HISTÓRIA, IDENTIDADE ÉTNICA E EXCLUSÃO SOCIAL NA REGIÃO DE SANTA CRUZ DO SUL (RS - BRASIL) *** Artigos opinativos e outros comentários selecionados pelo autor *** IURI J. AZEREDO

25 de out de 2008

Apontamentos bibliográficos de 2001

24 de agosto de 2001


APONTAMENTOS BIBLIOGRÁFICOS SOBRE A HISTÓRIA DE SANTA CRUZ DO SUL: A PLURALIDADE ÉTNICA NA FORMAÇÃO DO MUNICÍPIO

Segue abaixo alguns apontamentos, entre outros muitos e vários possíveis, de parte da bibliografia referente à história de Santa Cruz do Sul e região [boa parte com um notório “viés germanófilo”]. Tais dados buscam ressaltar, a partir da bibliografia “clássica” já existente a participação de outras etnias - além da alemã - na formação da comunidade santa-cruzense.

As palavras em negrito [ainda não marcada nesta postagem do texto], especialmente os nomes de pessoas e referências étnicas, foram colocadas por nós justamente para chamar a atenção sobre a presença e participação de outras origens geográficas, históricas e culturais no processo de desenvolvimento do município e região. Já o que está entre colchetes, são complementações para melhor compreender o fragmento pinçado nas obras e/ou assinalar alusões a etnias “não-germânicas”. Por fim, os três pontos entre parênteses são passagens que foram suprimidas dos fragmentos bibliográficos a fim de sintetizá-los conforme o nosso objetivo, ou seja, trazer à reflexão dados que indicam a pluralidade étnica presente ao longo da história de Santa Cruz do Sul.

É importante frisar que a nossa intenção não é o de negar ou menosprezar a já decantada importância dos teutos em Santa Cruz do Sul. Nossa pretensão é problematizar a questão, integrando a presença do “loiro imigrante” e da “bravura alemã” (conforme explicita o hino municipal, um dos “símbolos máximos” de Santa Cruz do Sul, que “oficializa” uma versão da história e da sociedade locais) a um contexto maior, mais complexo e abrangente; menos parcial, menos simplificado e desmitologizado. Talvez isso colabore para forjarmos ou reforçarmos uma comunidade – étnica e socialmente – mais justa e democrática.



#DICIONÁRIO HISÓRICO E GEOGRÁFICO DA REGIÃO DE SANTA CRUZ DO SUL – Armindo L. Müller – obra publicada em 1999 pela Editora da Universidade de Santa Cruz do Sul (EDUNISC)

“Faxinal do João Faria – Antigo nome da cidade de Santa Cruz do Sul. Em 1796, Dona Maria, rainha de Portugal, confirmou a doação de uma sesmaria a João Faria da Rosa (...). O avô de João Faria, que tinha o mesmo nome, foi o primeiro morador de Santa Cruz. Para resguardar-se das investidas dos índios, fez cercar sua casa pelos ranchos de seus numerosos escravos. O sobrado de madeira estava coberto de telhas de barro. Seu neto, com o mesmo nome, residiu na mesma propriedade, que serviu de alojamento para os colonos imigrantes. Foi este último quem transportou os colonos até o lugar dos lotes, que lhes foram concedidos, na Picada do Abel. (...) – pág. 40

“Abel – Picada, na Colônia Santa Cruz, também conhecida como Picada Velha e Picada Santa Cruz. Antiga denominação da atual Linha Santa Cruz. Ligava o Faxinal do João Faria (a atual cidade de Santa Cruz do Sul) como Rincão de Santo Antônio, no município de Soledade. A abertura da estrada foi aprovada pelo governo provincial, em 6 de dezembro de 1847, mas a picada somente começou a ser aberta em meados de 1849. Ao redor dela, os primeiros alemães receberam os seus lotes de terra. Homenageia o tenente-coronel Abel Corrêa da Câmara, que contratou a obra, através do seu capataz Delfino dos Santos Morais. (...) [O tenente-coronel Abel] Auxiliou na demarcação de terras e organização de novas colônias, entre as quais a de Santa Cruz. (...).” – pág. 7

“Áustria – Pequena picada, na Linha Santa Cruz (...). A denominação provém do imigrante Heinrich Joseph Östereich que ali se estabeleceu por volta de 1851, juntamente com sua família. O imigrante nasceu a 7 de março de 1796, em Fulda [na Áustria] (...).” –pág. 14

“Linha Barra do Quilombo [em Vale do Sol, antigo distrito de Santa Cruz do Sul, hoje emancipado] – Neste lugar se estabeleceram pessoas muito humildes, principalmente de origem lusitana. Supõe-se que, nas cercanias, em tempos passados, tenha existido um refúgio ou quilombo de escravos [afros].

“A colônia de Santa Cruz foi fundada dia 2 de dezembro de 1849. Duas semanas depois chegaram os doze primeiros imigrantes alemães (...) [entre eles] Augusto Wutke (...) acomapnahado de suas esposa Johannna Franziska Mummert (...) e dos filhos Johann Wilhelm ((...) Era casado com a paraguaia Maria Anna Gonzales). (...). –pág. 29-30

“Dona Carlota – 1. Arroio, na localidade do mesmo nome. 2. Bairro na cidade de Santa Cruz do Sul. Carlota Leopoldina Pedroso Barreto (...) casou com o imigrante inglês, Guilherme Lewis, um dos primeiros moradores de Santa Cruz do Sul, e preferia ser chamada de Dona Carlota (...)”. – pág. 34

“Gramado Xavier – Antigo distrito de Santa Cruz do Sul (...) foi colonizado, a partir de 1930, principalmente de pessoas de origem italiana, oriundas de antigas colônias do Estado. (...) Este topônimo [Gramado Xavier] homenageia o primeiro morador da localidade Custódio Xavier, que, junto com a família Brito, eram ervateiros e posseiros em terras pertencentes à família Schmidt. Entre os primeiros colonizadores podem ser citados as famílias de João Karal, Antônio e Pedro Ferrari, Fernando Pozzebon, Tomazzi, Legramanti, Berté e outras.” –pág. 45

“Italienberg – Morro dos italianos. Antiga denominação da Linha Alto Trombudo [localidade outrora pertencente a Santa Cruz do Sul]. Nessa região se estabeleceram alguma famílias italianas, como Durante e outras.” – pág. 50

