeira.”

A mesma coisa com a cuca, por exemplo, bolo típico das regiões e grupos com colonização germânica aqui no Rio Grande do Sul. Muitas influência e história se consubstanciam naquela delícia, com é o caso das coberturas tão tropicais – abacaxi, banana e o coco; ou ameríndias – o amendoim e o chocolate... Nas proprias comunidades massivamente formadas por descendentes de imigrantes da região que hoje é a Alemanha, come-se a cuca acompanhado de uma beberagem do povo guarani, o chimarrão, feito da nativa Ilex Paraguariense, a erva-mate.

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