“João Alves [localidade de Santa Cruz do Sul] foi o primeiro subdelegado da povoação de São João da Santa Cruz, por volta de 1860 e 1864. Foi também o primeiro presidente da comunidade Católica [de Santa Cruz do Sul].” –pág. 52

“Juca Rodrigues – Linha colonial, que, no passado, abrangia a atual Vila Verena, o Acesso Grasel e áreas adjacentes. Compreendia, na época, os matos de Vasco José Silveira e José Rodrigues de Almeida. Hoje está localizada dentro do perímetro urbano da cidade de Santa Cruz do Sul. Juca Rodrigues era agrimensor e fazia medições de terra na Linha Santa Cruz e era mais conhecido pelo apelido de Jacuri. (...) – pág. 53

“Jacuri – Arroio (...) forma a sanga Preta. Nasce no Acesso Grasel. [Homenageia] Juca Rodrigues, apelidado de Jacuri, realizou medições de terra na Linha Santa Cruz, tornando-se pessoa muito popular e solicitada.” –pág. 53

“Lajeado – (...) Afluente do rio Pardinho, que percorre o Bairro Renascença, passando entre os cerros Nagele Pinheiro. (...) No início da colonização de Santa Cruz, ali foram resirir o português Lucas Antônio Espíndola, o paulista José Leite Maciel, e ainda Paulo da Cunha, Francisco Gonçalves da Rosa, José Cândido de Oliveira e Evaristo Alves de Oliveira. (...)” –pág. 57

“Linha Preta – Localidade no município de Sinimbu [antigo distrito de Santa Cruz do Sul], onde teriam residido, principalmente, pessoas de origem africana, isto é, de cor preta. (...) –pág. 66

“Mato Alto – Pequeno povoado, no município de Vera Cruz [originalmente pertencente a Santa Cruz do Sul] (...), onde se estabeleceu o imigrante sueco Carl Johann Tonquist. (...) nasceu no dia 31 de maio de 1833, em Gladhammar, Wertrum, na Suécia (...).” –pág. 71

“Quilombo – Pequeno arroio na divisa [de Santa Cruz do Sul] com o município de Candelária. Quilombo nada mais é do que um local de refúgio de escravos [no caso, africanos]. (...)” –pág. 88

“Rio Pardo – Rio de grande importância para a colonização do Vale do Rio Pardo. (...) Em suas margens foram fundadas, em 1632, [três] reduções jesuíticas [padres espanhóis que buscavam aldear índios da região, catequizando-os] (...). [Rio Pardo é] Um dos quatro primeiros municípios do Rio Grande do Sul. O início do povoamento de sua sede ocorreu por volta de 1750 [com a forte e fundamental presença de lusos e afros]. (...) A história de Santa Cruz do Sul está intimamente ligada à história de Rio Pardo, de quem desmembrou-se em 1878 [quase 30 anos após a introdução dos primeiros colonos imigrantes em Linha Santa Cruz].” –pág. 94-95

“Santa Cruz – (...) Colônia, instalada em 1849, pelo Governo Provincial, em terras devolutas de Rio Pardo. Os lotes foram medidos às margens da Picada de Santa Cruz [trabalho esse realizado sob o comando do engenheiro português Frederico Augusto de Vasconcellos Almeida Pereira Cabral], que dava acesso à Fazenda Santa Cruz [de propriedade de João Marcos Vieira], no atual município de Lagoão. (...) No dia 4 de novembro de 1854, Francisco Cândido Menezes [Capitão Tenente d’Armada] e seu auxiliar José Luís Teixeira Lima iniciaram os trabalhos de medição das primeiras quadras na atual área urbana de Santa Cruz do Sul. Esta área foi desapropriada, em 1852, dos herdeiros de João Faria da Rosa [cujo avo foi o primeiro morador da hoje cidade de Santa Cruz do Sul, proprietário de afros escravizados]. (...) No dia 28 de setembro de 1878 foi instalada a Câmara Municipal, quando foram emposados os primeiros vereadores: Joaquim José de Britto, Carlos trein Filho, Roberto Jäger, Pedro Werlang, Jorge Luiz Eichenberg, José Lopes Simões e Germano Hentschke. (...).” –pág. 96-97

“Travessa – Picada, denominada pelos imigrantes de Querpikad. (...) Ali também residiram algumas famílias de origem holandesa.” – pág. 109-110

“Ziegenpikade – Picada Cabrito – Pequeno povoado, colonizado por agricultores alemães (...). Também João Furtado foi um dos pioneiros. A localidade está situada no Travessão Dona Josefa [cuja denominação se refere a Josefa Maria Branca Guedes Pinto, antiga proprietária de terras na região].” –Pág. 119


#SANTA CRUZ DO SUL – DE COLÔNIA A FREGUESIA: 1849-1859 – Hardy Elmiro Martin – obra publicada em 1979 pela Associação Pró-Ensino em Santa Cruz do Sul (APESC) dentro da Coleção História de Santa Cruz do Sul

"Segundo os estudos realizados pela equipe de pesquisas do Museu do Colégio Mauá, a Região em que encontra a atual cidade de Santa Cruz do Sul foi, primitivamente, habitada por indígenas pertencentes à: Fase Rio Pardinho (...). Conforme atestam as localizações dos sítios estudados, este grupo usou os vales dos arroios e rios, principalmente do Rio pardo, do Rio Pardinho, do Francisco Alves (Plumps) e outros, como vias de penetração, em nossa Região." - pág. 12

"Ainda devemos considerar que havia na Região de Santa Cruz, em princípios do século XVII, três reduções jesuíticas [ou seja, índios aldeados por padres espanhóis]: Jesus Maria, no atual município de Candelária, São Joaquim, próximo às nascentes do Rio Pardo; São Cristóvão, na confluência dos Rio Pardo e Pardinho." - pág. 13

"(...) O Governo Provincial e a Câmara de Rio Pardo [formados em sua quase totalidade por quadros luso-brasileiros] continuavam vivamente interessados em conseguir contato permanente entre a cidade permanente entre a cidade e os campos de Cima da Serra. Por conseguinte, não foi difícil conseguir a aprovação da Lei nº 11, de 6.12.1847 - Manoel Antonio Galvão, Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembléia Legislativa Provincial decretou e eu sancionei a Lei seguinte: Art 1º - O Presidente da Província é autorizado a contratar a abertura de nova estrada entre os município de Cruz Alta e Rio Pardo [passando e viabilizando a futura Linha Santa Cruz, local da colocação dos primeiros imigrantes na região de Santa Cruz do Sul], com Delfino dos Santos Moraes (...)." - pág. 28

"Engenheiro [português] Frederico Augusto de Vasconcellos Almeida Pereira Cabral (...) É um nome muitas vezes esquecido quando falamos da História de Santa Cruz do Sul. No entanto é de importância ímpar, pois foi ele o demarcador dos lotes colonias. (...) 'Bacharel Formado na Faculdade de Filosofia pela Universidade de Coimbra, com curso em Matemática Puras e Mecânicas na mesma Universidade, dedicou-se a Engenharia Civil, e prestou neste ramo das Ciências Aplicadas serviços à Companhia de Obras Públicas de Portugal (...)' Deve Ter sido com muita satisfação que a Província logo aproveitou os serviços de tal Engenheiro, pois na época era raro encontrar pessoas tão preparadas. E relamente o Engenheiro Cabral teve destacada atuação em Rio Pardo, em Santa Cruz, em Triunfo e em Arroio dos Ratos." - pág. 31

"Em outubro de 1850 foi nomeado como vice-diretor [que fez o papel deprimeiro administrador] da Colônia de Santa Cruz o Sr. Evaristo Alves de Oliveira.” – pág. 37

"Rio Pardinho (...) Foi inicialmente chamada de Picada Nova. Como já vimos estava ligada à Picada Santa Cruz pelo Travessão ou Linha Travessa ou 'Querpikade'. Neste Travessão foram também alojados alguns imigrantes holandeses, como Dark Noy, Gerhard Nyland e Bernhard Hackenhaar."

"Verificação da Navegabilidade do Rio pardinho (...) Preocupação constante para os colonos era a distância entre a Colônia e a cidade de Rio Pardo. (...) A navegação... estava ali o Rio Pardinho. (...)Todos afirmaram ao Juiz [de Rio Pardo] não ser difícil conseguir a navegação, livrando-se o Rio Pardinho de algumas tranqueiras e de dois saltos pequenos (...). Os encarregados [de realizar o serviço] foram os seguintes: José Leite Maciel - casado, natural de São Paulo; José Maria de Jesus - casado, natural de São Paulo; Gottlib Parnow - viuvo, natural da Pomerânia; Guilherme Schneiders - casado, natural da Prússia, Frederico Jandrey, solteiro, natural da Prússia; e o crioulo de nome Januário, escravo de Dona Joaquina Cardoso. (...) Todos os documentos relativos ao fato tem a data de 28.3.1853." - pág. 89

"Em princípios de 1855, ou talvez já em fins de 1854, o Capitão Tenente d'Armada Francisco Cândido de Castro Menezes iniciou os trabalhos de medição do local da hoje cidade de Santa Cruz do Sul. A esta Pessoa devemos o traçado de nossas ruas, a localização da Praça (hoje Praça Getúlio Vargas) enfim, o traçado moderno da hoje Capital do Fumo." - pág. 99

"A primeira concessão de terreno na Povoação [hoje cidade de Santa Cruz do Sul] ocorreu aos 19.3.1855 (...) Guilherme Lewis [imigrante inglês], Ricardo Antônio Dutra, Frederico Hansel, Jorge Silberschlag, Adan Reis, Martinho Haas, Jacob Krug e tantos outros também obtiveram lotes." - pág. 101

"Colonos Belgas (...) Em julho de 1855 o Diretor Buff [segundo administrador da Colônia de Santa Cruz, imigrante alemão chegado ao Brasil em 1824, residente em Rio Pardo, casado com a rio-pardense Josefina de Melo Albuquerque] estava à espera de colonos belgas, vindos da Antuérpia (...). (...) Os belgas chegaram, olharam os lotes que lhes haviam sido destinados mas poucos ficaram [isso significa que pelo menos mais de um belga ficou em Santa Cruz!]. Estes lotes ficavam na Linha Bom Jesus, na estrada que levava para Dona Josefa. (...)."

"O Capitão Tenente Menezes [responsável pela demarcação da povoação da hoje cidade de Santa Cruz do Sul] é favorável ao requerimento de diversos, pedindo lotes na Povoação: José Maria Vedódio, natural do Paraguai, casado; Paulo da Cunha, casado. - pág. 103

"Em julho [de 1856] chegavam mais 69 colonos; em setembro mais 15; entre eles João Nicolau Assmann. Depois, José Ferreira Machado, português, casado; João Nepomuceno, português, casado com brasileira; Polycarpo José da Costa, português casado com brasileira. Todos pedem terras na Picada de Santa Cruz, perto da serra, onde pretendem dedicar-se à agricultura e extração da erva-mate." - pág. 109

"(...) Uma vez criada a Paróquia de Santa Cruz, foi o primeiro pároco o P. Manuel José da Conceição Braga, nomeado em 6.6.1860, portanto, um ano e meio depois da elevação a Freguesia. (...)" - pág. 120

"(...) a 14.6.1859, Santa Cruz recebe um destacamento policial, composto de um cabo e dois soldados, ficando a força à disposição do subdelegado Antonio Eloy da Silva Câmara. (...)" - pág. 121

"Em 10 de março do mesmo ano [1859, quando Buff pede exoneração], Antônio Prudente da Fonseca é nomeado Diretor [portanto, o terceiro administrador da Colônia de Santa Cruz] (...). - pág. 123

"Colonos estabelecidos durante a Direção de Prudente da Fonseca [ou seja, a partir de 1859] (...) Em São João (...) Anna Maria Reis Col. nº 144, 8/8 (...) Em Ferraz (...) Julião de Oliveira Col. nº 16 e 17 é Posse antiga (...)" – pág. 127


#A CAMPANHA DE NACIONALIZAÇÃO DO ESTADO NOVO EM SANTA CRUZ (1937-1945) – Maria Hoppe Kipper – obra publicada em 1979 pela Associação Pró-Ensino em Santa Cruz do Sul (APESC) dentro da Coleção História de Santa Cruz do Sul

“Como aos colonos era proibida pela Lei Provincial nº 183, de 13 de outubro de 1850, a posse introdução de escravos [embora havendo precedentes para imigrantes chegados antes desta data e descendentes nascidos no Brasil, além dos lusos, que poderiam servir-se de escravos], raros foram os indivíduos de cor que viveram em Santa Cruz antes do final do século [a autora indica que havia negros nos primeiros tempos da introdução dos colonos imigrantes na região, mesmo que em número reduzido em relação aos europeus]. Após a abolição, estes poucos aumentam de número, estabelecendo-se especialmente em áreas da periferia da cidade, para onde vierarm atraídos por sua prosperidade, mas sempre foram discriminados pelos descendentes dos imigrantes, que os consideravam indolentes, imprevidentes e pouco higiênicos [!].” –pág. 14

“Além dos imigrantes e seus descendentes, também ajudaram na colonização, exercendo via de regra funções públicas e servindo, portanto, de ligação entre imigrantes e o governo, alguns elementos luso-brasileiros que já viviam anteriormente na região ou que se transladaram de Rio Pardo [de novo a autora indica a presença de outra etnia, além da teuta, no processo de colonização na região de Santa Cruz do Sul].” –pág. 14

“A atitude antipática dos subprefeitos [de Santa Cruz do Sul] para com a população [de origem teuta durante a campanha nacionalista do Governo Vargas – 1937-1945] não foi regra geral, pois a população do antigo distrito de Vila Tereza e do distrito de Monte Alverne recordam seus suprefeitos [Pedro de Souza Alves e José Ferrugem, respectivamente], ambos de origem lusa, exerciam com tato e moderção suas atribuições (...).” – pág. 42

“Por ocasião da implantação da Colônia de Santa Cruz a região já era hábitada por alguns elementos da cultura luso-brasileira.
Com o desenvolvimento da colonização alemã, brevemente estes elementos lusos passaram a constituir uma minoria insignificante [!] dentro de uma área onde a população de origem alemã constituía uma maioria bastante homogênea. Nas zonas interioranas, via de regra o elemento luso ficou marginalizado (...) [mesmo reforçando a inferioridade numérica, a autora volta a confirmar a presença lusa na região, mesmo antes da introdução dos imigrantes europeus a partir de 1849]”. –pág. 43

“Na cidade, desde o início, a participação dos elementos de origem lusa foi maior. Estes em geral ocupavam cargos públicos na administração municipal, na justiça, polícia, cartórios, exatorias, e eram bem considerados pelos imigrantes. (...)” –pág. 43

“Quando começa a se expandir o setor industrial, começam a afluir para a cidade muitas pessoas a procura de empregos, (...) surgindo na periferia da cidade os bairros operários, constituídos em sua maioria por elementos lusos. (...) –pág. 43


#PRÉ-HISTÓRIA DO VALE DO RIO PARDO – A HISTÓRIA DOS PRIMEIROS HABITANTES – Pedro Augusto Mentz Ribeiro – obra publicada em 1993, impresso na Gráfica Kirst (iniciativa do autor)

“O motivo principal de ter sido escrito este livro é (...) resgatar a verdade. Esta reside no fato de que os primeiros habitantes da região [incluindo Santa Cruz do Sul], como também da América, foram aqueles que convencionalmente chamamos de indígenas. E esta história de aproximadamente 10000 [dez mil] anos é ignorada, esquecida quando da reconstituição do passado dos vários municípios que integram a Associação dos Municípios do Vale do Rio Pardo (AMVARP).” –pág. 4

“O próprio vale do rio Pardo tem uma planta autóctone [planta nativa], cultivada e utilizada antes da chegada dos europeus [pelos povos indígenas da região de Santa Cruz do Sul], a base de sua economia: o fumo ou tabaco (Santa Cruz do Sul, a Capital do Fumo). (...)
No processo de miscigenação, existe a grande possibilidade de muitos de nós [santa-cruzenses e de outos municípios do Vale do Rio Pardo], de sobrenome lusos, apresentem uma (boa) parcela de sangue indígena. (...)” –pág. 5

“Os primeiros europeus que ocuparam a região foram os jesuítas espanhóis [chegados aqui em torno de 1634]. Em suas três reduções [locais onde os índios da região eram atraídos com o fim de serem catequizados] na área [do Vale do Rio Pardo] são aldeados os guaranis.” –pág. 8

“Pelos dados que dispomos, os primeiros povoadores do vale do rio Pardo foram os portadores do material definido como Tradição Umbu [ou seja, conjunto de técnicas de manufatura e sobrevivência usados por um determinado grupo indígena], regionalmente denomominada de fase do Rio Pardinho. Vieram possivelmente do sudoeste do Estado e, acompanhando a encosta do planalto, alcançaram o vale em estudo [estima-se que por volta de 10 mil anos atrás, ou seja, 8 mil a.C.].” –pág. 9

“Aproximadamente na época do descobrimento do Brasil, surgem no médio rio Pardo os portadores do material da fase Botucaraí, da Tradição Tupiguarani ou Subtradição Guarani. (...) Os sítios [locais de ocupação indígena] estiveram assentados, inicialmente, na várzea do rio. Após foram para locais mais elevados da região entre os rios Pardo e Pardinho; em movimentos ou deslocamentos, seguiram até o Jacuí, próximo a cidade de Rio Pardo, subiram o Pardinho até a altura de Santa Cruz do Sul (...).” – pág. 31

“A região do vale do rio Pardo pertenceu, inicialmente, à Espanha, pelo Tratado de Tordesilhas. (...) Até 1634 foram fundadas [no território do Rio Grande do Sul, por padres espanhóis] 18 reduções [aldeias para catequisação de indígenas], sendo as mais avançadas as do vale do rio Pardo (margem direita): São Joaquim, Jesus Maria e São Cristovão. (...) Antônio Raposo Tavares, bandeirante paulista, atacou-as em fins de 1636. (...)” –pág. 43-44

“A colonização européia [não considerando as reduções dos padres espanhóis como estruturas de colonização] do vale do rio Pardo [onde está Santa Cruz do Sul] iniciou-se com a vinda de imigrantes portugueses que se estabeleceram [a princípio] na zona de campo, ao sul, na primeira metade do século XVIII [entre 1700 e 1750].” – pág. 46


#RECORTES DO PASSADO DE SANTA CRUZ – Hardy Elmiro Martin – obra organizada e atualizada por Olgário Vogt e Ana Carla Wünsch, publicada em 1999 pela Editora da Universidade de Santa Cruz do Sul (EDUNISC)

“Quando o imigrante alemão chegou [pelo menos as primeiras levas, e considerando que muitas “promessas” não foram cumpridas ou demoraram a se concretizarem] recebia os seguintes favores do Governo [Provincial do RS, composto por esmagadora maioria de lusos]: alimentação para um mês; sementes várias; mais as seguintes ferramentas (para todos os imigrantes do sexo masculino maiores de 16 anos): [segue uma lista com 14 ferramentas, dois tipos de panelas e materiais de caça] (...).
Ficavam os imigrantes obrigados a providenciar as escrituras das terras presenteadas pelo Governo (...).” –pág. 17-18

“Naquela época, 1851/1852, já era plantado o fumo, com sementes vindas de Cuba/Havana, por iniciativa do Governo Provincial [do RS, composto por esmagadora maioria de lusos]. –pág. 22

“Já escrevemos que a 25 de novembro de 1852, pela Lei nº 248, o Vice-Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, Dr. Luiz Alvez Leite de Oliveira Bello, mandara desapropriar terras da herança de João Faria para estabelecer as bases da Povoação [originária da hoje cidade de Santa Cruz do Sul]. Esta desapropriação tornou-se necessária, pois esta área não era devoluta, isto é, tinha dono.
Porém, somente em 4 de novembro de 1854 o Capitão Tte. d’Armada, Francisco Cândido de Castro Menezes iniciou efetivamente os trabalhos, auxiliado por José Luiz Teixeira de Lima. Tudo conforme cartas de Castro Menezes [nesta época, administrador da Colônia de Santa Cruz], com data de 21 de abril de 1855, ao Presidente da Província.” –pág. 25

“A partir de 1861 os colonos imigrantes eram enviados a Mont’Alverne [hoje distrito de Santa Cruz do Sul], na maioria das vezes por via fluvial – Rio Taquari – até o porto da fazenda do Capitão João Francisco Fernandes, e dali, por terra, até a moradia do Sr. Joaquim da Cruz, em estrada aberta por iniciativa da Câmara Municipal de Taquari [município de forte presença açoriana]. Da propriedade deste Sr. Cruz, eram os imigrantes, depois, levados a Mont’Alverne. Parece que houve problemas neste trajeto, pois a Província, a 27 de 1861, encarregou o Major de Engenheiros Cândido Januário de Passos, de melhorar, com urgência, a picada que ligava Santa Cruz a Mont’Alverne.”
(...) Mont’Alverne (...) continuou Colônia, tendo seus Diretores, sendo um dos últimos o Sr. Antônio de Azambuja Villanova Filho.” –pág. 36-37

“Aos 17 de outubro de 1900, chegavam a Santa Cruz 90 cearenses enviados pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, para serem alojados em terras devolutas: 16 homens com suas mulheres, e crianças. Vinham a Santa Cruz para serem colonos. Deveriam ser alojados em Herval Baixo (...).
Era intendente de Santa Cruz o Dr. Adalberto Pita Pinheiro. Quando os cearenses chegaram a Santa Cruz foram alojados inicialmente no edifício da Câmara [de Vereadores, no centro da cidade]. (...)
Em levas contínuas os cearenses [após algumas mortes por doença] foram depois levados à Serra [possivelmente o autor se refere a região da Linha da Serra], sendo que os últimos partiram daqui [centro de Santa Cruz] na segunda quinzena de dezembro de 1900.” –pág. 43-44

“(...) na Mensagem apresentada ao Conselho Municipal de Santa Cruz, aos 15 de outubro de 1900, o intendente Adalberto Pitta Pinheiro, dizia que continuavam a ser feita regularmente a iluminação pública. (...)
Na mensagem apresentada a 15 de outubro de 1902, pelo mesmo intendente Pitta Pinheiro, este dizia: Está em estudo projeto de iluminação elétrica da Vila (...).
(...) a 1º de outubro de 1904, firmou-se o contrato com o Sr. Melchior, contrato este que foi modificado por outro assinado a 31 de agosto de 1905, quando já era intendente o Sr. Galvão Costa.” –pág. 50-51

“(...) em 1909, pelo Intendente João Gomes Cardoso, consta que a cidade de Santa Cruz era iluminada por 73 lâmpadas [elétricas] (...). Em 1911 o Sr. Henrique Melchior propõe à Intendência ceder o privilégio da iluminação, mediante a venda ao poder Público da Usina de sua propriedade. O então intendente, Sr. João Gomes Cardoso, manda levantar relação das existências da Usina e demais material da rede de pertences [a Intendência começou a administrar a usina e o serviço de eletricidade em 1º de janeiro de 1912].” –pág. 54

“E junho de 1906, a empresa do Coronel João Ganzo Fernandes prontificou-se a estabelecer uma rede telefônica na cidade de Santa Cruz. A 12 de junho do mesmo ano, o Intendente Galvão Costa mandou publicar edital chamando a concorrência pública para tal serviço [ganha pela empresa referida].” –pág. 75

“Aos 16 de março de 1907 [quase um ano após o início do serviço de telefonia em Santa Cruz], o Sr. Samuel Canosa, incansável representante da firma do Cel. Ganzo Fernandes, nesta cidade, comunica à Comunidade que a partir da data acima, não é representante da referida firma.” –pág. 77

“Assumiu então a Intendência de Santa Cruz o Dr. Adalberto Pita Pinheiro que passou a trabalhar incansavelmente para que Santa Cruz tivesse a sua ferrovia. (...)
No dia 22 de setembro de 1905, foi colocado o último trilho no ramal Couto/Santa Cruz e ainda no mesmo dia, às 16 horas, perante verdadeira multidão muito alegre, chegou o primeiro trem a Santa Cruz.
(...)
A passagem número 1 foi vendida ao Sr. Raul Santos. O primeiro agente da Estação Ferroviária de Santa Cruz foi o Sr. Leôncio Cabral.
A Solenidade inaugural da estação e do ramal ocorreu a 19 de novembro de 1905, com a presença do Dr. Augusto Borges de Medeiros, Governador do Estado e de luzidia comitiva. Nesta data a Vila Santa Cruz foi elevada à categoria de cidade.
O prédio da Estação, em Santa Cruz, foi construída na área comprada de Carlos Trein Filho e outra pequena fração de terra do Sr. Cirino Abdom da Silva Branco.” –pág. 82-83-84

OBS.: Na página 81, onde inicia o artigo sobre o Ramal Ferroviário de Santa Cruz, há uma foto interessante da inauguração do referido ramal em 1905: nela aparecem cerca de 20 (vinte) negros, vários deles empunhando pás, indicando a presença dos trabalhadores/as de origem afro em obras de infra-estrutura fundamentais para o desenvolvimento de Santa Cruz do Sul.

“(...) Isto [o surgimento do Colégio Distrital, a primeira escola pública estadual em Santa Cruz do Sul] ocorreu a 14 de fevereiro de 1902, contando com a presença do Inspetor Geral do Ensino do Estado, Dr. Manuel Pacheco Prates, festivamente recebido.
Na fundação do Colégio Distrital merecem destaque os esforços do Intendente Adalberto Pita Pinheiro e do chefe republicano local, Sr. Vasco de Azevedo, cujos apelos encontraram junto ao Dr. Borges de Medeiros e Dr. Júlio de Castilhos (este visitou Santa Cruz em 03/06/1897).
(...)
O primeiro diretor [da escola] foi o Prof. Balthazar dos Santos Paz (01/05/1902), sendo professores Luise Stein e Estelita Pinheiro Porto. (...)” –pág. 116

“O cinema foi, pouco a pouco, conquistando o público. Por volta de 1914 o Sr. Nestor Jorge de Souza Brandão comprou máquina para exibir filmes, na cidade e no interior do município.” –pág. 120

“Em janeiro de 1925 começou a funcionar este cine [o Cine-Theatro Gymnastica], no Salão de Festas da Sociedade Gymnastica, sob a responsabilidade do Sr. Armando Ferreira.” –pág. 121

“No dia da inauguração [do Estádio Futebol Clube Santa Cruz], 7 de setembro de 1923, o discurso foi proferido pelo Sr. Itiberê da Cunha.


#OS COLONOS ALEMÃES E A FUMICULTURA: SANTA CRUZ DO SUL, RIO GRANDE DO SUL 1849-1881 – Jorge Luiz da Cunha – obra publicada em 1991 pela Livraria e Editora da FISC (Faculdades Integradas de Santa Cruz do Sul)

“(...) ‘Relação das datas de terras concedidas na Picada Santa Cruz, com declaração das datas dos títulos de concessão das pessoas que as obtiveram e da quantidade de braças:
Em 10 de outubro de 1850 – ANTONIO JOZÉ B. MACHADO, uma área de ¼ de légua quadrada ou 2.250.000 braças quadradas.
Em 12 de outubro de 1850 - JOAQUIM BAPTISTA DA SILVA, idém. – JOSÉ PINTO DA FONSECA GUIMARÃES, idém.
Em 10 de dezembro de 1850 - PEDRO KLEUDGEN*, idém. – JOÃO SEVERINO PESSOA DE ANDRADE, uma data de terra nos matos da estrada do Rio Pardo para Cima da Serra e uma das margens do arroio Taquari Mirim com ¼ de légua de frente por uma dita de fundos. – CANDIDO JOSÉ DA COSTA, uma data no mesmo lugar com ¼ de légua. – ANTONIO ROIZ DE CASTRO, uma data no mesmo lugar com ¼ de légua.
Em 14 de dezembro de 1850 – FELIPE KELM, uma data no mesmo lugar com o mesmo ¼ de légua.
Em 23 de dezembro de 1850 - GASPAR PINTO BANDEIRA, uma área de ¼ de legua quadrada ou 2.250.000 braças quadradas. – FRANCISCO CANDIDO DE CASTRO MENEZES, ídem.
Em 24 de dezembro de 1850 - FELIPE DE NORMANN**, idém. LUIZ ANTONIO BOTELHO DE CARVALHO, idém. – JOAQUIM DA CRUZ FERREIRA SOARES, idém. – LUIZ MANOEL MARTINS DA SILVA, idém.
Em 25 de fevereiro de 1851 - MARCOLINO JOSÉ DE SOUZA, idém. – FRANCISCO PEREIRA CALDAS, idém. – ANTÔNIO JOZÉ DE ARAUJO BASTOS, idém. – FRANCISCO PINTO DE CARVALHO, idém. – JOZÉ CANDIDO ROIZ FERREIRA PEREZ, idém.
Em 15 de março de 1851 - JOAQUIM BALBINO CORDEIRO, idém. – FREDERICO HEYDTMANN***, idém. (...).’ [Obs.: listagem retirada pelo autor, prof. Jorge Cunha, de documento encontrado na caixa 286 – Santa Cruz – Arquivo Histórico do RS.]
Como se vê, são distribuídos 21 títulos de posse, somando a apreciável quantia de 47.250.000 braças quadradas na área da picada que dá origem à colônia de Santa Cruz, o que equivale a cerca de 22.869 hectares concedidos a elementos de tradicionais famílias de Rio Pardo e Porto Alegre ligados ao governo provincial.” [Obs.: Os nomes assinalados com asteriscos (*) na lista acima são de alemães que trabalharam para o governo provincial do RS naquela época.] –pág. 77-78

“(...) Monte Alverne [atual distrito de Santa Cruz do Sul], [foi] fundada em terras devolutas e ervais dos índios da aldeia de São Nicolau (Rio Pardo). (...) Com a valorização das terras em torno da colônia de Santa Cruz, os matos e ervais pertencentes aos índios da aldeia de São Nicolau de Rio Pardo, com cerca de 2.000.000 de braças quadradas (968 hectares), são considerados devolutos e loteados, passando a fazer parte da colônia de Monte Alverne, apesar da solicitação do Diretor Geral dos Índios da Província – José Joaquim de Andrade Neves (Barão do Triunfo) encaminhada ao presidente da Província para que estas terras não fossem loteadas. (...)” –pág. 106

“A colônia de Santa Cruz continua crescendo muito. Em 1863 o então diretor Carlos Schwerin, efetuando medidas na serra ao norte das Linhas Ferraz e São João, comunica que por ali pode ser construída uma estrada de rodagem que permita o acesso às terras devolutas de Cima da Serra e aos mercados das povoações do planalto. Contudo, o que chama a atenção no ofício em que dá notícias ao Inspetor Geral das Colônias é a comunicação de que havia encontrado ‘... os vestígios, que existem por dentro destes matos um quilombo numeroso [local onde se refugiavam negros escravos rebelados], cuja destruição é tanto necessário, que a colonização de Santa Cruz há de se estender por este lado até chegar em Cima da Serra.’ (...)” – pág. 107

“Finalmente, a colônia de Santa Cruz é emancipada por ato do presidente [da província do RS] José Fernandes da Costa Pereira Júnior, de 8 de novembro, em cumprimento do artigo 16, título 4º da lei nº 807 de 30 de outubro de 1872, aprovada pela Assembléia Legislativa Provincial que cede às pressões da Câmara Municipal de Rio Pardo [comunidade esta com esmagadora presença de lusos, que dominam as instituições governamentais e outras nesta época].” –Pág. 109

“Examinando as informações contidas no cadastramento relaizado por Carlos Trein Filho, conclui-se, excluídos os nascidos no Brasil [excluindo assim também colonos de outras partes do país], que 90% dos habitantes [estrangeiros em 1879, época do cadastramento] da Colônia de Santa Cruz haviam nascido em território do Reino da Prússia (...). Outros 0,55% são naturais, seis da Holanda, um da Bélgica e um da Suiça (Tirol). –Pág. 113

“(...) Somente na povoação [de Santa Cruz] é possível encontrar, no mesmo ano [1857], um torneiro (em madeira), um tanoeiro e uma olaria que ocupa dois oleiros e alguns escravos do inglês Guilherme Lewis [primeiro morador a edificar residência no povoado, casado com a rio-pardense Dona Carlota]. A Lei Provincial nº 183 de 18 de outubro de 1850 proíbe a introdução e a permanência de escravos no território da Colônia. Contudo, em fins do de 1857 o Diretor João Martin Buff informa em seus mapas estatísticos a existência de 21 escravos, sendo 13 do sexo masculino e 8 do sexo feminino, dando indicações de sua procedência: ‘...os ditos escravos pertencem as seguintes famílias: A herdeiros de Vasco Jozé da Silveira, estabelecido em terras de sua propriedade, muito anterior a fundação da Colônia; a Guilherme Lewis na forma dita, distante da povoação ¾ de légua, com quanto se acha atualmente na dita povoação, por ser o arrematante da edificação na dita capela; ao Sr. Antonio Ignacio da Silva, que tem só duas escravas de serviços domésticos, único com colônia, na qual faz plantação com braços livres; e a Evaristo Alves de Oliveira, em terras de sua propriedade, encravadas na Colônia.’ (...)” –Pág. 154-155


#O NASCER DE SANTA CRUZ DO SUL EM RÁPIDAS PINCELADAS – Leandro Telles – texto incluso no álbum “Centenário de Santa Cruz do Sul –1878-1978”, obra com a direção-geral de Romeu Bacchieri e impresso pela Amrigs Gráfica e Editora Ltda.

“É o Pe. Theodor Amstad que nos explica a hipotética origem da denominação [de Santa Cruz]. Diz ele que na época da fundação da colônia vivia no Faxinal um “brasileiro” de nome Cruz. Mantinha uma pequena venda no local e, ainda, a título de “defesa”, fazia medições e indicava aos imigrantes as suas respectivas colônias. Esse tal de Cruz tornou-se popular entre os colonos, ainda mais se considerarmos que a venda, até os dias de hoje, sempre foi um ponto de atração na colônia alemã (...).” –Pág. 9

“Quanto ao culto católico em Santa Cruz, em 1861, escreve Tschudi: ‘O sacerdote católico Manoel Vieira da Conceição Braga [primeiro pároco do então Faxinal] é português e não sabe se comunicar com os colonos de língua alemã (...)’. (...) O Pe. Braga fora nomeado pároco em 6.6. 1860, um ano e meio após a povoação ser elevada a Freguesia, pela Lei nº 432, de 8.1.1859. (...)” –Pág. 27

“Quanto a construção do templo católico [o primeiro a se erguer na hoje cidade de Santa Cruz do Sul, em frente e anterior a atual Catedral] (...) em 1855, o governo provincial abriu concorrência (...) adjudicada a Guilherme Lewis, americano [Obs.: conforme outros diversos pesquisadores , Lewis era imigrante inglês, não americano], ‘homem ativo e empreendedor, e de inteligência bastante cultivada para o tempo’ ([conforme João Bittencourt de] Menezes), antigo proprietário da Fazenda São João da Serra, fazenda muito importante, também pela extensão de suas terras, que abrangia a maior parte do Rincão D’El Rei e que se destacava, igualmente, pelo matagal situado entre o Arroio Pedroso, Rio Pardinho e Arroio das Pedras. A o tempo que Menezes redigiu sua obra ainda existia “a grande e velha casa da fazenda” provavelmente em estilo colonial (barroco) luso-brasileiro. Lewis foi o primeiro a edificar uma casa na povoação de Santa Cruz, no terreno nº 1 da quadra H, a ele concedido em 1855.” –Pág. 29

“(...) os colonos eram atendidos pelo [médico] dr. Antonio Ferreira de Andrade Neves, conforme se depreende do ofício de Buff [administrador local da colônia] (...). Salvo melhor juízo, o dr. Andrade Neves foi o primeiro médico de Santa Cruz. Julio Laun, em 1859, seria o primeiro médico a residir em Santa Cruz. Mas o primeiro a atender os colonos foi o dr. Antonio [nascido em Rio Pardo em 1808,onde também faleceu em 1890, tendo estudado medicina na França] (...).” –Pág. 29-30

“Enquanto a colônia progredia no alto da serra, o vale já era observado como futura sede da povoação. Pela Lei nº 246, de 25.11.1852, foram desapropriadas terras da herança de João Faria, um quarto de légua de campo e faxinais, que seriam anexados à colônia de Santa Cruz. Entretanto, somente em princípios de 1855, o Capitão da Armada, Francisco Cândido de Castro Menezes iniciou a medição do local onde hoje se assenta a laboriosa cidade de Santa Cruz. Na verdade, as terras haviam sido vendidas por João de Faria ao comendador Antonio Martins da Cruz Jobim, mais tarde Barão do Cambaí. (...) Vamos agora reproduzir os nomes dos primeiros concessionários em cada quadra que foram, portanto, os primeiros moradores da primitiva poviação [da hoje cidade de Santa Cruz do Sul]: [Obs. Na listagem que segue, enumerando as quadras, sua localização e respectivos donos, tem-se mais de 80 pessoas com sobrenomes tipicamente luso-brasileiros num listagem com um total de 164 concessionários, cerca de 50% da população naquela época que requisitou terrenos em Santa Cruz do Sul não era de origem alemã, sem considerar que há outros sobrenomes típicos de gente de outros países, caso de Lewis, da Inglaterra]. –Pág. 33-37


#HEINZ VON ORTENBERG, MÉDICO DO KAISER E DE SANTA CRUZ DO SUL – Lendro Silva Telles – obra publicada em 1980 pela Associação Pró-Ensino em Santa Cruz do Sul (APESC)

“(...) ‘O trabalho mecânico nas fábricas (Santa Cruz [do Sul]) é confiado aos brasileiros-negros e mulatos – e o trabalho que demanda inteligência é executado por alemães.’ (...)” [Obs. O trecho é citado pelo autor, referindo-se a obra do pastor evangélico Siegfried Heine entitulada “Como Pastor Alemão e Diretor de Escola no Sul do Brasil”; a situação nas fábricas se refere provavelmente ao final dos anos 30 do século XX.] –Pág. 166

“(...) Ortemberg [médico de origem alemã que clinicou em Santa Cruz do Sul] diz o seguinte: quando se fundou uma célula do Partido [nazista] em Santa Cruz, não pode [ele, Ortemberg] se filiar à mesma, porque ‘era composta de elementos que, em sua maioria, não honravam o seu apelido [sobrenome] alemão’. Alcoólatras, que em virtude de seus excessos já tinham sido presos pela ‘polícia negra’ (Negerpolizei, no original; certamente, o termo é usado para ‘captatio benevolentiae’ junto a GESTAPO [polícia na Alemanha nazista, que prendeu o referido médico durante um período da “2ª Guerra Mundial”]).” (...) –Pág. 168

“ ‘(...) O significado econômico da cidade, porém, reside no próspero comércio de fumo, que está na mãos alemãs e norteamericanas. (...) Os trabalhadores nas fábricas, na medida em que forem exigidos trabalhos mecânicos, são brasileiros, negros e mulatos. Para tarefas mais difíceis e de maior responsabilidade, de bom grado, são empregados alemães. (...)’. ” [Obs.: Trecho citado pelo autor retirado do artigo “As minorias Alemãs no Mundo – Santa Cruz, Uma Pérola da Colônia Alemã no Sul do Brasil” publicado provavelmente entre a década de 30 e 40 do século XX no “Volkischer Beobacher” – jornal vinculado ao partido nazista.] –Pág. 172


#ECONOMIA, POLÍTICA E RELIGIÃO EM SANTA CRUZ DO SUL NA REPÚBLICA VELHA – Silvana Krause – dissertação apresentada no Programa de Mestrado em Ciência Política – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – novembro de 1991

“O jornal Kolonie (21.02.1891) também menciona a religião da população de Santa Cruz, dizendo que nesta época havia no município um total de 15.572 habitantes, distribuídos assim: - brancos: 13.584; - de cor: 1.987; - protestantes: 7.049; católicos: 8.502; sem religião: 21.” [Obs.: esses números dizem que 12, 76% dos santa-cruzenses da época eram “de cor”, isto é, negros ou talvez mestiços diversos com pele escura. Interessante também é notar que a estatística é publicada há menos de três anos da “abolição da escravatura” (13/05/1888)! Pode-se inferir que diversos, senão grande parte, quiça a totalidade dos “de cor” eram trabaldores/as negros/as escravizados/as...] –Pág. 211

“(...) [Segue abaixo de uma tabela relacionando anos – de 1913 a 1929 –, número de habitantes e religião (católicos e acatólicos) a seguinte observação da autora] Obs.: Devemos considerar que nestas tabelas, até 1918, é incluído Monte Alverne. Também é contabilizada a região serrana [de Santa Cruz do Sul da época], onde praticamente só existem populações de descendência não-alemãs. (...)” –Pág. 212

“(...) Em 1926, os dados acusam que haviam 2.680 famílias ligadas à igreja luterana e 3.250 famílias católicas em Santa Cruz do Sul, sendo que das 3.250 famílias católicas, 940 eram de origem lusa, 50 de origem italiana e 3 norte-americanas. (...)” – Pág. 213


#CANDELÁRIA, SUA GENTE E SUA HISTÓRIA – ARISTIDES CARLOS RODRIGUES – EDITADO EM 1993 PELA GAZETA DO SUL S.A., SANTA CRUZ DO SUL

"Em Candelária havia muitos escravos (...) Não só os luso-brasileiros os possuíam. As leis número 143 e 183, de 27 de julho de 1848 e 13 de outubro de 1850, respectivamente, proibiam os colonos alemães de possuírem escravos. Essa proibição, logicamente, não era extensiva aos seus descendentes nascidos aqui [no Brasil], dado sua condição de brasileiros.
João Kochenborger [um dos primeiros colonizadores de origem alemã de Candelária, município vizinho a Santa Cruz do Sul, responsável pela construção do famoso aqueoduto, ponto turístico da região do Vale do Rio Pardo] comprou, em 26 de julho de 1867, do fazendeiro Estácio José Francisco Pessoa, os escravos de nome João e Felipe, com, mais ou menos, 20 e 31 anos de idade, respectivamente. Pagou por ambos a quantia de 2 contos e 400 mil réis. A 17 de agosto do ano seguinte, comprou, de Luiz Machado Teixeira, outro escravo que, também, se chamava João. Pagou por esse 1 conto e 200 mil réis. Além dos que citamos, possuía outros, pois, certa ocasião, ele vendeu, a seu sogro, João Bappen, um escravo de nome Antonio, com 14 anos de idade.
Seu genro Felipe Graeff [também um dos pioneiros germânicos em Candelária, filho do imigrante alemão Henrique Jácob Graeff] possuía 3 escravos, os quais havia comprado de Vasco Xavier da Cunha. (...)

Um escravo valia muito (...) Para se Ter uma idéia de quanto custava um escravo, basta lembrar que pouco antes de João Kochenborger haver comprado os escravos João e Felipe, pelo preço de 2 contos e 400 mil réis, ele tinha adquirido quatro colônias e meia de terras de mata virgem na segunda légua da Sesmaria do Pinhal [região de Candelária], portanto muito bem localizadas, por 1 conto e doze mil e 500 réis. Um escravo valia, pois, mais do que quatro colônias e meia de terras otimamente localizadas!" –Pág. 119

*Atualizado em 24/08/2001

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